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    PROJETO AMAZÔNIA


    Jovens da periferia em Manaus são atraídos para o tráfico

    Não é regra, mas ser jovem e ter contato com o tráfico de drogas pode resultar em vício, venda de entorpecentes ou até morte. Conheça algumas histórias

    Jovens moradores da periferia ficam expostos à violência e ao tráfico de drogas | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    Jovens moradores da periferia ficam expostos à violência e ao tráfico de drogas
    Jovens moradores da periferia ficam expostos à violência e ao tráfico de drogas | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    Manaus - A vida de Roberto passou diante dos seus olhos quando ele foi levado para o bairro Tarumã, zona Oeste de Manaus, para ser morto. O ano era 2009 e, na escuridão da noite, capangas de criminosos rivais o colocaram de joelhos em uma das muitas matas do local. Tudo o que ele sentiu na hora foi a lama do chão e o cano gelado da arma encostada em seu corpo. Enquanto esperava pela morte, 'Beto' clamou a Deus pela vida. Assim ele narrou como sobreviveu a tiros, desferidos contra ele naquela noite. 

    "Eu os vi indo embora, me levantei, comecei a passar a mão no meu corpo, porque eu sei que tiro queima, já havia pegado um tiro na  perna antes. E eu não sentia nada, só as lamas no escuro. Tive a impressão que era sangue, mas não era. Ali, comecei a ouvir Deus dizer que me amava e mesmo sendo criado com a frase 'homem não chora', voltei aos prantos pra casa", relata. 

    Roberto hoje é motorista de aplicativo em Manaus
    Roberto hoje é motorista de aplicativo em Manaus | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    A história de Roberto Costa, 39 anos, começa bem antes do dia em que ele quase foi morto. Assim como muitos outros casos, ele se envolveu com o tráfico de drogas quando ainda era adolescente, aos 16 anos. 

    O Amazonas tem poucos dados sobre o tema, porém é possível ter noção da entrada de jovens para o tráfico por meio de dados coletados no Rio de Janeiro (RJ), um dos principais cenários do tráfico no País.

    Uma pesquisa feita pelo Observatório das Favelas revelou que, dos 261 jovens ouvidos, mais da metade (54,4%) entrou para o tráfico de drogas entre 13 e 15 anos.  O principal motivo para entrar no crime (62% das respostas), segundo os jovens, seria pela questão financeira. Outros 47% queriam ganhar dinheiro. 

    Usar drogas: a porta do tráfico

    Boa parte dos jovens que entra para o tráfico tem como porta de entrada o próprio uso da droga. Foi o caso de Roberto Costa. 

    "Naquela época, 1996, eu fui estudar em uma escola conceituada do Centro. Lá eu conheci colegas que me apresentaram às drogas. Primeiro eu não usei, mas depois de vê-los traficando, fiquei mexido com a facilidade, pois vendiam e ganhavam dinheiro. Então eu comecei a querer vender também", lembra ele.

    Sem imaginar que anos depois o tentariam matar diversas vezes, justamento devido ao trabalho no tráfico, Beto se iludiu com o que parecia uma vida fácil. Com o passar do tempo se tornou um dos maiores traficantes da área.

    "Cheguei a um nível que passei a conhecer outras drogas. Ganhei bastante dinheiro e vendia para pessoas conceituadas da sociedade. Vinham me buscar aqui na porta de casa. Cheguei até a ter seguranças para me proteger", comenta o ex-traficante.

    Só em 2020, foram apreendidas 2,5 toneladas de drogas, no Amazonas. O dado se refere ao primeiro quadrimestre do ano e foi coletado pelo Sistema Integrado de Segurança Pública (Sisp). 

    A sombra da morte

    Mesmo com todo o poder alcançado, Roberto não tinha paz, tampouco era feliz.  Ele conta que tudo era fácil para ele: dinheiro, bebidas e mulheres. Apesar disso, ainda vivia sem paz.

    "Se eu pudesse voltar, não faria nada disso. Não há paz da vida no tráfico, você não tem sossego. A todo momento há o sentimento de que alguém vai chegar para tentar te matar e tomar seu lugar", desabafa ele. 

    O cenário da entrevista é uma casa da periferia de Manaus. Na sala, a televisão estava ligada em um programa policial, com reflexos de vidas parecidas com a dele. No fundo da cozinha, a mulher prepara o almoço. Nesse lugar de vida simples, Roberto diz ter encontrado a felicidade e atribui à religiosidade o fato de ter saído da vida no crime.

    "Meu único conselho é que os jovens procurem Jesus e saiam desse mundo enquanto há tempo, porque depois de um tempo você só sai com a mão de Deus. Vemos muitos jovens morrendo porque não ouvem o conselho dos pais. E eu posso dizer porque o caminho que eu vivi foi tortuoso, mas hoje achei a paz que eu procurava, que é Cristo Jesus", aconselha Beto. 

    Depois de refletir sobre o novo momento da vida ele abre um sorriso de gratidão. A parte 'funda' da sua testa' - resultado de uma agressão por barra de ferro quando foi cobrar uma dívida do tráfico fica mais evidente. 

    Ao final da entrevista, Beto esboça um sorriso
    Ao final da entrevista, Beto esboça um sorriso | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    Consumidores, o outro lado do tráfico

    "A saudade é o pior tormento, é pior que o esquecimento", diz Chico Buarque em sua música Pedaço de Mim, sobre uma mãe que perdeu um filho. Quem tem um parente no mundo das drogas já é velho conhecido da sensação que a música buscar passar, mesmo que o dependente químico esteja vivo. 

    É o caso da artesã Elisângela Izidio, moradora de um bairro na Zona Oeste de Manaus. Em 2019, aos 17 anos, o filho dela entrou para os cerca de 3,5 milhões de brasileiros que fazem uso de drogas ilícitas. O dado é da Fundação Oswaldo Cruz. 

    Artesã é dona da loja @amores_de_pano no Instagram
    Artesã é dona da loja @amores_de_pano no Instagram | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "Ele disse que quem ofereceu pra ele foi uma menina que morava alugado aqui perto. Que se fumasse, esqueceria dos problemas.  Ele chegava aqui cambaleando e eu sentava a 'mãozada' e mandava ele ir pro quarto. Ele chorava, pedia desculpa e no outro dia fazia de novo", relata a mãe, enquanto suas pernas balançam rápido, demonstrando o desconforto do assunto.

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    O perfil do jovem que vem para cá é da periferia, em especial Zona Norte e Leste de Manaus. Via de regra, é evadido da escola, filho de pais separados e renda social baixa. "

    Antônio Juraci Maciel de Lima, Diretor do centro-socioeducativo Dagmar Feitosa

     Na sala de sua casa, onde conversa com a reportagem, Elisângela estampa nas paredes diversos certificados. Até eles têm relação com a história do filho dependente químico. 

    "Sou artesã por conta das consequências dos problemas com meu filho. Foi o que me motivou a fazer todos esses cursos [de artesanato e outros], pra que eu não entrasse em depressão. Nós brigávamos muito, então como ele estudava durante o dia, comecei as aulas à noite para evitar as discussões", conta ela. 

    Depois de encontrar drogas no quarto do filho, Elisângela brigou com ele pela última vez. Não aguentando a discussão e os palavrões que um atirou para o outro, a mãe colocou o filho para fora de casa. Agora ele mora com a avó [mãe de Elisângela].

    Dor de mãe

    "Às vezes eu durmo meia-noite ou amanheço costurando, porque além de estar pensando nele, eu fico me culpando onde foi que eu errei pra ele fazer isso. Eu não consigo achar o erro porque eu nunca bebi, nunca fumei", desabafa ela.

    A mãe quer ter o filho de volta, mas ainda não está pronta para reconciliação. Tudo o que ela diz querer é que ele demonstre ao menos um pouco que já mudou, o que não aconteceu ainda.

    "Eu não quero que ele fale que me ame, quero que ele mostre que me ame. Não quero que ele diga que vai mudar, quero que ele mostre que mudou. Ele tem que agir espontaneamente. Enquanto ele não mostrar em atitudes que mudou, vou continuar do jeito que estou", diz a mãe, ainda triste com tudo.

    Elisângela é uma das muitas mães que sofrem com a situação dos filhos envolvidos com as drogas
    Elisângela é uma das muitas mães que sofrem com a situação dos filhos envolvidos com as drogas | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    Ela não derrama uma lágrima, mas, só porque leva o dedo até os olhos e não deixa que elas caiam.

    A ilusão das drogas

    Nicolas Castro é produtor audiovisual, mas há alguns anos não era conhecido por isso. Antes de mudar de vida, o jovem de 28 anos era vendedor de drogas. 

    "Pra quem é jovem, a droga ilude, sabe. Ela dá uma 'vibe' de coisa legal, maneira, [...] fazem uma rodinha, ficam rindo, mas por trás daquilo  tem um lado do mal, porque até aquela droga chegar na mão do playboy, do moleque sem maldade, ela derramou sangue", diz ele.

    Nicolas tem um passado no tráfico de drogas
    Nicolas tem um passado no tráfico de drogas | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    O resquício do medo da antiga vida ainda está em Nicolas, motivo pelo qual ele preferiu conversar com a reportagem dentro de uma igreja. Além disso, ele atribui a sua saída do mundo do tráfico a Jesus.

    "Eu acho que acordei, brother. Eu sempre tive uma relação com Deus, com a igreja, apesar de tudo isso que aconteceu com a minha vida", afirma ele. 

    Embora hoje seja cristão e odeie as drogas e o tráfico, Nicolas confessa já ter gostado desse mundo. Para ele, tudo começou por puro interesse em fazer parte daquilo.

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    Aqui [com os jovens] nós cumprimos tipificação por grave ameaça ou violência, que vai desde roubo, estupro, homicídio e latrocínio. Mas, quando você faz uma análise geral do mapa da violência, vai perceber que os demais atos infracionais vão rodear o tráfico de drogas. "

    Antônio Juraci Maciel de Lima, Diretor do centro-socioeducativo Dagmar Feitosa

    "Eu reconheço que eu gostava disso, eu queria as coisas erradas [...] eu não gostava de estudar, dizia que ia pra escola e não ia. E conheci uma galera que tinha envolvimento com droga. Depois de um tempo comecei a vender, não pra sustentar meu vício, mas para ganhar dinheiro. Iniciei no 'corre' [vendas pequenas] até crescer e conhecer gente que fazia coisa pior", confessa Nicolas.

    Nova vida

    Depois de ver tantos colegas morrerem e serem presos, o jovem decidiu mudar de vida. Não apenas, mas ele também atribui a sua saída do tráfico a Deus e a sua família.

    Nicolas conseguiu sair do mundo do crime, se tornando assim uma exceção
    Nicolas conseguiu sair do mundo do crime, se tornando assim uma exceção | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "Os jovens falam 'eu tô independente, o que eu faço só faz mal pra mim mesmo', mas não, tu faz mal pra quem tá perto de ti. E isso foi uma das coisas que me fez acordar. Em primeiro lugar foi Deus e em segundo meus parentes", afirma ele.

    Um conselho aos jovens

    Se pudesse voltar à época em que entrou para o crime e aconselhar ele mesmo ou seus amigos, Nicolas diz que pediria para que acreditassem em si mesmos. 

    "Se tu for conversar com um desses jovens do tráfico, tu consegue enxergar no olho deles a ilusão e que eles não tem força pra sair dessa vida. Tanto que a juventude se mata por causa de uma sigla, de uma facção que nem a conhece. E se matam não é nem por dinheiro, é só por um tampinha no ombro, só pra ouvir um 'ei, mermão, tamo junto, tu tá com nós, tu vai fechar com nós'. Então quem consegue explicar essa ilusão?" Desabafa ele. 

    Nicolas para um pouco e respira. Com a voz mais baixa, diz que se um jovem pedisse ajuda, ele faria de tudo pra tirar ele dali. A frase o emociona e seus olhos se inundam com lágrimas. 

    Nicolas se emociona ao pensar nos jovens que ainda estão no mundo do tráfico
    Nicolas se emociona ao pensar nos jovens que ainda estão no mundo do tráfico | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    As balas que encontram crianças

    Há ainda outra forma de o tráfico encontrar vidas jovens, mas apenas para dar fim a elas. Conflitos entre traficantes ou com a polícia são uma das causas de homicídios de crianças e adolescentes, no Brasil.

    A reportagem procurou a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) para saber os números de crianças vítimas de bala perdida no Estado. A assessoria disse que precisaria de mais tempo para apurar a informação, cerca de 30 dias, por isso não entrou nesta matéria.

    Apesar disso, dados do Atlas da Violência (2019) mostram que mais da metade (51,8%) dos homicídios no Brasil, em 2017, foram de adolescentes e jovens de 15 a 19 anos. Naquele ano, 35.783 brasileiros entre 15 e 29 anos foram mortos intencionalmente, ou não.

    Conheça o Projeto Amazônia

    O "Projeto Amazônia", da Rede EM TEMPO de Comunicação, com sede em Manaus, Amazonas, Região Norte do Brasil, tem a finalidade de dar visibilidade as populações da região, como ribeirinhos, povos indígenas, moradores da periferia das grande cidades, bem como destacar a riqueza da biodiversidade da Floresta Amazônica e a defesa de seu ecossistema. Não é possível falar de Amazônia sem falar sobre as características peculiares dos povos que a habitam, na convivência com essa natureza selvagem e, ao mesmo tempo, fantástica. Ciente da importância da Amazônia para o planeta, a empresa de comunicação, em parceria com a Google, tem a satisfação de apresentar ao mundo uma série de conteúdos multimídia sobre esse espaço da América do Sul e esse continente de superlativos. Conheça mais aqui.

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