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    Grandes histórias


    Naufrágios: vidas ceifadas em rios da Amazônia

    Entre os principais motivos dos naufrágios está a superlotação de cargas e passageiros
    Vidas ceifadas em rios da Amazônia

    20 pessoas foram vítimas do naufrágio do Comandante Sales | Foto: Reprodução

    Manaus - A superlotação de pessoas e cargas nas embarcações que navegam pelos rios do Amazonas é a principal causa dos naufrágios registrados na região, segundo a Marinha do Brasil. A vontade dos donos dos barcos em lucrar mais, com o menor número de viagens possíveis, é o fator mais perigoso aos viajantes dos rios da Amazônia. Grandes naufrágios estão nos anais da Marinha e o Em Tempo relembra seis tragédias que ocorreram nas águas barrentas e negras que banham o Amazonas e entraram para a história.

    Antes de você navegar nessas trágicas histórias, é importante lembrar que os viajantes precisam ficar atentos e verificar se os barcos ou navios oferecem segurança para uma viagem tranquila. De acordo com o 9º Comando do Distrito Naval da Marinha do Brasil, em 2018, foram registrados nove naufrágios, com 14 vítimas fatais, na área do distrito naval, que compreende os estados do Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima. Três deles aconteceram no Amazonas, sendo um acidente em um lago no município de Tefé, um no rio Purus, em Boca do Acre, e dois no Porto de São Raimundo, em Manaus.

    Já em 2017, foram registrados 47 mortes de acidentes de navegação. Ainda segundo o 9º Distrito Naval, o comandante da embarcação é quem define o trajeto da viagem considerando as condições climáticas do local e as condições do rio, que são apontadas em Cartas Náuticas e Avisos-Rádio Náuticos. Estes documentos são elaborados pela Marinha do Brasil. 

    Dicas para viajar seguro

    O 9º Comando do Distrito Naval esclareceu que os passageiros podem verificar se a embarcação escolhida para viajar é regularizada perante à Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental (CFAOC) e se possui material de salvatagem, (coletes e boias, por exemplo), extintor de incêndio e verificar o estado de conservação da embarcação, além de ver se os condutores são habilitados.

    A responsabilidade do cumprimento das Leis da Segurança da Navegação é de competência dos proprietários e condutores das embarcações. Caso o passageiro constate alguma irregularidade, ele poderá contribuir para a segurança da navegação, denunciando pelos telefones: (92) 99302-5040 e 185.


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    Na área de jurisdição do comando, os rios que concentram a maioria dos acidentes são o Amazonas e o Madeira. A equipe do Em Tempo fez um levantamento sobre os acidentes que entraram para a história local e que deixaram dezenas e até centenas de vítimas fatais.

    1 - O Titanic da Amazônia (1981)

    Há 37 anos uma tragedia estava anunciada com a superlotação do Titanic da Amazônia
    Há 37 anos uma tragedia estava anunciada com a superlotação do Titanic da Amazônia | Foto: Reprodução

    Mais de 300 pessoas morreram durante uma tragédia, que já era anunciada. O maior naufrágio do rio Amazonas, que levou o título de "Titanic da Amazônia", pela quantidade de mortos, aconteceu no ano de 1981, há mais de 37 anos. 

    O navio Sobral Santos 2 saiu do porto de Santarém, no Pará, e teria como destino final a cidade de Manaus. Porém, a embarcação não chegou nem na sua primeira parada, a cidade Óbidos. De acordo com dados registrados na época do acidente, o navio estava com superlotação de pessoas e cargas. Havia 530 passageiros e 200 toneladas de carga no convés.

    A sobrevivente do naufrágio, a amazonense Marias Rosa, de 60 anos, explicou para o EM TEMPO que tem memórias vivas sobre a noite do acidente.

    "Eu tinha ido a Santarém visitar dois tios que estavam doentes. Seria uma visita rápida, pois tinha que voltar para Manaus, pois, precisava voltar ao trabalho. O navio estava superlotado e as pessoas estavam mal acomodadas. Lembro que alguém disse que questionou o capitão sobre a superlotação, mas ele amenizou a preocupação", explicou a sobrevivente, que ainda lembrou como conseguiu se salvar naquela madrugada.

    "Era muita gente gritando por socorro, foi uma loucura. Todo mundo desesperado, mas eu consegui me salvar quando segurei em uma boia e me distanciei um pouco do local do acidente. Chorando e cansada, eu aguardei ser resgatada. Quem me salvou foi um grupo de pescadores, que também salvou outras pessoas", completou Maria.

    O naufrágio ocorreu durante a madrugada, por volta das 3h30, no ponto mais fundo do rio Amazonas. Apesar do acidente ter ocorrido no estado vizinho, a maioria dos passageiros morava no Amazonas e dormia nos camarotes ou em redes atadas pelos corredores. Um passageiro notou que o barco estava inclinando e alertou os demais. Houve correria e o barco foi a pique. Há uma informação, extraoficial, de que a tripulação teria partido do porto uma hora antes do permitido pela capitania fluvial. Apontando que ela queria, possivelmente, escapar da fiscalização.

    2 - Navio motor Ana Maria (1999)

    O naufrágio vitimou 61 pessoas
    O naufrágio vitimou 61 pessoas | Foto: Reprodução

    O navio motor Ana Maria VIII naufragou nas proximidades do município de Manicoré (distante 332 quilômetros de Manaus), no rio Madeira. O naufrágio, que aconteceu na noite do dia 10 de fevereiro de 1999, próximo da localidade Pau Queimado, vitimou 61 pessoas. 18 corpos foram encontrados e 43 pessoas desapareceram e os cadáveres nunca foram encontrados. 

    Rejane Cruz e o esposo Gilmar perderam dois filhos na tragédia, os gêmeos Gabriel e Guilherme. Ela contou como ainda é difícil superar a perda e as lembranças do dia trágico em uma publicação na internet.

    "Eu, meu esposo Gilmar e meu filho Gustavo somos sobreviventes desta tragédia que nos atingiu tirando as vidas de meus dois outros filhos: Gabriel e Guilherme, gêmeos de dois anos e quatro meses".

    O auxiliar administrativo Sandro Lima de Souza contou que estava perto da cabine dos tripulantes quando ocorreu o acidente. O barco virou e afundou em, aproximadamente, 60 segundos. Ele precisou nada mais de 40 minutos para chegar na margem do rio. "Eu pensava que não ia aguentar. Parava no meio do rio, boiava e tomava fôlego para continuar nadando", disse ele à imprensa na época.

    De acordo com o laudo dos bombeiros, ficou comprovado que o navio também estava sobrecarregado e superlotado. O barco acabou tombando e afundando rapidamente após entrar em um redemoinho. O estudo apontou que havia mais de 93 toneladas, inclusive dois automóveis, e 192 passageiros. Entretanto, a capacidade máxima dele era de apenas 150 passageiros. Pelo menos quatro turistas estrangeiros estavam dentro do barco.

    Sobreviventes relataram, na ocasião, que a embarcação fez diversas paradas para pegar passageiros após a vistoria da Capitania dos Portos. O Ana Maria VII estava com o certificado de segurança vencido desde maio de 98, quase um ano atuando com irregularidade nos rios da Amazônia e sem impedimento dos órgãos competentes.

    A embarcação era de propriedade da empresa Fonseca Navegação. Pelo menos quatro turistas estrangeiros estavam dentro do barco. Segundo a Justiça, houve negligência do Estado em relação a fiscalização do barco. 

    3 - Princesa Amanda (2000) 

    Na madrugada do dia 25 de novembro de 2000, no rio Solimões, a embarcação Princesa Amanda naufragou e causou a morte de 29 pessoas. A embarcação saiu de Manaus rumo a Fonte Boa (distante 626 quilômetros da capital), no interior do Amazonas. De acordo com o relatório do acidente, o excesso de carga e de passageiros aliados a modificação da estrutura da embarcação e a imprudência do comandante, foram as principais causas do desastre. O comandante da Capitania dos Portos da Amazônia Ocidental, na época, José Luiz de Souza Batista, informou que o comandante do Princesa Amanda foi notificado sobre excesso de carga três horas antes de partir do Porto de Manaus.

    O naufrágio aconteceu perto do município de Iranduba (distante 27 quilômetros de Manaus), próximo à localidade denominada Praia de Maria Antônia. A embarcação que transportava 42 toneladas de carga e 82 passageiros. Um sobrevivente do acidente disse que um sargento da capitania teria aparecido para averiguar a denúncia de excesso de peso, e mesmo assim teria permitido a saída da embarcação do porto de Manaus.

    De acordo com o Ministério Público Federal no Estado do Amazonas (MPF-AM), irregularidades foram constatadas no procedimento de inspeção naval e fiscalização da Princesa Amanda. O dono da embarcação foi condenado na Justiça a pagar indenização para os sobreviventes no valor de R$ 12.440, como indenização por danos morais. Os familiares das vítimas fatais e desaparecidos recebem pensão vitalícia no valor de R$ 1.244. Na ocasião, eles ainda receberam o valor de R$ 622 por danos materiais, correspondentes às despesas de funeral e luto.

    Devido ao acidente, a União também foi condenada a intensificar a fiscalização dos barcos de transporte de passageiros no Amazonas e a apresentar relatório completo de atividades, constando relação de todos os barcos registrados, nome do proprietário, engenheiro armador responsável e situação de regularidade junto à Capitania dos Portos.

    4 - Princesa Laura (2004) 

    Após enfrentar uma forte tempestade com ventos fortes por cerca de uma hora e meia, a embarcação Princesa Laura naufragou na região de Cuieira, nas proximidades da comunidade de Santa Maria, no rio Negro. A Capitania dos Portos informou que o barco estava com excesso de carga. Ao menos 15 pessoas morreram durante o acidente que aconteceu em um domingo, dia 19 de setembro de 2004.

    O barco saía do município de Barcelos (distante 399 quilômetros da capital) e tinha como destino a cidade de Manaus. De acordo com a Capitania, a embarcação teria capacidade para 60 toneladas, mas sobreviventes do acidente informaram que o Princesa Laura estava com excesso de carga. Uma praia foi a salvação para a maioria dos sobreviventes do acidente, que conseguiu chegar ao local nadando.

    A Capitania informou que a documentação da embarcação estava regular. Durante as buscas pelos corpos foram mobilizados dez mergulhadores do Corpo de Bombeiros, uma equipe da Marinha do Brasil também ajudou nas buscas. De acordo com os bombeiros, a maior dificuldade foi retirar os corpos de dentro dos camarotes da embarcação.

    Suspeita de aliciamento de menores

    Em uma reportagem, o Estadão - à época - informou que o naufrágio mostrou a existência da prática de aliciamento de meninas para programas sexuais com turistas estrangeiros durante viagens pelos rios da Amazônia. Duas adolescentes, de 16 e 17 anos, estavam no barco Princesa Laura sem o consentimento doa pais e foram vistas saindo de Barcelos na companhia de turistas. Entre os 11 mortos, segundo a Capitania, oito eram do sexo feminino, com faixa etária de 16 e 20 anos.

    A suspeita de programas sexuais com as menores surgiu durante os depoimentos dos familiares e de pessoas que viram as garotas chegando ao município de Barcelos em uma lancha acompanhadas pelos turistas. Essa denúncia nunca foi efetivamente comprovada.

    5 - Comandante Sales (2008)

    20 pessoas foram vítimas do naufrágio do Comandante Sales
    20 pessoas foram vítimas do naufrágio do Comandante Sales | Foto: Reprodução

    O barco Comandante Sales, que conduzia cerca de 80 pessoas, naufragou durante a madrugada de um domingo, 6 de maio de 2008, e foi considerado o segundo maior do país. O naufrágio aconteceu há 10 anos e ainda mexe com o imaginário de quem viveu horas de terror no rio Solimões. A embarcação estava se deslocando para Manacapuru após uma festa na localidade do Lago Pesqueiro quando começou a afundar.

     A embarcação, segundo o laudo técnico, estava superlotada e naufragou durante uma forte chuva na região. Mais de 40 pessoas foram vítimas fatais do acidente. Uma equipe de 12 mergulhadores e cerca de 20 bombeiros trabalharam nas buscas.

    O professor Wellington Muniz, de 40 anos, estava na festa e foi um dos sobreviventes do acidente, ele ficou emocionado ao contar sobre os minutos de horror que passou naquela noite.

    "Depois que acabou a festa, tive que voltar pra casa, que fica em Manacapuru. Peguei a embarcação e nunca imaginei que viveria uma noite de terror. Tinha muita gente no barco, começou a chover muito e o banzeiro estava ficando cada vez mais forte. Começou a entrar água no barco e todo mundo ficou desesperado, foi correria. Só consegui me salvar daquela situação por um milagre, pois eu achei que iria morrer", finalizou Muniz.

    Foram resgatados 25 corpos de homens, 19 de mulheres e uma criança de 9 anos. Alguns deles foram encontrados com até 30 quilômetros de distância do local do naufrágio. Dois barcos foram usados para evitar que a embarcação afundasse completamente.

    O laudo pericial apontou que o acidente teve como causas determinantes, o excesso de pessoas a bordo, alterações estruturais realizadas sem o acompanhamento de um responsável técnico habilitado, a falta de habilitação do condutor, a quantidade insuficiente de coletes salva-vidas e ausência de aparelho flutuante ou boias salva-vidas.

    O comandante Luis Alves de Sales foi levado a júri popular, naquele que foi considerado o primeiro julgamento por acidente fluvial da Amazônia. Os jurados o inocentaram por quatro votos a três.

    6 - Barco Almirante Monteiro (2008)

    16 pessoas morreram no acidente. O barco estava com 111 passageiros a bordo
    16 pessoas morreram no acidente. O barco estava com 111 passageiros a bordo | Foto: Reprodução / Internet

    Depois de colidir com a balsa de carga "Carlos Eduardo", em 20 de fevereiro, em 2008, o barco Almirante Monteiro naufragou com pelo menos 90 pessoas. O acidente aconteceu nas proximidades do município de Itacoatiara (distante 175 quilômetros da capital), próximo à Vila do Novo Remanso, e resultou na morte de 16 pessoas

    O barco teria saído da cidade de Alenquer, no Pará, e tinha como destino a cidade de Manaus. De acordo com os bombeiros, 111 pessoas estavam no barco de acordo com a lista de passageiros e tripulantes. A embarcação tinha capacidade para 165 pessoas.

    Os bombeiros e a Marinha do Brasil realizaram as buscas pelas vítimas com auxílio de helicóptero do Exército Brasileiro e agentes da polícia de Itacoatiara. Entre os mortos confirmados estavam mulheres e crianças.

    Na ocasião, o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Amazonas (MP-AM) destacam que os comandantes das duas embarcações avistaram-se em tempo suficiente para que pudessem ter evitado uma colisão, o que demonstrou a negligência e o despreparo dos condutores para o transporte aquaviário.

    O relatório da Capitania Fluvial indicado na sentença judicial apontou que o barco contrariou várias normas de segurança, entre elas a ausência de tripulante auxiliar de saúde, o embarque de pessoas sem o devido registro e o transporte de cargas e de passageiros no mesmo compartimento.

    A Justiça Federal condenou a União, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), a empresa F. P. Navegação Ltda. e o empresário Ermelson dos Santos Ferreira ao pagamento de 25 salários-mínimos, como indenização por dano moral, a cada vítima sobrevivente ou familiar de vítima falecida no naufrágio da embarcação "Almirante Monteiro"

    A Amazônia tem 25 mil quilômetros de extensão de rios navegáveis e mais de dois milhões de pessoas utilizam algum tipo de transporte aquático, por mês, no Amazonas.

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