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    Profissionais


    Resistência: conheça amazonenses que exercem profissões em extinção

    Os tempos e a evolução tecnológica fizeram com que muitos desses profissionais adequassem seus meios de trabalho ou abandonassem as profissões

    Conheça as histórias de profissões ameaçadas de extinção | Foto: Márcio Melo, Ione Moreno e Janailton Falcão

    Manaus - Quando perguntamos às crianças sobre o que desejam ser quando crescer, recebemos todo tipo de resposta. As escolhas vão de médicos a astronautas. Policiais, advogados e bombeiros também encabeçam a lista de desejos. Da mesma forma como surgem novas profissões, algumas ocupações também se extinguem com o passar dos anos. Em Manaus, por exemplo, é cada vez mais raro você encontrar catraieiros, parteiras, profissionais que "pegam" desmentidura ou até mesmo engraxates. Essas e muitas outras atividades estão em risco de extinção.

    A idade avançada não interrompe a fala rápida e animada da parteira Isabel Saraiva de Oliveira, de 84 anos. Com mais de 500 partos realizados, a amazonense, que veio do município de Eirunepé (distante 1159 km de Manaus), conta que aprendeu o ofício com a mãe. Ela fez seu primeiro parto aos 38 anos.

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    “Minha mãe fez o parto de quase todas as mulheres do município onde morávamos, mas só aprendi a atividade depois que casei. Não pude aprender antes devido aos costumes da época. Os mais velhos não deixariam uma moça solteira fazer os partos”, lembra.

    Mãe de sete, Isabel também conta que a mãe foi responsável por realizar o parto de pelo menos cinco netos, antes que falecesse. Os outros dois  filhos nasceram pelas mãos de outras parteiras.

    Isabel é uma das poucas parteiras que ainda exercem o ofício na cidade
    Isabel é uma das poucas parteiras que ainda exercem o ofício na cidade | Foto: Ione Moreno

    “Em um dos casos ensinei a moça o que fazer enquanto, ao mesmo tempo, estava em trabalho de parto. Ela ainda era parteira nova e não sabia direito”, fala.

    Apesar da paixão por sua ocupação, a parteira não vê um futuro para sua atividade. ”Chegará um dia em que as parteiras não existirão mais. As mulheres pouco se interessam em nos procurar. Das parteiras da minha época, eu fui a única que restou”, lamenta a Isabel. Segundo a idosa, nem a própria filha quis seguir os caminhos da profissão.


    Isabel guarda num caderno as informações das mulheres que atendeu. Dentre os pontos anotados, ela guarda a hora do parto, nome da criança e da mãe, além de algumas outras anotações que podem ajuda-la em outros partos. 

    Peculiaridades na Amazônia

    Apesar da afirmação de Isabel, dados mostram que o número de crianças nascidas de partos humanizados têm crescido no Amazonas. Em regiões do interior as profissionais ainda são muito requisitadas, principalmente devido a falta de médicos especializados para realizar os partos. Segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (Susam) durante o ano de 2016 e parte de 2017 foram realizados pouco mais de 3,3 mil partos humanizados no Estado. 

    Tal peculiaridade existe na região amazônica principalmente devido a dificuldade de transporte, comunicação e acesso a serviços de saúde por parte das pequenas comunidades rurais dos interiores dos estados. Em muitas localidades não há médicos e as gestantes apenas podem contar com o serviço das parteiras.

    Entregador de leite

    O produtor Antônio Santiago, 38 anos, também vê, a cada dia, mais dificuldades para exercer sua profissão. Fazendeiro, ele entrega leite e outros derivados em domicílios da cidade. Apesar de tradicional, a procura pelo serviço do leiteiro é cada dia menor.

    “Antes havia mais procura por produtos produzidos em fazendas. O número diminuiu consideravelmente, agora só consigo realizar vendas para estabelecimentos comerciais. As pessoas não compram mais da fonte”, relata.

    Cada vez mais raros de serem encontrados, os sapateiros fizeram parte da vida de muitas pessoas em Manaus, que entregavam seus calçados nas mãos desses profissionais
    Cada vez mais raros de serem encontrados, os sapateiros fizeram parte da vida de muitas pessoas em Manaus, que entregavam seus calçados nas mãos desses profissionais | Foto: Janailton Falcão

    Assim como a parteira Isabel, o serviço foi passado de geração em geração. “A fazenda já está na família há muito tempo. Meu pai me ensinou a fazer todo o trabalho de tirar o leite e produzir o queijo”, conta. Assim como o pai fez com ele, Antônio tenta passar aos filhos a profissão e assim perpetuar os ensinamentos da família de geração em geração. “Quero que meu filho possa tocar o negócio da família depois de mim”, afirmou.

    Tradição perdida

    O bairro Aparecida, na Zona Centro-Sul de Manaus, conservou, por muito tempo, a tradição de transportar pessoas pelos rios por meio de catraias. De acordo com o livro "Síntese da história de um bairro”, morador do bairro, Roberto Bessa, o movimento começava bem cedo, bem antes do nascer do sol e durava o dia inteiro, prolongando-se até altas horas da noite. Duas catraias ficavam de plantão para atender as emergências noturnas.

    Problemas musculares, desmentiduras e outros problemas eram sempre levados aos rezadores, contudo, com o passar dos anos são cada vez mais raras as pessoas que ainda realizam essa ocupação
    Problemas musculares, desmentiduras e outros problemas eram sempre levados aos rezadores, contudo, com o passar dos anos são cada vez mais raras as pessoas que ainda realizam essa ocupação | Foto: MarcioMelo

    “A travessia demorava entre dez e quinze minutos, dependendo da disposição e da condição física do remador”, diz o escritor em sua obra. Ainda de acordo com Bessa, a catraia era uma canoa de médio porte, coberta com uma lona para a proteção contra o sol e a chuva. Tinha dois remos nas laterais que eram movidos simultaneamente em movimentos ritmados. Tal feito exigia dos condutores altos níveis de experiência e muita força física.

    Com a criação da ponte Fábio Lucena, que liga os bairros São Raimundo a Aparecida, aos poucos os catraieiros foram perdendo suas funções. “Mesmo a travessia a pé pela ponte era mais rápida do que por meio de catraia”, diz a obra de Bessa. “Os homens que faziam daquela atividade seu meio de sustento, aos poucos, foram morrendo. Já os outros acabaram mudando de profissão”, relata a obra.

    Esperança

    Mesmo que o futuro pareça sombrio para alguns profissionais, outros enxergam oportunidades e segurança em seus postos de trabalho. É o caso do carteiro Adeilson Pereira dos Santos, que diz que não enxerga o fim de sua profissão. Com 21 anos entregando cartas, ele afirma que, apesar da evolução tecnológica, as pessoas ainda necessitam de carteiros.

    Idemar Douro, de 78 anos, é um dos poucos rezadores e benzedores que restou de sua geração
    Idemar Douro, de 78 anos, é um dos poucos rezadores e benzedores que restou de sua geração | Foto: MarcioMelo

    “Ainda não inventaram robôs para fazer entregas e, com o aumento das encomendas via internet, somos cada vez mais necessários”, garante.

    O carteiro também conta sobre a relação de amizade criada com muitos dos moradores que esperam por suas correspondências. “Paramos para conversar um pouco com os moradores e até ganhamos presentes”, diz Adeilson, complementando que em uma das rotas que fazia, entregando cartas na Manaus Moderna, Centro, chegava a ganhar alimentos dos comerciantes locais.

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    “O carteiro passa a ser querido e quando se ausenta do local de entrega as pessoas sentem falta” "

    Adeilson Pereira dos Santos, carteiro

    Em 2016, o relatório Jobs Rates da CareerCast apontou as 10 profissões com risco de extinção. O entregador de cartas era a 1ª das ocupações com risco de desaparecer por conta da tecnologia, seguido do agricultor e o leitor de medidor de energia e água. Lenhador, comissário de bordo e gráfico também figuraram na lista de atividades ameaçadas.

    Costumes e ensinamentos que passaram de pai para filho e, muitas vezes acabam se perdendo
    Costumes e ensinamentos que passaram de pai para filho e, muitas vezes acabam se perdendo | Foto: Janailton Falcão

    Pesquisas apontam outros profissionais que devem desaparecer nas próximas décadas, são eles: os sapateiros, costureiras, engraxates, repórteres e caixas de agências bancárias.

    Engraxate

    O engraxate Constantino Johnny Walker viu o número de clientes crescer a partir do momento em que uniu a criatividade e a elegância ao trabalho diário. Ele que começou a trabalhar com 10 anos de idade, como reparador de carros na praça do Eldorado, mudou o jeito de se vestir após "pegar um fora" de uma pretendente.

    Para inovar na profissão o engraxate Constantino começou a usar terno e gravata, atraindo mais clientes
    Para inovar na profissão o engraxate Constantino começou a usar terno e gravata, atraindo mais clientes | Foto: Marcio Melo

    Ela disse que não namoraria com ele porque se vestia mal. A garota sempre o encontrava durante o horário de serviço e ele decidiu usar terno e gravata para atrair novos clientes e mostrar para a amada que podia ser respeitado como um profissional inovador.

    Mudanças de ocupações

    Para o antropólogo e sociólogo Alvatir Carolino, de 46 anos, essas ocupações não terão um fim, mas sim uma "ressignificação". Ele explica que algumas dessas ocupações ainda estão bem presentes no dia a dia da população, apenas com uma aparência diferenciada, como é o caso dos catraieiros.

    “Se você andar por áreas portuárias de Manaus verá que ainda existe a figura do catraieiro, mas com uma estética diferenciada”, diz ele, afirmando que as tecnologias modificaram a profissão, mas o serviço continua o mesmo. 

    As tecnologias muitas vezes auxiliam o trabalho desses profissionais, como cita o sociólogo a respeito do trabalho dos carteiros. Ela explica que o aumento das compras online tornou o trabalho dos carteiros ainda mais importante.

    “A compra via internet só é online durante o momento em que a pessoa está na internet”, afirma, complementando que os carteiros têm um papel fundamental nessa operação, pois é com o trabalho deles que as pessoas recebem as mercadorias adquiridas via internet.

    Influência da tecnologia 

    Ao contrário do que muitos estudos dizem, a tecnologia não acabará com antigas tradições e ocupações, mas sim trarão novas roupagens para esses profissionais. É preciso estar atento e ter a mente aberta para perceber a mudança constante do cotidiano. A cada geração novas oportunidades surgem para que trabalhadores se reinventem e evoluam de acordo com as possibilidades oferecidas.

    Edição: Bruna Souza

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