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    Abandono


    Conheça o drama dos doentes mentais que vagam pelas ruas de Manaus

    Secretaria de Saúde afirma que 17 pessoas estão internadas no hospital Eduardo Ribeiro. Mas basta andar pela cidade para encontrar alguém com alguma deficiência psiquiátrica

    Homens, mulheres, jovens ou velhos, estão nas mais diversas situações constrangedoras, abandonados nas ruas | Foto: Arquivo

    Manaus - Para quem anda em Manaus, é comum se deparar de vez em quando com algum tipo de deficiente mental, perambulando sem rumo nas ruas ou paradas de ônibus. Homens, mulheres, jovens ou velhos, nas mais diversas situações constrangedoras. A humilhação pública não escolhe raça ou gênero e, ao longo dos anos, esses casos parecem piorar.

    A fisioterapeuta Mayanne Nascimento, 27, relata a história de quando estava no terminal de ônibus da Cachoeirinha, Zona Sul, uma idosa vestida de homem a esmurrou no braço.

    “A idosa já tinha entrado no ônibus e depois saiu. Quando eu estava subindo, ela bateu no meu braço e foi embora. Fiquei olhando sem saber o que fazer. Já vi ela outras vezes no Centro, entrando e saindo de ônibus”, afirma a mulher.

    A situação do único hospital psiquiátrico do Amazonas é de abandono
    A situação do único hospital psiquiátrico do Amazonas é de abandono | Foto: Marcely Gomes


    Em comunidades, invasões e outros lugares inusitados da cidade, é comum visualizar pessoas deficientes e transtornadas.

    “Na rua da minha casa, anda uma mulher totalmente nua, com os dentes para a frente, estarrecendo as pessoas toda vez que passa. Algumas pessoas já me disseram que tentaram dar roupas para ela, mas a mesma sempre joga fora. Outros, dizem que ela foi estuprada e por isso vive desse jeito. Deve ter passado por algum trauma. Eu sinto muita pena”, relata a estudante Luíza Santos, moradora do bairro Dom Pedro, Zona Centro-Oeste.

    Conforme Santos, o caso da mulher se junta a de um homem idoso de situação parecida, dentro do cenário de insanidade pública na capital. “Outra situação é um homem branco e barbudo que sempre anda trajando somente uma bermuda azul, de pano liso e gastado, com aparência de bêbado. Ele sempre está sujo e com cheiro forte, às vezes carregando uma sacola nas costas”, confessa a jovem.

    O Hospital Eduardo Ribeiro sofre com o vandalismo e as consequências da falta de manutenção
    O Hospital Eduardo Ribeiro sofre com o vandalismo e as consequências da falta de manutenção | Foto: Marcely Gomes


    A história de outro ângulo

    Transtornados despertam medo ou repulsa alheia da sociedade, e sempre são alvos de olhares pesados de reprovação e críticas. Drogas, traumas psicológicos, maus tratos da própria família, muitos são os motivos que transformam pessoas comuns em “insanos de rua”. Um dos apontados pela culpa dessa situação são os pais. A dona de casa Glória Pacheco vive há cinco anos o sofrimento do filho, Paulo (nome fictício), de 29 anos. Ele é taxado como vândalo, perigoso e doente mental.

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    Já vi muita gente abandonar vários pacientes no hospital no momento em que eles mais precisavam de alguém. A melhora que tem mesmo efeito é o cuidado e o carinho de quem tem disposição para amar. Esse, sim, é o melhor remédio "

    Lourdes Souza, Funcionária do Hospital Psiquiátrico Eduardo Gomes

    “Ele já fez muitas coisas ruins. Andou alterado pelas ruas, roubou coisas, foi violento com estranhos e acho que, se pudesse, já teria sido linchado pela população. Uma vez, a polícia tentou o prender dentro no veículo de ronda e ele quebrou aquela barra que segura os detentos. Por algumas pessoas saberem que eu sou a mãe, acabam me culpando disso. Eu ensinei, cuidei e amei, mas o que meu filho faz não é responsabilidade minha e não posso controlar isso”, conta Pacheco explica que a causa dos transtornos mentais são as drogas e que já tentou internar o filho no hospital psiquiátrico Eduardo Ribeiro, mas sem sucesso.

    “Ele virou um perigo para si mesmo e todos os próximos. Passava dias fora de casa e depois só ouvia as notícias horrorosas. O hospital daqui é muito aberto e sem segurança adequada. Ele passou algumas horas lá e depois saiu”, disse. Paulo está internado em uma clínica de reabilitação psiquiátrica, desde de janeiro, em Mato Grosso do Sul.

     As primeiras impressões de quem chega no hospital são de espanto e aversão
    As primeiras impressões de quem chega no hospital são de espanto e aversão | Foto: Marcely Gomes

    Hospício de Manaus

    Atualmente, cerca de 550 pessoas são atendidas, por mês, no único hospital psiquiátrico da cidade, e as primeiras impressões de quem chega são de espanto e aversão. A fétida entrada recebe os pacientes e familiares, confirmando a fama de lugar inóspito e inadequado. Os olhos curiosos de quem sabe que vai passar longas horas no hospital, esquadrinham os forros despedaçados de tetos e paredes na tentativa de se acostumar ao lugar que vai abrigar quem não sabe mais onde ir.

    A funcionária Lourdes de Souza (nome fictício) confirma a precariedade da instituição de saúde. “Oficialmente, no papel, o hospital tem 126 leitos para atender aos pacientes. Mas, na realidade, temos 28 que mal sobram para quem chega. Antes, aqui era referência de hospital para os que têm problemas psíquicos. Hoje, as pessoas não gostam nem de passar perto, porque sabem que cinco ficam espremidos”, relata.

    Atualmente, cerca de 550 pessoas são atendidas, por mês, no único hospital psiquiátrico da cidade
    Atualmente, cerca de 550 pessoas são atendidas, por mês, no único hospital psiquiátrico da cidade | Foto: Marcely Gomes

    Souza explica que até a implementação da lei da Reforma Psiquiátrica, de 2001, que impede a moradia de pacientes mentais em sanatórios, 300 pessoas moravam no Eduardo Ribeiro, conhecido por sua singularidade no tratamento e acompanhamento médico. Após a entrada dos Centros de Atenção Psicossociais (Caps) espalhados pela cidade, ela conta que a situação médica piorou para quem depende do sistema público de saúde.

    "Foi uma tentativa falha de descentralizar os pacientes. Não há médicos suficientes, ou remédios ou mesmo o cuidado devido. Ontem pela manhã recebi uma ligação de uma das unidades pedindo ajuda para comprar medicamentos. Disse que não tinha condições. O único local que ajuda mesmo os pacientes é aqui. O máximo de dias permitido para a internação são 15 dias, embora alguns não tenham onde ficar. Tem gente que fica quase um ano aqui, pois é a única alternativa", destaca.

    Depósito Humano

    Desde 1984, quando os registros médicos começaram no hospital e o pronto-atendimento foi inaugurado, cerca de 68 mil pessoas foram atendidas pela entidade. No manicômio que não tem nem psicólogo, Souza diz que a instituição, em sua história, se pareceu mais com um depósito humano que com um manicômio público.

    "Quem trazia problemas para a cidade era jogado aqui pela polícia. Negros, mendigos, homossexuais e drogados, todos eram amontoados sem qualquer tratamento decente. Após a reforma do governador Gilberto Mestrinho, começamos o cuidado digno e as mudanças necessárias. Queria poder fazer mais, contudo, hoje, sinto que fomos esquecidos. Quando tem algum concurso público, ninguém quer vir para cá. Somos os que sobram. Estou aqui há anos somente por amor e esta é a única atitude que consegue suportar tudo o que vivemos com os pacientes", termina.

    Susam

    A Secretaria Estadual de Saúde (Susam), responsável pela administração do hospital Eduardo Ribeiro, cita o esquema atual de saúde mental usado pelo Governo. "Cinco Caps atendem toda a cidade espalhados em quatro bairros para diminuir os altos movimentos no hospital psiquiátrico, conforme o modal nacional. No Eduardo Ribeiro são feitos apenas os atendimentos de urgência e emergência, sendo o acompanhamento mais elaborado feito nos Caps. Além disso, o serviço de residência para pacientes especias é feito no Lar Rosa Blaya, onde podem ser acolhidos caso não tenham residência própria", informa a assessoria em nota oficial.

    Segundo ela, 17 pessoas estão internadas em observação no hospital. As demandas nos centros de saúde são feitas espontaneamente, ou com a ajuda do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) para pacientes em situação de rua. A saída para as pessoas que passam por problemas psíquicos, Souza indica, é contar com o apoio da família e amigos.

    "Já vi muita gente abandonar vários pacientes no hospital no momento em que eles mais precisavam de alguém. A melhora que tem mesmo efeito é o cuidado e o carinho de quem tem disposição para amar. Esse, sim, é o melhor remédio", conclui.

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