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    Especial municípios


    A terra da riqueza natural: Jutaí completa 62 anos de instalação

    O município do Alto Solimões tem uma das maiores extensões territoriais do Amazonas e é palco de constantes operações que fiscalizam a extração ilegal de ouro na região

    Entrevista com o ex-seringueiro Sebastião Gonzaga Daniel - parte 1 | Autor: Divulgação Prefeitura de Jutaí

    Jutaí - Seja bem-vindo a Jutaí, a terra da fartura de recursos naturais, povo trabalhador e hospitaleiro, e de história recheada de superação. O município de, aproximadamente, 16 mil habitantes, conforme dados divulgados em 2017 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é um dos caçulas do Amazonas e completa, neste dia 11 de abril, 62 anos de instalação.

    Longe de ser uma das cidades mais conhecidas do Estado, Jutaí passou a ter projeção regional e até nacional na mídia nos últimos anos, seja por notícias positivas, como o sucesso do “Festival da Sardinha” - que está de volta este ano - e o título do time feminino de uma competição que reúne delegações esportivas da modalidade em toda a região Norte do país, ou negativas quando a casa da ex-prefeita Marlene Gonçalves foi incendiada e saqueada em dezembro de 2016. Além disso, o município também atraiu a atenção pública quando um programa de TV a nível nacional noticiou em 2017 um escândalo de exploração sexual infantil envolvendo um político nacional.

    Com uma área de quase 70 mil quilômetros quadrados, considerada uma das maiores extensões territoriais do Amazonas e seis vezes maior do que a área territorial de Manaus, Jutaí faz parte da microrregião do Alto Solimões e mesorregião do Sudoeste amazonense.

    Cidade de Jutaí na foz do rio que leva o mesmo nome
    Cidade de Jutaí na foz do rio que leva o mesmo nome | Foto: Robson Freitas


    Apesar da data de instalação ser em abril, a própria população e as instituições municipais reconhecem e comemoram o aniversário da cidade, propriamente dito, em 19 de dezembro. Nessa mesma data, em 1955, Jutaí era desmembrada de Fonte Boa (município vizinho), de acordo com a lei estadual nº 96 daquele ano. 

    O professor Antônio Candido Gomes, de 61 anos, explica que no dia 11 de abril de 1956, ocorreu a instalação da primeira sede administrativa do recém-criado município, no alto rio, antigo seringal Boa Vista, hoje chamado de Vila Cojubim.

    Foz do Jutaí no final dos anos 60.
    Foz do Jutaí no final dos anos 60. | Foto: Divulgação Prefeitura Municipal

    “Isso não quer dizer que não se deve comemorar ou lembrar essa data, devemos lembrar sim. Agora o que não podemos é confundir data da criação com a data da instalação da sede administrativa, pois a gente festeja o dia do nascimento de uma pessoa e não o dia do acento no livro de Registro Civil”, disse.

    Cultura

    Jutaí se destacou nos últimos anos com a realização do “Festival da Sardinha”, evento que teve sua primeira edição em 2013 e a última e mais recente em 2015, que já levou ao longo desse período artistas nacionais como Amado Batista, Banda RPM e Ludmila, com shows que alavancaram a economia, o turismo e a cultura do município.

    Em 2016, último ano do mandado da ex-prefeita Marlene Gonçalves, o festival acabou sendo cancelado, frustrando fãs em todo o Amazonas, que esperavam contar, naquela edição, com show de Zezé de Camargo e Luciano. Apesar da nova gestão municipal não ter realizado a festa no primeiro ano de mandato, o projeto está de volta em 2018, mas ainda sem data e atrações definidas.

    A Prefeitura de Jutaí adiantou que o evento pode acontecer tanto na data habitual, final de julho e início de agosto, quanto na comemoração do aniversário da cidade em 19 de dezembro. Mais uma vez, o poder municipal quer trazer uma atração de nível nacional para atrair fãs de todo o Estado.  

    Um dos maiores personagens da cultura jutaiense, "Chico Roque" ficou conhecido por eternizar diversos contos e histórias fantasiosas, entre estas a história de que um dia subiu no açaizeiro e de lá avistou o Teatro Amazonas, em Manaus. Em outra aventura Chico contou que navegou pelo imenso rio Solimões dentro do casco de um jabuti, como uma canoa improvisada. 

    E a cidade conta, ainda, com os festejos aos santos, tendo como principal os eventos em honra a São José, que ocorriam sempre no mês de março na Praça da Matriz, mas, nos últimos anos, a celebração passou a acontecer nos últimos nove dias de abril, para que o último dia de festa ocorra em 1º de maio, data em que é comemorado o Dia do Trabalhador. O aniversário de Jutaí, que acontece todo o ano no dia 19 de dezembro, também marca o calendário local com grandes atrações, entre elas artistas regionais e até nacionais.

    Esporte

    O esporte também tem forte participação na vida dos jutaienses apaixonados por futsal e futebol. Recentemente, as meninas do time de futsal Neon Jutaí fizeram história ao conquistarem, logo na primeira participação, o título de campeãs da Copa Rede Amazônica de Futsal, um dos maiores eventos esportivos da região. Neon Jutaí realizou uma campanha impecável, inclusive ganhando a grande final contra o time Nilton Lins com uma goleada sonora de 4 a 1.

    A presidente do Neon Jutaí Clube, Luciana Miranda, contou que apesar das dificuldades financeiras e despesas para se manter na capital, com poucos recursos da ajuda de custo, que o time recebeu, toda a equipe conseguiu realizar um sonho de conquistar um título regional. “Saímos de Jutaí com o pensamento de só voltar para casa com esse título. Fomos guerreiras, nos superamos e realizamos o sonho de levar orgulho para nosso município, uma realidade”, disse.   

    A prática esportiva é incentivada pelas escolas, e uma das paixões do jutaiense.
    A prática esportiva é incentivada pelas escolas, e uma das paixões do jutaiense. | Foto: Divulgação Prefeitura Municipal

    Após a campanha, duas jogadoras do Neon foram chamadas para atuarem em outras equipes, que foi o caso da goleira Rayssa, que vai para Santa Cantarina jogar pelo Amazonas Futebol Clube, e Gleicyane, que vai atuar no time do Divino, campeão recente da Copa Rede Amazônica em 2016.

    O time ainda foi convidado para praticar de outras três competições, sendo o Campeonato Amazonense, a Liga Olé e a Copa Rio, mas, por falta de recursos para se manter na capital, precisou recusar os convites. O time embarca de volta para Jutaí nesta quarta-feira (11), onde será recebido, no sábado (14), com festa e carreata pelas ruas do município. 

    A cidade também vai sediar, em maio, o polo 5 dos Jogos Escolares do Amazonas (JEAS), com a participação já confirmada das delegações de Atalaia do Norte Benjamin Constant, Fonte Boa, Santo Antônio do Içá e Tonantins, restando ainda a confirmação de outros municípios amazonenses. 

    Garimpo

    Jutaí também é conhecida por ter um dos ouros de melhor qualidade da região amazônica. Apesar de parte da exploração desse recurso mineral às margens do rio Jutaí, o trabalho ainda é feito sem as devidas permissões de órgãos ambientais. A cidade tem sido alvo de constantes operações de repressão à mineração ilegal. A última ação, realizada por órgãos de proteção ambiental no início de abril, resultou na apreensão de 4 dragas e bens avaliados em R$ 8 milhões, além da aplicação de seis autos de infração.  

    Um trabalhador, que já se aventurou como peão em dragas e não quis se identificar, contou que o garimpo, apesar de ilegal, ajudava na renda da cidade, já que a região não possuí indústrias. “Com a intervenção para barrar o garimpo, o município sentiu instantaneamente, e vai sentir ainda mais no decorrer do tempo. As autoridades que permitem a mineração no garimpo não buscam interagir para regularizar, isso não interessa, o que eles querem é interagir no sentido de receber propina”, desabafou.

    Economia

    Boa parte da renda que entra no município vem do pagamento do funcionalismo público estadual e municipal, mas a cidade também conta com um comércio pujante (poderoso) e um produção agrícola diversificada com destaque para o extrativismo de mandioca, melancia, açaí, pupunha e pescado, com destaque para os peixes sardinha, tambaqui, matrinxã, pacú, jaraqui, pirarucu, surubim, entre outros. No passado, Jutaí foi um grande produtor de seringa, período em que foi forjada parte da história local.

    Com rios e lagos fartos, Jutaí é um abundante berçário de grande diversidade de espécies de peixe
    Com rios e lagos fartos, Jutaí é um abundante berçário de grande diversidade de espécies de peixe | Foto: Divulgação Prefeitura Municipal

    Com o projeto de aeroporto ainda no papel, a única forma de chegar a Jutaí é por meio dos rios. O principal meio de transporte utilizado dentro do município são as motocicletas, mas o trânsito local conta com a presença de carros, mesmo que ainda poucos. Jutaí está entre os sete municípios do Amazonas listados para ganhar um novo aeroporto, em um prazo de dois anos, com capacidade para voos regionais. O município também tinha possibilidade de receber um novo cais, mas o governo de José Melo (Pros) não concluiu o projeto.

    Agricultura

    O autônomo Alberto Uchoa, de 58 anos, disse que um dos maiores gargalos da economia de Jutaí ainda é a falta de empregabilidade, porque a prefeitura não consegue suprir a demanda existente, o que leva as pessoas a buscarem outros meios de ter uma renda, como a mineração clandestina de ouro, que absorve, principalmente, a mão de obra da população de baixa renda. O município também é carente de políticas públicas voltadas para saneamento básico e a produção agrícola é baixíssima, por conta da dificuldade de escoamento dos materiais. 

    “O processo se torna caro por diversos fatores, como o custo do combustível, transporte, poucas áreas para plantio - essas ou têm donos com áreas enormes ou são áreas preservadas. Até as reservas de extração são exclusivas dos moradores das comunidades. Além disso, há falta de máquinas específicas, carga tributária e custo altíssimo com frete, que reflete direto na economia”, criticou o morador.

    Terminal de cargas e passageiros da cidade de Jutaí
    Terminal de cargas e passageiros da cidade de Jutaí | Foto: Divulgação Prefeitura Municipal

    O pescador Rogério Nonato, de 25 anos, disse que o pequeno produtor não se organiza em cooperativas e sua produção é de subsistência. Não é possível produzir em escala e ainda tornam-se vítimas fáceis de atravessadores, que compram a matéria-prima a custo irrisório e vendem para às indústrias pelo custo bem mais alto. Sem contar que as estradas não são pavimentadas, não tem porto de embarque e desembarque e muito menos aeroporto.

    “A produção de pescado não é bem democrática, até por conta das áreas demarcadas, quem são restritas às comunidades com lagos, onde um pescador da cidade não pode pescar. Jutaí necessita de infraestrutura em toda orla, pois o percurso dela virou área de risco devido à erosão. Aqui não existe área de livre comércio e sim área de livre contrabando”, comentou Rogério.  

    Município de Jutaí - Infográfico Município de Jutaí - Infográfico Município de Jutaí - Infográfico Município de Jutaí - Infográfico Município de Jutaí - Infográfico Município de Jutaí - Infográfico Município de Jutaí - Infográfico Município de Jutaí - Infográfico Município de Jutaí - Infográfico

    Edição: Isac Sharlon

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    Entrevista com o ex-seringueiro Sebastião Gonzaga Daniel - parte 2 | Autor: Divulgação Prefeitura de Jutaí
    Entrevista com o ex-seringueiro Sebastião Gonzaga Daniel - parte 3 | Autor: Divulgação Prefeitura de Jutaí
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