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    COVID-19


    Em Manaus, entregadores de app ignoram coronavírus por sustento

    Informais ficam vulneráveis mesmo com recentes anúncios de ajuda de aplicativos

    Trabalhadores têm preocupações mais urgentes, como o sustento obtido de maneira precária nos pedais | Foto: Reprodução

    Manaus - Enquanto a maioria dos amazonenses se mantém em isolamento, eles estão por toda parte: mochilas térmicas nas costas, celular sempre à vista e pés no pedal, entregadores de aplicativos cortam ruas vazias na capital amazonense como se a pandemia do coronavírus não existisse. Os trabalhadores têm preocupações mais urgentes, como o sustento obtido de maneira precária nos pedais. Fazem isso em jornadas extenuantes, que superam 12 horas diárias. 

    Após o fechamento de restaurantes e bares, decretado no último sábado (21), os manauaras só podem pedir comida em casa ou ir buscá-la. Um consolo para as pessoas trancadas em casa, que viram suas vidas perturbadas pelo fechamento de escolas, trabalho home office e pela suspensão de todos os eventos culturais.

    “Enquanto outros estão em casa, nós enfrentamos o risco de contrair Covid-19. Isso realmente me preocupa. Tenho uma esposa e dois filhos, todos estão tomando as medidas para ficar em casa, mas de que adianta se eu os coloco em perigo por estar nas ruas?”, questiona Raimundo Silva, autônomo que trabalha como entregador.

    Os entregadores também têm medo do contágio, mas garantem que não têm escolha a não ser continuar trabalhando. Tomaram precauções extremas contra esse vírus que já matou mais de 8 mil pessoas em todo o mundo: alguns usam luvas, gel desinfetante e máscaras. “Toda vez que entrego comida, coloco gel desinfetante nas mãos e troco as luvas”, afirma o entregador Fernando Silva.

    Empresas reforçam delivery

    As maiores empresas de delivery estão engajadas em oferecer auxílio aos entregadores cadastrados em suas plataformas e em intensificar campanhas de conscientização durante a pandemia do coronavírus. A Uber, que entrega alimentos pelo Uber Eats, anunciou que qualquer trabalhador ou motorista diagnosticado com o Covid-19 receberá assistência financeira por até 14 dias. Não diz, entretanto, qual será o valor.

    Para diminuir o contato físico entre cliente e entregador, a empresa também lançou a opção de “deixar o pedido na porta”. A orientação está na área de instruções de entrega do aplicativo. O iFood destinará R$ 1 milhão a um fundo de solidariedade para entregadores que tiverem que fazer quarentena ou que contraiam o vírus. A Didi Chuxing, chinesa dona do aplicativo de corridas 99, lançou um fundo global de US$ 10 milhões com o mesmo intuito. A Rappi também disponibilizará uma opção de entrega em domicílio sem contato físico e passou a incentivar o pagamento via app para diminuir a aproximação entre o entregador parceiro e o cliente final.

    Outros desafios sem Covid-19

    Frank Araujo, 32, é entregador pelo Uber Eats há 1 ano e 6 meses e a sua maior dificuldade em trabalhar com entregas em Manaus é o trânsito, mesmo de motocicleta o entregador conta que o congestionamento na cidade não tem mais horário para acontecer.

    “O aplicativo estipula um tempo e os quilômetros que temos que percorrer durante a entrega, e o pedido precisa ser entregue dentro deste tempo se não somos punidos no próximo pedido, em Manaus o trânsito é constante e quando chega nos horários de pico, o fluxo de carros piora”, relata.

    Mas apesar da meta estabelecida pelo aplicativo é necessário ficar atento o tempo todo, o entregador já sofreu três acidentes e conta que as situações são consequência do preconceito dos motoristas. “Muitos motoristas não se preocupam com o próximo no trânsito, já cai três vezes da moto, nenhum grave, mas sempre escuto frases ofensivas e me mandam fazer minhas entregas em outro lugar”.

    Descriminação 

    O preconceito não existe somente nas ruas, muitos entregadores retiram os pedidos em shopping e nem sempre estão vestidos de maneira adequada para entrar nos ambientes devido o tempo da cidade. O motoqueiro sabe bem como é ser constrangido pelos seguranças do local.

    “Eu estava indo pegar os pedidos no Manauara Shopping, mas quando eu tentei entrar na praça de alimentação o segurança me parou dizendo que eu não podia entrar no local naquele jeito, nesse dia eu estava um pouco molhado devido à chuva, no início ele me intimidou e não acreditou que eu fosse entregador, até que eu apresentei meu documento e o aplicativo, e ele me deixou continuar o trabalho, mas eu me senti menosprezado. ”

    Ao contrário do que se pensa o trabalho com entregas é reconhecido como formal uma vez que os entregadores são empregados por empresas, independente do ramo, e podem recorrer a desacato caso sejam impedidos de exercer sua função em alguma situação. Mas conviver com esse tipo de tratamento nem sempre é a realidade de todos os trabalhadores, o entregador Marcos Freitas, 31, nunca passou por situações como esta, mas diariamente precisa conviver com a periculosidade dos bairros da capital.

    “As pessoas fazem pedidos de todos os bairros e nós sempre fazemos de tudo para entregar. Certo dia eu fui até um bairro deserto da cidade e já era bem tarde, quando cheguei lá a casa era no fim de um beco, foi necessário pedir permissão aos traficantes e me identificar a eles, graças a Deus saiu tudo bem, mas espero nunca passar por isso novamente”, revela.

    O entregador trabalha há seis meses pelo Ifood e conta que enfrenta muita dificuldade com o tempo da cidade e precisa realizar todas entregas em qualquer temperatura. “Parece que as pessoas deixam para pedir só quando chove, o aplicativo trava de tanta demanda e nesses casos a gente sai para fazer a entrega, o importante é levar a refeição ao cliente, mas sempre com cuidado e segurança”.

    Forma de sustento

    Para os trabalhadores, todo o esforço vale a pena, ambos lucram em média R$3 mil a R$4 mil, trabalhando com uma carga horária flexível de aproximadamente 14 horas diárias. Os entregadores garantem ainda que podem tirar folgas e estabelecer seu próprio horário de trabalho.

    “Eu consigo me organizar financeiramente e tirar algumas folgas na semana, curtir com a família, então é um trabalho que compensa muito pela flexibilidade e retorno financeiro. Eu consigo pagar minhas despesas e isso não tem preço”, ressalta Frank.

    Já para Marcos, o retorno financeiro é o melhor incentivo, pois comparado ao seu emprego anterior ele lucra duas vezes mais. “Antes eu trabalhava em uma distribuidora e precisava chegar 7h da manhã. E às vezes trabalhava até tarde e recebia metade do que ganho atualmente, então pra mim compensa porque hoje meu trabalho é tranquilo”.

    Quatro dicas ao pedir comida

    - Opte pelo recebimento sem contato. No Uber Eats, vá em instruções de entrega e sugira que a mercadoria fique na portaria ou no local desejado. No Rappi, faça isso pelo chat

    - Após receber o pacote, higienize as mãos imediatamente

    - Configure para que os pagamentos sejam feitos pelo aplicativo, evitando contato com maquininha de cartão ou dinheiro

    -Se puder, adicione um valor extra a ser pago ao motorista; faça via aplicativo

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