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    imigração


    Venezuelanos voltam a acampar ao lado da Rodoviária de Manaus

    Atualmente, 671 imigrantes se dividem em três abrigos na capital amazonense. Os abrigos, segundo a prefeitura, estão lotados

    Imigrantes se dividem em pequenos grupos para tentar sobreviver em condições melhores | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    Manaus - O viaduto do bairro Flores, Zona Centro-Sul, próximo a Rodoviária de Manaus, na Zona Centro-Sul, voltou a ser abrigo de imigrantes venezuelanos. Segundo a Prefeitura, o principal motivo da volta dos imigrantes é a lotação máxima dos três centros de abrigo na capital amazonense.

    Homens, mulheres e crianças improvisam a melhor moradia do jeito que podem. Barracas doadas ou trazidas do próprio país de origem, redes, lençóis, papelões. Tudo o que amaciar melhor o chão na hora de dormir vale. 

    Apesar de estarem na mesma situação, a manicure Carolina López, de 30 anos, disse que há muitas brigas entre os colegas refugiados. Quando alguém - com muita sorte - consegue comida, as pessoas se amontoam pedindo um pouco do alimento e acabam se desentendendo.

    Improvisando armadores, onde encontram uma sombra, venezuelanos armam sua rede
    Improvisando armadores, onde encontram uma sombra, venezuelanos armam sua rede | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    "Ao todo, somos cerca de 40. O nosso grupo tem mais ou menos 15 pessoas. Cuidamos uns dos outros e tentamos ficar unidos, mas nem todos são assim. Alguns só querem se aproveitar da boa vontade", falou.

    Juntos desde sempre

    Carolina López  é casada com Adriano há três anos, com quem tem quatro filhos. Eles vieram andando de Boa Vista (RR) há cerca de um mês.

    "Consegui uma vaga como vigilante de carros na Rodoviária. Minha esposa tenta voltar ao trabalho de manicure, mas os salões sempre dizem que vão retornar e nunca ligam. Por enquanto, aqui está melhor que em Boa Vista", contou Adriano.

    Casal fala que mesmo apesar das dificuldades, o incentivo maior que recebem vem um do outro
    Casal fala que mesmo apesar das dificuldades, o incentivo maior que recebem vem um do outro | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo


    Carolina falou que, mesmo com a onda de violência e a forte falta de oportunidade de emprego na capital roraimense, se manteve firme com o esposo.

    "No final das contas, só temos um ao outro. Buscamos uma vida melhor para nossos pais, que estão em Aragua (Venezuela) com nossos filhos. Juntos somos melhores", disse com um sorriso no rosto.

    Diário de bordo

    Para outros, as circunstâncias são ainda piores. O estudante de teatro e cinema, Ericksson Díaz, de 21 anos, saiu de casa há um ano em busca de terminar o curso e sair da dificuldade econômica em que a família vive.

    Estudante de teatro, Ericksson tem o sonho de terminar a faculdade
    Estudante de teatro, Ericksson tem o sonho de terminar a faculdade | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    "Não conhecia ninguém e acabei me perdendo em Boa Vista. Dormir em uma praça pública e os policiais me expulsaram dizendo que não podia ficar ali. Como não estou no meu país, não conheço bem a política de imigrantes. Tentei a vida em Roraima, mas não havia espaço nenhum para mim", lamentou.

    Antes de sair de sua cidade natal, Mérida, ele pesquisou por alguns países como Chile, Equador, Argentina e disse que o Brasil "era o menos pior" dentre as confusões internacionais de que ouviu falar sobre o cenário político. 

    Regulamentado com todos os documentos pelos órgãos competentes, ele disse que tem condições de ser contratado para o trabalho regular com o visto temporário de moradia e a carteira de trabalho. Nesse meio tempo, ele sonha em terminar a faculdade e construir a carreira de ator que sempre quis ter.

    O estudante mantém um diário com todas experiências na esperança de poder encorajar quem passa pelas mesmas circunstâncias
    O estudante mantém um diário com todas experiências na esperança de poder encorajar quem passa pelas mesmas circunstâncias | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    "Mantenho todas as experiências guardadas em um diário. Tanto boas, quanto ruins. Isso me ajuda a lembrar por onde passei. Quero terminar meus estudos, mas ainda não tenho dinheiro nem para almoçar. É estranho como o mundo dá voltas. Um dia, vou escrever um livo e inspirar outros que passaram pelo mesmo que estou passando. Sei que isso é temporário. Nenhuma dor dura para sempre", falou esperançoso.

    Carolina frisou que nenhum dos colegas imigrantes que estão no viaduto eram mendigos na Venezuela. "Nunca dormir na rua ou pedi dinheiro a estranhos e olha onde estou. Todos têm uma profissão. Só queremos a chance de reconstruir nossas vidas", comentou.

    Para usar o banheiro da Rodoviária, é cobrado R$ 1. Quem não tem o dinheiro, usa a torneira que fica para fora do prédio anexo
    Para usar o banheiro da Rodoviária, é cobrado R$ 1. Quem não tem o dinheiro, usa a torneira que fica para fora do prédio anexo | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    Confira reportagem da TV Em Tempo

    Em busca de oportunidades, venezuelanos voltam a acampar perto da Rodoviária | Autor: TV Em Tempo

    Prefeitura

    A Prefeitura de Manaus, responsável pela situação migratória no município, confirmou, por meio de nota oficial, que não há mais espaço nos três centros de abrigo na capital. Mesmo assim, a pasta de assistência humanitária (Semmasdh) enviou uma equipe para fazer um levantamento da situação no viaduto.

    "Na segunda-feira (15) enviamos uma equipe de abordagem ao local e foram encontradas um total de 28 pessoas sendo 25 homens e 3 mulheres. Alguns afirmaram estar em Manaus há mais de um mês e outros há cerca de 15 dias. Nem todos estão documentados e pediram ajuda para a emissão de documentação", diz trecho da nota.

    Ainda conforme a nota, alguns refugiados pensam em ir para Porto Velho, Acre e Pará. Segundo a secretaria, eles disseram que procuraram a Cáritas, serviço de ajuda da Igreja Católica, mas não receberam nenhum tipo de ajuda. Atualmente, 671 imigrantes estão abrigados em Manaus.

    Os que conseguem comida, improvisam um fogão com latas de tinta e suporte de churrasqueira
    Os que conseguem comida, improvisam um fogão com latas de tinta e suporte de churrasqueira | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    Eleições 2018

    A 12 dias do segundo turno das eleições estaduais e presidenciais, os presidenciáveis Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL) têm opiniões parecidas sobre a crise venezuelana.

    Haddad disse que o Brasil é conhecido tradicionalmente por ser um país acolhedor e que o PT vai continuar tratando a crise da mesma forma como governos anteriores. "Vamos continuar tentando uma solução pacífica com o governo de Maduro e negociar para uma saída democrática. Além disso, vamos reassentar para outros Estados", disse.

    Bolsonaro falou que o País poderia procurar a Organização das Nações Unidas (ONU) para criar centros de refugiados perto da fronteira. "Não podemos deixar o problema nas mãos de Roraima", opinou. Ele também criticou a lei de migração atual, afirmando que o País não pode ser um "lugar de fronteiras abertas".


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