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    Infraestrutura


    A revitalização da BR-319 pode trazer consequências para a Amazônia?

    Se é verdade que a Amazônia brasileira possui a extensão de inúmeros países, a infraestrutura da região não acompanha a sua grandeza e importância

    Construída em 1974, durante a Ditadura Militar, como parte do Projeto de Integração Nacional, a rodovia BR-319 foi abandonada pelo Ministério dos Transportes em 1988.
    Construída em 1974, durante a Ditadura Militar, como parte do Projeto de Integração Nacional, a rodovia BR-319 foi abandonada pelo Ministério dos Transportes em 1988. | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Se é verdade que a Amazônia brasileira possui a extensão de inúmeros países, a infraestrutura da região não acompanha a sua grandeza e importância. Há alguns anos, moradores de Manaus (AM) e Porto Velho (RO) enfrentam dificuldades para transitar entre as duas cidades. 

    O transtorno se dá pelas condições da rodovia BR-319, que deveria conectar as duas cidades, mas, em vez disso, é um grande obstáculo para quem precisa cair na estrada e circular na região seja de carro ou com companhias de ônibus como a Viação Sampaio. Obras de pavimentação dessa estrada têm previsão de serem concluídas em 2021

    Se a construção de estradas é importante para permitir o fluxo de pessoas e mercadorias, em regiões como a Amazônia, os estudos de impactos ambientais (EIA) são mais que meras formalidades. Tais estudos são fundamentais para prever danos ambientais e omissões por parte das empresas responsáveis pelas obras. 

    Determinados impactos ambientais são irreversíveis e nunca afetam apenas os ecossistemas, mas todos os humanos que vivem e se relacionam com a região. Uma das obras que divide opiniões é a BR-319.

    Situação rodoviária da região amazônica 

    Moradores e motoristas que precisam circular entre as capitais do Amazonas e de Rondônia deverão esperar ao menos até 2021 para fazê-lo, segundo declarações recentes do presidente Jair Bolsonaro. As obras se referem à conclusão de trechos entre o quilômetro 250 e o 656 — região denominada “meião”. O presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, também anunciou a reinauguração dos portos Maués, Autazes, Coari e Itacoatiara, no Amazonas.

    Construída em 1974, durante a Ditadura Militar, como parte do Projeto de Integração Nacional, a rodovia BR-319 foi abandonada pelo Ministério dos Transportes em 1988. Em 880 km de extensão, dos quais apenas 65 pertencem à Rondônia, essa estrada corta uma região ainda preservada da Floresta Amazônica, composta por parques, estações ecológicas, vilas e cidades. Os cerca de 400 km do “meião” aguardam licenciamento ambiental para serem pavimentados.

    Construída em 1974, durante a Ditadura Militar, como parte do Projeto de Integração Nacional, a rodovia BR-319 foi abandonada pelo Ministério dos Transportes em 1988.
    Construída em 1974, durante a Ditadura Militar, como parte do Projeto de Integração Nacional, a rodovia BR-319 foi abandonada pelo Ministério dos Transportes em 1988. | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Reconstrução da rodovia BR-319

    A pressão de políticos em Manaus levou à proposta de reconstrução da rodovia, no mesmo local em que a anterior começou a ser feita. Porém, o EIA apresentava falhas graves e nunca foi aprovada. Famosa por conectar a capital do Amazonas à região denominada Arco de Desmatamento em Rondônia, a estrada permitiria o livre-trânsito de grileiros e madeireiros e sua possível migração para a Amazônia central.

    Outro impacto se refere à possibilidade de conexão entre a BR-319 e outras estradas estaduais, como a AM-366. O problema é que, diferentemente das rodovias federais, essas rodovias podem ser construídas sem licenciamento ambiental federal. Outra consequência é que elas fazem a conexão com partes intactas de floresta no interior do Amazonas, como os municípios de Coari, Juruá e Tefé.

    Atividades ilegais

    Por trás da vasta mata verde que acompanha a estrada, imagens feitas por drones registram grandes clarões, resultado do trabalho de madeireiros, em sua maioria, ilegais, e das queimadas naturais e artificiais que assolam essa área. 

    Uma das justificativas apresentadas para o Ibama não conceder o licenciamento foi a escassa presença de integrantes do Estado na região, o que dificultaria a fiscalização das obras e da circulação na rodovia — rota marcada por extração ilegal de madeira e queimadas, suscitadas para derrubar a vegetação local e tornar a área apta para a pecuária e a agricultura.

    Em 2017, garimpeiros queimaram escritórios de órgãos ambientais no município de Humaitá, no Amazonas. Em uma área marcada por violentos conflitos de terra como a Amazônia brasileira, outra preocupação acerca da construção da BR-319 é a maior facilidade com que esses grupos terão de promover ataques violentos a comunidades indígenas, quilombolas e órgãos de fiscalização na região.

    Impactos ao meio ambiente

    Na época em que foi construída, boa parte da BR-319 tinha asfalto. Com o passar do tempo e a falta de manutenção, a rodovia foi perdendo essa cobertura e hoje apresenta longos trechos sem pavimentação, com exceção das áreas próximas às capitais. Entre os trabalhos de manutenção da estrada que apresentam altos impactos ambientais estão as zonas de empréstimos e o assoreamento de igarapés.

    Zonas de empréstimo

    As zonas de empréstimos são áreas de florestas cortadas a fim de permitir reparos necessários a serem feitos pelo poder público em determinado trecho da rodovia. A ideia é replantar a vegetação original após o fim das obras, o que, na prática, nem sempre acontece.

    Igarapés

    Presentes em toda a região, os igarapés são pequenos rios, geralmente superficiais que correm no interior das matas. A construção de novos trechos ou o reparo da estrada faz com que esses rios sejam desviados. Esse assoreamento os faz secar e não fornecer água em quantidade suficiente para as comunidades locais. A medida também faz surgir pequenas represas que alagam algumas partes da mata, impedindo que elas sejam habitadas por árvores de grande porte.

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