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    Rota do tráfico


    Rota do tráfico: Manaus, a cada esquina um ponto de drogas

    Capital amazonense é a rota de tráfico de entorpecentes da Colômbia e Peru, e atualmente está dominada por pontos de drogas em quase todos os bairros

    Segundo a Polícia Federal, o tráfico de drogas movimenta até R$ 1,5 bilhão, por ano, no Amazonas
    Segundo a Polícia Federal, o tráfico de drogas movimenta até R$ 1,5 bilhão, por ano, no Amazonas | Foto: Marcely Gomes

    Manaus -“Corredor do tráfico”. É assim que o Amazonas e Manaus são consideradas, por escoar grande parte das drogas que abastecem as cidades das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil, além de países da Europa. Somente nos três primeiros meses de 2018, foram apreendidas mais de 13 toneladas de drogas no Estado.

    A chamada “rota do Solimões”, com mais de 20 anos de utilização, é uma das principais portas de entrada de cocaína produzida no Peru e na Colômbia. Ela inicia na cidade colombiana de Cauca, local apontado pelas autoridades como um dos maiores polos produtores de entorpecentes, seja pela “cultura” do cultivo ou pelo clima propício.

    Usuários de entorpecentes estão todas as noites fumando nas ruas
    Usuários de entorpecentes estão todas as noites fumando nas ruas | Foto: Marcely Gomes

    De lá, a maior parte do skunk é transportado pelo rio Caquetá até o rio Japurá, descendo de barco e passando por municípios como Maraã, Tefé, Coari, Codajás, Anamã, até chegar a Manaus, onde é distribuído para a Europa e para o resto do Brasil.

    Assim como em São Paulo, Manaus, com todo o seu crescimento também está prestes a ter uma Cracolândia em algumas partes do Centro, devido a Rota do Tráfico no Amazonas. Ao cair da noite, as ruas movimentadas pelo comércio de manhã, se transformam. Andarilhos descalços, magros e quase sempre imundos surgem e se misturam às montanhas de lixo espalhadas devido a um dia produtivo de uma grande cidade.

    Com um olhar triste e roupas esfarrapadas, Alexanderson Dias Ramos, 40, afirma que chegou ao fundo do poço. Com dois filhos, de 13 e 21 anos, ele entrou para o mundo das drogas há dois anos. “Trabalho como carregador e também vendo verduras. Ganho bem, por dia, mas gasto muito com drogas. Todo o dinheiro que consigo, compro a pedra (crack). É um vício que parece não ter fim. Quanto mais compro, mais quero”, diz o morador em situação de rua que vaga pela rua Barão de São Domingos.

    Alexsanderson Dias Ramos, 40, é usuário de "crack" na rua Barão de São Domingos, na região central de Manaus
    Alexsanderson Dias Ramos, 40, é usuário de "crack" na rua Barão de São Domingos, na região central de Manaus | Foto: Marcely Gomes

    Nas proximidades de onde Alexanderson trabalha, o cenário desolador serve como abrigo para centenas de pessoas, que assim como ele, fazem o uso da droga. Além do crack, conhecido popularmente como “Pedra”, a cocaína e a maconha são as mais consumidas. Somente o crack, por exemplo, já está presente em 83% dos municípios do Amazonas, segundo pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), com base no Observatório do Crack, do governo federal.

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    “Gasto até R$ 100 por dia com a pedra. Às vezes penso que a minha vida chegou ao fim, mas sei que não. Entrei para as drogas quando fiquei desempregado, meu pai foi assassinado, um irmão morreu de cirrose e minha mãe foi parar numa cama após um acidente doméstico. Comecei a ter diversas desavenças no meu relacionamento e vi minha ex-mulher ser morta numa boca de fumo. Nem sei como ainda estou vivo”, completa, ressaltando que não tem um bom relacionamento com os filhos, mas, que apesar de tudo, tem o mais velho como sua esperança. “É gerente de loja, estuda e trabalho honestamente”.

    Embora viaturas da Policia Militar transitem a todo momento, os usuários não se intimidam, dizem apenas respeitar os policiais, não consumindo os entorpecentes.

    Ex-traficante

    Amigo de infância do narcotraficante José Roberto Fernandes, o “Zé Roberto da Compensa”, detido em um presídio federal brasileiro, João da Silva (nome fictício), que é ex-traficante de drogas e atuava na Compensa, Zona Oeste de Manaus, disse que o ramo das drogas é bem lucrativo. “Imagine só, você têm milhares de usuários no mundo. Em todos lugares e classes sociais, você vai ter um comprador. Além disso, você ganha em um dia, o que ganharia em um mês. Já me deparei com mais de uma tonelada de drogas na minha frente. É um mundo muito glamoroso. Todos são seus amigos, e isso nos cega”, disse o homem, que deixou o mundo das drogas após perceber que não seria bom, para o futuro da filha, continuar nessa situação no mundo criminoso.

    Por pouco, João da Silva não foi preso, após quase uma década levando uma vida de barão e criminoso na sociedade amazonense. João se viu na antiga Delegacia Especializada em Prevenção e Repressão ao Entorpecente - a Depre, na época - com alguns quilos de drogas, no entanto, em uma conversa com um advogado, pagou R$ 5 mil e foi solto. “Por pouco não tive o mesmo fim que o Zé (Zé Roberto). Um amigo que eu nem sei se verei outra vez”, lamentou.

    Polícia combate o crime

    O delegado Guilherme Torres, titular do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), afirma que o skunk, a “super maconha”, é a droga mais apreendida pelas forças de segurança do Amazonas nos últimos meses. Isso porque a maconha colombiana se transformou em alternativa do CV, após o PCC dominar a rota paraguaia.

    “Em junho do ano passado, o PCC matou o Jorge Rafaat, um dos maiores traficantes da tríplice fronteira do Paraguai, e dominou aquela rota, que escoa droga para o Rio de Janeiro e São Paulo. Com isso, o CV teve que se aliar a facções como a FDN e procurar uma nova rota de acesso à maconha. Foi aí que começaram a explorar a rota pelo rio Japurá”, explicou o delegado.

    O delegado Guilherme Torres, titular do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), afirma que o skunk, a “super maconha”, é a droga mais apreendida
    O delegado Guilherme Torres, titular do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), afirma que o skunk, a “super maconha”, é a droga mais apreendida | Foto: Divulgação

    No ano passado, a Secretária de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), apreendeu 16.443,73 quilos de drogas. Já nos três primeiros meses deste ano, juntas, as forças de segurança do Estado; Exército, SSP-AM e Polícia Federal, apreenderam mais de 13 toneladas de drogas entre maconha e cocaína. Grande parte da droga foi interceptada em embarcações na “rota do tráfico”.

    Combate

    A imensidão dos rios e da floresta Amazônica se torna aliada dos criminosos. Eles conseguem driblar, em alguns casos, o baixo efetivo de combate ao narcotráfico existente na região. As condições geográficas e hidrográficas da região entre a fronteira e Manaus são algumas das dificuldades enfrentadas pelas forças de segurança estaduais e federais no combate ao narcotráfico.


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