Fonte: OpenWeather

    SÉRIE AMAZÔNIA


    Manaus: a cidade que matou seus igarapés

    No passado, igarapés limpos e cheios de vida. Hoje, um corredor de lixo e doenças

    | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Andar pela orla dos igarapés de Manaus é uma experiência sensorial. A vista é de assustar. Muito lixo e restos de comida pelo chão onde se erguem casas de madeira, as famosas palafitas. A estrutura dessas habitações são tão precárias, que sensação é que podem desabar a qualquer momento. No ar, uma mistura do abafado clima amazônico com o fedor de lixo molhado. Mas, se hoje esses espaços são verdadeiros lixões a céu aberto, noutra época não era assim.

    Prova disso é a história de Lili, 48, moradora de uma casa de palafita à beira do igarapé Cachoeira Grande, situado no bairro São Jorge. Ela viveu toda a sua vida ali, e lentamente foi observando as águas mudarem de cor e o meio líquido ser envolvido por muito lixo, que boia o tempo todo.

    "Eu nasci aqui. Minha mãe estava lavando roupa aí na beira da água quando me teve na balsa', conta ela. 

    Lili mora em uma casa de palafita desde que nasceu
    Lili mora em uma casa de palafita desde que nasceu | Foto: Lucas Silva

    Pelo que Lili se recorda, o cenário do lugar era completamente diferente. Onde hoje só existe lixo, havia uma praia bonita e que permitia muita diversão para os moradores. Até pescar era possível.

    "Essa água não era imunda assim, não.  Eu brincava muito. Aprendi a nadar aí. Mas agora eu fico triste vendo essa situação, no que se transformou. E tá aumentando mais [o lixo e a poluição]". 

    Na casa de madeira em que Lili vive, há quatro cômodos, todos separados por cortinas. Ela diz não querer se mudar, mesmo com o fato de  sua casa estar sob ameaça de desabamento. Recentemente um dos pilares cedeu junto com o desmoronamento de parte do barranco.

    "Eu não quero sair, não. Esse lugar é meu, meus pais morreram e ficou para mim. Enquanto meu banheiro ainda tá aqui, dá para ficar um pouquinho. Vou pagar um quarto com os R$ 300 do auxílio emergencial como? Os aluguéis são tudo R$ 600 para cima. Não tenho condições. E ainda preciso comprar comida", comenta a moradora. 

    Lili diz se sentir constantemente desamparada
    Lili diz se sentir constantemente desamparada | Foto: Lucas Silva

    Em meio a toda essa situação, Lili diz se sentir muito sozinha, sem ajuda. Ela reclama que "políticos não fazem nada para ajudar quem vive nessas situações" e destaca que sempre conquistou tudo sozinha.

    "Eu me sinto muito sozinha. Às vezes eu choro, choro, choro. Não tem ninguém para fazer nada por mim", ela fala com a voz trêmula. As lágrimas descem discretamente, inundam os olhos sem esperança.

    Quando os igarapés eram vivos

    Se os feixes de água que cortam a cidade são um corredor de poluição e mal cheiro, o passado nos mostra que um dia já houve beleza ali.

    “Nos anos 50, os igarapés eram limpos, ainda que já houvesse palafitas e flutuantes. Dois exemplos são o Igarapé de Manaus e o Igarapé da Segunda Ponte”, conta o historiador Abrahim Baze. 

    Segundo o pesquisador, as pessoas vinham dos interiores para a capital, mas não encontravam boas condições e apoio do governo para moradia. O que faziam era, naturalmente, até pelo costume interiorano do Amazonas, construir casas próximas aos igarapés. 

    Piscina no bairro Parque 10, anos 1960
    Piscina no bairro Parque 10, anos 1960 | Foto: Arquidiocese de Manaus

    Abrahim explica que as pessoas, à época, tinham uma relação muito mais próxima com os igarapés. Para exemplificar, ele traz à memória o falecido Balneário do Parque 10.

    “As pessoas se refrescavam do calor de Manaus nesses espaços, que eram chamados de banhos públicos. Um exemplo é uma piscina construída no bairro Parque 10, durante os anos 1940”, conta ele.

    A piscina foi elaborada durante o mandato do engenheiro Antônio Botelho Maia, na prefeitura de Manaus (1937–1940). A água vinha do Igarapé do Mindu, que à época ainda possuía águas límpidas. O espaço fez sucesso por muito tempo, até começar a respirar por aparelhos no início dos anos 70.

    Por que (e como) matamos os igarapés?

    A reportagem conversou com sete moradores de palafitas. Todos afirmaram, cada um à sua maneira, que não gostam de viver nessa situação, mas que não têm condições de sair disso. Esse se torna um bom exemplo para como os igarapés de Manaus foram sendo habitados.

    "Manaus, infelizmente, teve uma relação histórica muito danosa com a natureza. A cidade se expandiu no Período da Borracha (1879-1912) e Período da Zona Franca (entre anos 70 e 90), o que acabou afetando os feixes de água que cortam a capital", explica Marcos Castro, doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP).

    Marcos Castro, geógrafo
    Marcos Castro, geógrafo | Foto: Brayan Riker

    Quando chegavam a Manaus à espera de uma melhora na qualidade de vida, emigrantes encontravam pouca ou nenhuma assistência habitacional. 

    "Nós olhamos muito essa ocupação irregular, e esquecemos de observar o problema estrutural. Há muita desigualdade de renda e desemprego, e a terra, como é uma mercadoria, tem preço. Logo, algumas pessoas não têm condições de comprar, e sem política habitacional, elas acabam indo morar na beira dos igarapés. Elas não pensam que estão desmatando, porque só querem alcançar o direito fundamental da moradia", comenta o geógrafo. 

    Sufoco todos os anos

    Se para alguns, a estação chuvosa na Amazônia é um momento de paz devido ao calor intenso, para outros é um verdadeiro inferno.

    Para os moradores das palafitas, chuva traz cheia, que, por sua vez, causa estragos e até mortes. 

    A dona de casa Alessandra dos Santos, 43, sabe bem o que é isso. Ela mora há oito anos  com sua família em uma palafita no bairro Educandos e se prepara todos os anos para as chuvas. 

    No ar, uma mistura do abafado clima amazônico com o fedor de lixo molhado
    No ar, uma mistura do abafado clima amazônico com o fedor de lixo molhado | Foto: Brayan Riker

    "Antes da estação começar, eu já compro as madeiras para fazer as marombas, que são umas pontes dentro de casa. Assim quando entra água em casa, a gente pode passar de um cômodo pro outro sem pisar na água", conta ela.

    Embora haja essa adaptação, Alessandra desabafa estar cansada de toda essa situação. 

    "É um sufoco. Entra cobra e outros bichos dentro de casa, além do fedor da água poluída e do lixo", afirma.

    Limpeza

    Em 2019  foram realizadas 1.800 ações de limpeza em mais 150 igarapés e córregos de Manaus, o que resultou em uma quantidade coletada de mais de 10.000 toneladas de resíduos. É o que informa a Secretaria Municipal de Limpeza Pública.

    Igarapé do Franco em janeiro de 2020
    Igarapé do Franco em janeiro de 2020 | Foto: Lucas Silva

    O serviço representou uma extensão linear executada de mais de 400 quilômetros, sendo, por extensão de igarapé, coletados 28 toneladas de lixo a cada 1 Km. A Média de custo desse serviço foi de R$ 1.327.001,33 por mês e R$ 1.413,79 por tonelada.

    É possível despoluir?

    Sem delongas, sim. É possível despoluir um rio ou mesmo igarapé. A revista Exame listou, inclusive, sete exemplos de rios recuperados ao redor do mundo, dentre eles o Rio Sena, na França.

    O rio francês recebia esgoto doméstico no século passado, e foi alvo, por muito tempo, de preocupação ambiental. Foi a partir de 1960 que os franceses passaram a revitalizar as águas do Sena e construir estações de esgoto. Em 2016, segundo a Exame, já havia ao menos 30 espécies de peixes no Rio. Além disso, a revista explica que há um incentivo do governo francês entre 100 e 500 euros para que agricultores à margem do Rio Sena não o poluam. 

    Veja a matéria completa da WEB TV


    Leia Mais

    Alerta: Igarapés de Manaus podem mudar PH do Rio Negro

    Comentários