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    Dia Nacional do Índio


    19 de abril: mesmo com avanços, índios ainda lutam por direitos

    Comemorado em todo o território nacional no dia 19 de abril, o Dia do Índio traz reflexões ao pensamento tradicional

    Providos de tecnologia e capacitação – mas, principalmente de sonhos – os quase 50 mil índios na capital, segundo aponta a Fundação Estadual do Índio (FEI) aposta em futuros concorridos | Foto: Janailton falcão

    Manaus - Comemorado em todo o território nacional no dia 19 de abril, o Dia do Índio traz reflexões ao pensamento tradicional.  Quando se pensa nos povos nativos, muitos lembram do homem que vive em malocas de palha, atira com arco e flecha e anda com uma tanga cobrindo as partes íntimas. Histórias de vidas reais no Amazonas contrapõe este imaginário. Povos indígenas são pessoas que quebram tabus a cada dia e vencem preconceitos e determinismo. Muitos contam com diplomas universitários, lançam empreendimentos inovadores e realizam ações que concorrem a prêmios internacionais.

    A indígena Djuena Tikuna, de 34 anos, jornalista e cantora profissional foi recentemente indicada para a 13º edição do maior prêmio de música indígena do planeta. Ela concorre ao Winnipeg, no Canadá. Com 11 anos de carreira e com apresentações em cidades de todo o país, a tikuna conta que o mais importante não foi apenas o reconhecimento, mas mostrar ao mundo o orgulho de ser indígena.

    “Alcancei marcos históricos para o meu povo. Um deles foi no ano passado, em que lancei um CD e protagonizei, pela primeira vez, no Teatro Amazonas, um espetáculo inteiramente voltado para a cultura indígena. Isto mostra para os meus irmãos e irmãs, de diversas tribos, que não é preciso ter medo de enfrentar a cidade grande. Mesmo sem muita ajuda, podemos ter oportunidades incríveis, se formos fieis à nossas raízes”, diz orgulhosa.

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    O  último trabalho musical de Djuena Tikuna,  intitulado Tchautchiüãne, traduzido para o português como “Minha Aldeia”, traz as cantigas nativas de tribo e memórias da infância no município de Tabatinga, no Amazonas. Outro feito que Djuena  é a de ser a primeira indígena do Brasil a cantar o hino nacional em solenidades na própria língua tikuna. Ela completa que também milita pela causa indígena no país. Como jornalista, trabalha para a promoção das etnias e a difusão de pautas que valorizem a cultura indígena. 

    Acompanhada da orquestra sinfônica brasileira, Djuena desafia fronteiras e arranca aplausos de todas as raças
    Acompanhada da orquestra sinfônica brasileira, Djuena desafia fronteiras e arranca aplausos de todas as raças | Foto: Divulgação

    “É engraçado que a identidade de uma criança é marcada pela língua que aprende nos primeiros anos de vida. As crianças indígenas que nasceram em Manaus desconhecem sua língua-mãe, pois os pais são obrigados a falarem o português na cidade grande. Meu objetivo é mudar este cenário e encontrar um espaço para a nossa cultura. Até o fim deste mês, pretendo abrir o primeiro portal de notícias voltado inteiramente para a nossa população. Creio que será mais um marco a se comemorar”, projeta.

    Médico da família

    Formado em medicina pela Universidade Estadual do Amazonas (UEA), Vanilson Brito, de 28 anos, é filho de índios Baré e se mudou de São Gabriel da Cachoeira, a 850 km de distância, para Manaus em 2007, quando ainda era menor de idade. Ele conta que, pela falta de assistência pública e a família não ter condições econômicas favoráveis, nunca contou com residência fixa na cidade. Foi obrigado a apelar para boa vontade de amigos e até morar em uma unidade básica de saúde.

    Com dificuldade de se manter na cidade, índios enfrentam rejeição e descaso do Governo
    Com dificuldade de se manter na cidade, índios enfrentam rejeição e descaso do Governo | Foto: Divulgação - Raphael Alves/TJAM

    “Não possuía parentes nem conhecidos na cidade, quando cheguei. Morei por um mês em uma casa de saúde, com vários pacientes, enquanto ia para a faculdade,mas estava determinado a realizar o meu sonho. Desde que houvesse um local para atar minha rede, estava tudo bem”, conta.

    Atualmente Brito mora em um apartamento com a irmã. Após fazer a especialização em cirurgia geral, diz que pensa em voltar para a cidade natal e ajudar à comunidade. “Não quero morar minha vida inteira por lá, mas quero ajudar a diminuir a carência do serviço de saúde no município", revela.

    Sozinhos na cidade grande

    O também universitário e presidente do Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas (Meiam), Erimar Miquiles, confirma a falta de políticas públicas efetivas para a categoria. Trabalhando integralmente como auxiliar de serviços gerais e dividindo o tempo como acadêmico de Direito, também na UEA, conta muitos indígenas são obrigados a saírem de suas aldeias para tentarem uma nova vida na capital, mas sem qualquer garantia de direitos básicos.

    “Não somos limitados a cota. Outros estudantes saem de suas casas com uma família de base econômica relativamente estável. Possuem um prato de comida garantido e vales-transportes. Nós temos que deixar tudo, para entrar na universidade. O movimento estudantil dos indígenas é bem frágil e luta por melhorias que não chegam. Todos estão numa situação escassa", admite.

    O presidente da Fundação Estadual do Índio reitera que o pensamento atual é urbanizar o índio
    O presidente da Fundação Estadual do Índio reitera que o pensamento atual é urbanizar o índio | Foto: Nicolas Daniel Marreco

    Vivendo em um estilo de vida tradicional, com economia baseada na piscicultura e extrativismo, os índios no Amazonas são obrigados a lidar com o desmatamento e invasão de suas terras, por parte de fazendeiros. Muitos vivem em área de conservação e não há politica pública efetiva para a promoção de saúde nas comunidades isoladas. Dados apontados pela FEI apontam que aproximadamente 200 mil indígenas povoam 30% do território estadual. Nesses lugares residem 66 etnias reconhecidas pelo Governo, com 29 línguas faladas.

    Políticas públicas

    O presidente da FEI, Amilton Bezerra Gadelha, destaca que serviços como saúde, educação, fomento à economia, está a cargo do Governo do Estado e da Prefeitura dos municípios. Neste cenário há extremos absurdos. "Cerca de 20 toneladas de pirarucu são pescadas por ano por comunidades no rio Purus e vendidas por R$2,50 o quilo, a atravessadores", relata.

    “A ideia que predomina atualmente é aquela pregada nos anos 60, em que o índio deveria ser civilizado. Apesar de projetos e planejamentos trabalharem contra isso, os governantes ainda não conseguiram formular uma política para a realidade indígena no Amazonas. Hoje, se o índio quiser vir para a cidade, vai ter que enfrentar a situação caótica da capital como qualquer outro. Ainda não há sensibilidade para acolhimento dessa população, com sua cultura diferenciada", completa.

    Produtos naturais como cerveja de guaraná são aproveitados por empresas estrangeiras e ignorados na economia local
    Produtos naturais como cerveja de guaraná são aproveitados por empresas estrangeiras e ignorados na economia local | Foto: Nicolas Daniel Marreco

    A expectativa por crescimento e melhores condições de vida chegaram às aldeias. Há iniciativas de empreendedorismo, embora ainda predomine a economia solidária, onde se produz coletivamente para promoção do sustento das tribos.

    “A tribo dos Satere Mawe, em Parintins, possui um consórcio internacional para colher o guaraná com a finalidade de fabricar cervejas envazadas. Quem faz todo o processo industrial é uma empresa na Alemanha. Era para a própria economia local ser beneficiada com isso, mas simplesmente estamos perdendo dinheiro por falta de incentivo", explica.

     A desigualdade que nasce de políticas públicas equivocadas pode ser vista no crescimento do êxodo rural da população indígena, cada vez mais presente nas cidades. De acordo com a  Fundação Estadual do Índio (Fei), quase 50 mil índios vivem em Manaus. 

    Na balança, um universo de culturas que se completam e, por vezes se estranham, em seus territórios. Em mais um Dia do Índio, a luta ainda persiste. Ainda não há muitos avanços a se comemorar, mas a boa notícia é que que o número de índios no Brasil vem aumentando. A taxa de crescimento da população indígena é de 3,5% ao ano, superando a média nacional, que é de 1,3%.

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