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    Imigração


    Com excesso de imigrantes em RR, Manaus pode receber mais venezuelanos

    Presidente Temer visitou RR nesta segunda para planejar alternativas de escoamento e descentralização de imigrantes

    Índios venezuelanos em Manaus acampanhados no viaduto de Flores, em maio de 2017
    Índios venezuelanos em Manaus acampanhados no viaduto de Flores, em maio de 2017 | Foto: Arthur Castro


    Manaus - Com excesso de imigrantes venezuelanos em Boa Vista, capital de Roraima, devido à grave crise que assola o país vizinho, Manaus pode receber uma nova leva de estrangeiros, tal como ocorreu no primeiro semestre de 2017, em que indígenas venezuelanos buscaram a capital amazonense, em busca de comida e serviços de saúde. 

    Com a visita do presidente Temer e comitiva de ministros, nesta segunda-feira à capital roraimense, novas medidas foram tomadas para conter o impacto da imigração em massa. O mais provável é que o Governo Federal interiorize a população estrangeira para outras cidades, o que pode incluir Manaus.

    Em seu discurso, o ministro da Defesa, Raul Jungmann fez questão de ressaltar a necessidade de distribuição dos venezuelanos pelo País, salientando que, embora a migração de venezuelanos ocorra geograficamente em Roraima, na verdade “este é um problema nacional, que apenas se dá pelo norte do País, por uma questão de fronteiras”. E emendou: “Cabe ao Brasil abraçar e assumir as mesmas responsabilidades”.

    Índios venezuelanos em Manaus
    Índios venezuelanos em Manaus | Foto: Arthur Castro

    Diariamente, imigrantes venezuelanos ingressam no Brasil pela fronteira com Roraima. A prefeitura de Boa Vista estima que cerca de 40 mil venezuelanos tenham entrado na cidade, em busca de uma vida melhor. O número corresponde a mais de 10% da população local, de cerca de 330 mil habitantes.

    Indígenas em Manaus


    No primeiro semestre do ano passado, Manaus entrou em estado de emergência com a chegada dos índios venezuelanos, da etnia Warau. Cerca de 300 índios ficaram acompanhados nas proximidades de rodoviária da cidade, embaixo do viaduto de Flores, na Zona Centro-Sul da capital. A Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Direitos Humanos (Semmasdh) aponta que, no ápice da imigração, mais de 600 índios chegaram à capital.

    Para o motoboy, Warllessom Freitas Batista, a notícia da possível chegada de mais imigrantes não agrada quem vive no entorno da rodoviária. Batista trabalha há mais de 15 anos na área, e conta que a vinda de imigrantes causou certo transtorno. "A gente ouve muito os rumores. O Governo diz uma coisa, mas, quem mora aqui já está sabendo. Os flanelinhas e os outras pessoas que dormem na rodoviária, dizem que além de índios, estão vindo outras pessoas. Sabemos que, se vierem, vão acabar aqui na rodoviária", disse. 

    Esgoto a céu aberto

    O motoboy lembra os meses de permanência dos índios venezuelanos no local. Com o caos que se formou, a empresa em que trabalhava decidiu afastá-lo por dois meses, do ponto firmado na rodoviária. Segundo ele, a rota do viaduto de Flores quase  ficou  intrafegável para veículos e pedestres, por conta do acompanhamento improvisado. "Eles defecavam no local e o mau cheiro empesteava toda a região próxima. Eles também consumiam muita droga. Como muitos flanelinhas já tinham boca de fumo no local, a coisa ficou absurda.Os próprios flanelinhas diziam que a droga dos índios era a melhor. Foi uma das piores épocas para se trabalhar por aqui", lembra.  

    Hiolanda Mendes (nome fictício) também trabalha no Complexo Rodoviário, como caixa da lanchonete e relata como a presença dos venezuelanos mudou a rotina do local. "Sei que precisamos ser solidários com os estrangeiros, mas na ocasião, Manaus não tinha estrutura para receber tanta gente. O mau cheiro das fezes espantou os clientes, ninguém mais queria vir aqui. Os caciques das tendas bebiam em uma taberna aqui perto e depois faziam algazarra. Às vezes, vinham aqui pedir comida. Acredito que, se mais gente chegar, será necessário organizar. Não podemos viver o que vivemos no ano passado", diz. 

    Estratégias 

    Após o decreto de emergência do Município emitido no ano passado, em relação aos Warau, o plano emergencial realizado em Manaus, conseguiu realocar os estrangeiros em um abrigo provisório no bairro do Coroado, Zona Leste. Atualmente, cerca de 120 indígenas estão espalhados em cinco casas no Centro, recebendo acompanhamento da prefeitura.

    "Caso houver uma situação parecida com a do ano passado, iremos traçar novas estratégias. No ano passado, tínhamos um plano tático, em parceria com o Ministério Público Federal, para controlar a situação dos índios venezuelanos. Infelizmente o Brasil não tem uma política migratória efetiva nas fronteiras. Se não houver direcionamento, as cidades aqui do Norte sempre serão alvos de problemas, como a tomada de vias públicas e a sobrecarga nos serviços de saúde", disse a assessoria da Secretaria de Assistência Social (Seas).

    Índios nômades 

    O clímax da imigração venezuelana, na cidade de Manaus, ocorreu em meados de junho de 2017, segundo a Semmasdh. O secretário Elias Emanuel explica que a alta leva de imigrantes aconteceu porque os Warau são conhecidos como nômades. Não havia um controle que monitorasse com rigidez a entrada e a saída deles do país. "Em uma semana, nós encontrávamos um índio aqui, e na outra ele ia embora e voltava com mais 60. Depois que começaram os registros oficiais nos serviços de cidadania, saúde e educação eles entenderam que só fica aqui, quem decide construir uma vida e se estabelecer em Manaus".

    Emanuel ressalva que o trabalho da Secretaria também prevê  o cuidados com venezuelanos não indígenas. "Estamos reformando o antigo abrigo no Coroado, em um posto de atendimento. Estamos prontos para receber os imigrantes, mas de poucos por vez. Se vierem muito de Roraima, por exemplo, terão que esperar. Não há como atender uma grande demanda", disse. 

    Medidas do governo brasileiro 

    Com a visita do presidente Temer e comitiva de ministros nesta segunda-feira em Boa Vista, novas medidas foram anunciadas por parte do governo brasileiro. Além do comando da força tarefa conjunta, haverá aumento de 100 para 200 homens nos pelotões de fronteira em Roraima, com duplicação dos pontos de controle na fronteira, no interior do Estado e entre Pacaraima e Boa Vista. Haverá, também, desdobramento de um hospital de campanha em Pacaraima, para atender o fluxo inicial dos venezuelanos que estão entrando no País.

    Novos centros de triagem serão instalados para ajudar na recepção dos venezuelanos, assim como estão sendo deslocadas motocicletas com equipes volantes para reforçar além dos postos de fronteira. No âmbito do Ministério da Justiça, 32 homens da Força Nacional que estão em Manaus serão deslocados para Roraima, assim como oito caminhonetes serão levadas para ajudar no patrulhamento das cidades.

    Haverá também repasse de recursos para auxílio ao Estado e aos municípios. O ministro da Justiça chegou a falar dos primeiros R$ 700 mil para a instalação de centros de referência e anunciou nova reunião conjunta em 14 de março, para tratar especificamente dos problemas com a população indígena na região, atribuindo os entraves existentes a questões meramente ideológicas. Reiterou ainda que será iniciado um censo entre os venezuelanos.

    Críticas 

    Em sua fala, o ministro do GSI fez críticas indiretas ao governo venezuelano e aos governos anteriores do Brasil que apoiaram a atuação dos governos Nicolas Maduro e Hugo Chavez, que levarão à atual crise venezuelana.

    Ao citar os problemas na Venezuela, que acabaram por resultar neste fuga em massa para o Brasil, o ministro Etchegoyen citou que “este êxodo social foi provocado por decisões ideológicas, que levaram ao desastre venezuelano”, lembrando que “boa parte destas posturas foram festejadas até que chegássemos à tragédia que hoje vivemos”.

    Ajuda internacional 

    O general Etchegoyen, por sua vez, apelou para que outros países que queiram ajudar os venezuelanos, aqui no Brasil ou na própria Venezuela, que o façam por meio do nosso país. “O Brasil oferece ajuda aos venezuelanos pela crise que eles enfrentam e abre-se para que outros países que queiram cooperar o façam por meio da gestão do Brasil”, declarou ele, citando que Canadá, Estados Unidos, União Europeia, e países da região já manifestaram desejo de cooperar de alguma maneira “para que nós possamos ajudá-los onde eles estão, lá mesmo na Venezuela”.

    Boa Vista 

    Na cidade de Boa Vista, dos quatro abrigos do Estado, três estão lotados. Há casas com até 30 pessoas dividindo o mesmo teto e histórias diferentes de superação e sobrevivência. Recentemente, um guianense, identificado como Gordon Fowler, de 42 anos, foi preso em flagrante suspeito de incendiar uma casa cheia de imigrantes. Outros casos aquecem a pasta de segurança e as delegacias da cidade com o aumento da criminalidade, prostituição e desordem pública. 

    Fernanda Lopes, mora perto de um dos abrigos, e disse que o local se transformou em uma favela de estrangeiros. " De dia, eles vão trabalhar, mas quando chegam à noite fico com medo. É estranho de repente várias pessoas parecerem tomarem conta da cidade de uma hora para outra e você não saber o que fazer", conclui. 

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