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    Navegação na Amazônia


    Na Amazônia, onde o rio comanda a vida, navegar é preciso

    Dados da Marinha do Brasil apontam que, na Amazônia Ocidental, há mais de 44 mil embarcações registradas

    Embarcações na orla de Manaus | Foto: Janailton Falcão/EM TEMPO

    Manaus – O barco navega pelo rio transportando tripulantes e passageiros que aguardam a chegada ao destino. Saindo de Manaus, muitas redes armadas nas embarcações, garantem o conforto dos passageiros, enquanto a viagem segue tranquila pelos rios Negro, Solimões ou Amazonas, em direção a um dos muitos destinos da Amazônia. 

    Durante o percurso, paisagens amazônicas são espelhadas nas águas escuras ou barrentas, com ouvidos atentos ao barulho do motor. 

    Do Porto de Manaus, partem embarcações para os 62 municípios do Amazonas e também para vários outros estados. O porto flutuante, no centro da cidade, recebe ainda navios e transatlânticos de vários países do mundo.

    Transportando pessoas e cargas pelos rios, as embarcações são os meios de transporte mais tradicionais da região amazônica.

    De diferentes tamanhos e modelos, atendem a diversas finalidades e navegam pelas águas da região, assim como os carros transitam pelas estradas em outras regiões do País, seguindo regras e legislação adequada.

    O prazer de navegar

    Quem passa a vida navegando pelos rios, geralmente descreve as viagens como boas experiências. Durante os longos trajetos, as belas paisagens podem ser apreciadas durante as extensas rotas, que só existem em tamanha extensão, na região amazônica. Nos barcos maiores, é possível armar redes e os passageiros seguem descansando, ao longo do trajeto.

    A calmaria das viagens é citada pela dona de casa Luzia Gomes, de 70 anos, como momentos de paz. Ela viaja há muitos anos de barco e sempre aproveita o percurso para descansar. “Viajar de barco é muito bom, vamos deitados na rede, sentindo o banzeiro calmo do rio. Sempre aproveito para cochilar”, afirmou.

    Em barcos maiores e navios, os passageiros podem armar suas redes nos conveses e descansar durante as longas viagens
    Em barcos maiores e navios, os passageiros podem armar suas redes nos conveses e descansar durante as longas viagens | Foto: Janailton Falcão/EM TEMPO

    A viagem tranquila e a segurança dos passageiros estão ligadas, porém, à responsabilidade dos tripulantes da embarcação, que devem seguir à risca as regras determinadas pela capitania. Terezinha Guedes, de 58 anos, é contramestre fluvial há 15 anos. Ela ressalta a importância de trabalhar com seriedade pela segurança.

    “Como tripulantes, temos que ter muita atenção. Saber a rota de navegação e nunca esquecer que estamos lidando com vidas dentro de uma embarcação".

    Perigos

    As longas viagens pelos rios do Amazonas são desafiadoras até mesmo para os navegantes mais experientes.

    Temporais, banzeiros, piratas dos rios, cheia ou seca. Sempre há um fator a ser considerado antes de seguir viagem. Para Terezinha Guedes, a navegação noturna requer atenção redobrada. “Navegar à noite traz muitos riscos. Precisamos estar focados na direção e nos perigos da noite.  Precisamos estar com os holofotes bem ligados para que haja uma visualização segura para a navegação", afirmou.

    Os riscos da navegação aumentam com as más condições do tempo e à noite.
    Os riscos da navegação aumentam com as más condições do tempo e à noite. | Foto: Janailton Falcão

    As más condições do tempo também podem dificultar a navegação de qualidade. Os temporais com ventos, comuns no inverno amazônico, comprometem a estabilidade dos barcos. “Quando cai uma chuva com ventos fortes, precisamos equilibrar o barco, para não colocarmos a tripulação em risco", explicou. 

    O período de seca nos rios também representa um risco para as embarcações. A quantidade de galhos e pedras é bem maior, quando o nível da água está baixo e pode comprometer a estrutura do barco. Além disso, há os famosos bancos de areia que causam os encalhes. 

    Além de todos os riscos causados pelas condições do tempo ou pelo nível da água, tripulantes e passageiros devem ficar atentos para outro perigo, que não tem a ver com a natureza: os piratas da Amazônia.

    Quando surgem, os piratas dos rios saqueiam os bens da tripulação e podem ser extremamente violentos.

    A agente de saúde, Rosineide de Souza, de 41 anos, conta que não consegue dormir nas viagens, devido ao medo dos criminosos. Ela conta que mora em Beruri e viaja uma vez por mês a Manaus para levar a filha ao médico.

    “Todas as viagens são perigosas. Eu viajo com muito medo de ladrões e não consigo dormir direito”, afirmou.

    Um perigo não-natural acaba rondando as embarcações que navegam pelos rios: os piratas
    Um perigo não-natural acaba rondando as embarcações que navegam pelos rios: os piratas | Foto: Janailton Falcão

    Conforme a contramestre Terezinha Guedes, os piratas ficam em ramais, observando a embarcações que passam. "A gente tem que ter cautela, porque eles ficam esperando, à espreita, o momento de atacar. Quando conseguem, levam a melhor. Não há policiamento nos rios".

    O navegador Sebastião Alencar, de 54 anos, dono da embarcação "Carlos Lopes" também fica atento à ação dos piratas. "Eu tenho muito medo de ladrão no rio. Há gente perigosa, que fica cobiçando os bens alheios", relata.

    Naufrágios

    Em 2017, foram registrados 89 acidentes na área de jurisdição do Comando do 9° Distrito Naval (Com9ºDN). Já em 2018, até o mês de agosto, houve 63 ocorrências.

    A Marinha do Brasil é o órgão que rege a legislação das embarcações em águas nacionais.

    O Comando do 9º Distrito Naval é a “ramificação” da Marinha que abrange os estados do Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima.

    O Comando do 9º Distrito Naval,  responsável por realizar Operações Ribeirinhas, utiliza meios navais, aeronavais e fuzileiros, em atividades de Patrulha e Inspeção,  em uma malha hidroviária com 26 mil quilômetros de extensão.

    Barcos, lanchas e navios são os meios de transporte mais utilizados na região amazônica
    Barcos, lanchas e navios são os meios de transporte mais utilizados na região amazônica | Foto: Janailton Falcão

    Leia também: Naufrágios: vidas ceifadas em rios da Amazônia

    Ao todo, nove organizações militares compõem o Comando do 9º Distrito Naval: Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental, Comando da Flotilha do Amazonas, Estação Naval do Rio Negro, Batalhão de Operações Ribeirinhas, Centro de Intendência da Marinha em Manaus, Capitania Fluvial de Tabatinga, o 3º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral, Policlínica Naval de Manaus e o Serviço de Sinalização Náutica do Noroeste.

    Ainda conforme informações da Marinha, atualmente 44 mil embarcações encontram-se inscritas na Área de Jurisdição da Amazônia Ocidental.

    Todas as embarcações motorizadas estão sujeitas à inscrição junto à Capitania, Delegacia ou Agência Fluvial mais próxima.

    Embarcações são obrigadas a cumprirem regras de trânsito e sinalização pela água.
    Embarcações são obrigadas a cumprirem regras de trânsito e sinalização pela água. | Foto: Janailton Falcão

    Regras

    Proprietários de barcos precisam seguir regras para garantir viagens seguras. As embarcações são obrigadas a cumprir o  Regulamento Internacional Para Evitar Abalroamento no Mar (Ripeam), equivalente às regras de trânsito e sinalização pela água.

    Na Área de Jurisdição do Comando do 9º Distrito Naval, o Serviço de Sinalização Náutica do Noroeste (SSN-9) possui a função de fiscalização e manutenção desses sinais de auxílio à navegação. Atualmente, os sinais estão localizados nos Rios Amazonas, Solimões e Negro. O SSN-9 está realizando o balizamento dos sinais do Rio Madeira. 

    Toda embarcação deve estar inscrita em uma Capitania, Delegacia ou Agência da Marinha do Brasil. Os profissionais devem estar habilitados para conduzir. Obrigatoriamente os barcos precisam estar equipados com material de salvatagem (coletes salva-vidas e boias) e de combate a incêndio (extintores) e luzes de navegação. O responsável pela embarcação deve, ainda, respeitar o limite de cargas e passageiros.

    Leia também: Sem proteção, tripulantes e carregadores se arriscam nos rios do AM

    Documentos e certificados necessários para a navegação também precisam estar em ordem, com tripulação completa, capacitada e devidamente registrada junto ao órgão marítimo. Todos os aquaviários devem estar habilitados.

    Caso haja alguma irregularidade, os passageiros devem entrar em contato com a Capitania, Delegacia ou Agência mais próxima.

    Durante a navegação noturna, as embarcações são aconselhadas a evitar trechos desconhecidos, ter atenção redobrada e utilizar, obrigatoriamente, luzes de navegação.

    Embarcações devem estar inscritas na Marinha do Brasil, e precisam ter documentos e certificados necessários para a navegação
    Embarcações devem estar inscritas na Marinha do Brasil, e precisam ter documentos e certificados necessários para a navegação | Foto: Janailton Falcão/EM TEMPO

    A tripulação exigida depende do tipo e tamanho da embarcação. Conforme informações da Marinha do Brasil, o CTS (Cartão de Tripulação de Segurança) é emitido pela capitania considerando as especificações e peculiaridades de cada embarcação como tamanho/porte, área de navegação, distância de percurso ou potência do motor.

    O número de tripulantes é estipulado por meio das Normas e Procedimentos para as Capitanias (NPCF), da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental.

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