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    Educação


    Bullying: relato de sobreviventes

    Recorrente em colégios, esse tipo de violência consiste em um conjunto de brincadeiras maldosas, ameaças e agressões que podem levar à ansiedade e depressão

    De acordo com a Secretaria de Estado de Educação e Desporto (Seduc), foram registrados 46 casos de bullying em escolas públicas da rede estadual em 2019 | Foto: Lucas Silva

    Manaus - “Os colegas me xingavam, falavam que o meu cabelo era ruim, chamavam de macaca, diziam que eu não era inteligente e que eu cheirava mal. Eu ficava triste e me afastava da turma. Ficava meio no canto e me sentia só. A prática era tida como algo normal. Mesmo que doesse, a gente aceitava, era uma bagunça entre amigos", relata Thayane Maia. A universitária foi uma das inúmeras vítimas de bullying na escola.

    "Onde eu estudava não havia projetos para combater essa violência. Fiz depois acompanhamento psicológico, mas ainda enfrento esse problema, escuto muitas coisas na rua, de pessoas adultas. Já me abalou muito. Atualmente, não abala mais", finaliza.

    “Os dias de aula eram infernais. Cedo, recebi o apelido de ‘João’, pois meu cabelo era curtinho, por conta de umas complicações quando nasci e os médicos tiveram que raspá-lo. Na 1ª série, meu cabelo foi cortado pela colega que sentava atrás de mim. Recebi depois o apelido de espantalho, por ser ‘feia e esquisita’. Eu me sentia acuada, agredida e insuficiente. Na 7ª série, fui trancada na sala por dois garotos, pois eles disseram que queriam ir lanchar com ‘gente normal’. Procurei a coordenação da escola, mas nada fizeram. A psicopedagoga disse que não acreditava em mim. Tudo isso afetou meu desempenho”, conta a universitária Ana Letícia Silva, que, durante anos, sofreu com piadas relacionadas a sua aparência e agressões no colégio.

    "Os alunos me ignoravam. A única época em que eu não era invisível era no dia do meu aniversário, até porque só podia fazer as festinhas nas dependências da escola se a turma toda fosse convidada. Somente quando mudei de escola e fui bem acolhida pelos novos profissionais, foi que comecei a reagir a essa agressão. Mas, ainda hoje, enfrento a autoestima baixa, o pavor à rejeição, sem falar na ansiedade e depressão. As sequelas que o bullying deixa, seja em mim ou em qualquer pessoa, são destrutivas”, completou Ana Letícia.

    "Minha farda mal cabia em mim de tão magra que eu era. Por anos, fui chamada de magricela, Olívia Palito, garça e perna de maçarico. Eu vestia duas calças jeans, uma em cima da outra para ver se minha perna parecia mais grossa. Eu queria me enterrar. Qualquer coisa era melhor do que ver aqueles olhares e os risos debochados. Hoje, lamento o tempo que perdi me importando com essas bobagens. Sinto orgulho da pessoa que me tornei. Queria era voltar a ser magra (risos)", assim conta *Ângela Lima, professora e advogada.

    Os relatos dão conta da saga de ex-estudantes sobreviventes da triste realidade brasileira que aponta, conforme Dados do último relatório (2018) do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), que três em cada dez alunos de 15 anos no Brasil afirmam sofrer bullying nas escolas, o que corresponde a 29%, percentual que está acima da média dos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que é de 23%.

    De acordo com a Secretaria de Estado de Educação e Desporto (Seduc), foram registrados 46 casos de bullying em escolas públicas da rede estadual em 2019
    De acordo com a Secretaria de Estado de Educação e Desporto (Seduc), foram registrados 46 casos de bullying em escolas públicas da rede estadual em 2019 | Foto: Lucas Silva

    Bullying: o que é e como combater?

    Recorrente no ambiente escolar, esse tipo de violência consiste em um conjunto de brincadeiras maldosas, apelidos, ameaças, insultos e intimidações que agridem a criança ou o adolescente. Quando ocorre de forma contínua, o bullying pode causar danos físicos e psicológicos nas vítimas.

    De acordo com a Secretaria de Estado de Educação e Desporto (Seduc), foram registrados 46 casos de bullying em escolas públicas da rede estadual de ensino entre os meses de janeiro a outubro do ano passado. Pelo menos 34 dos casos aconteceram em escolas da capital e oito no interior.

    Em unidades da rede municipal, o número divulgado foi relativamente menor. Segundo a Secretaria Municipal de Educação (Semed), apenas quatro casos foram registrados pelo órgão. No entanto, a secretaria informou, em nota, que esses dados só são computados quando o aluno ou a família do estudante registra a ocorrência.

    A pedagoga Viviane Cavalcante, da Escola Estadual Benjamin Magalhães Brandão, afirma que o aluno alvo da violência passa a apresentar baixo rendimento, apatia às aulas e isolamento, e que uma das formas mais comuns é o cyberbullying, que ocorre nas redes sociais. Ela destaca que a melhor forma de a escola combater a prática é por meio de campanhas de sensibilização e aplicação de medidas preventivas e punitivas constantes no regimento escolar.

    “Um grupo de meninas, alunas do 7° ano, idade entre 13 e 14 anos, criou um perfil em uma rede social, chamado 'pirentas e fedorentas', onde eram postadas fotos de alunas e comentários com conteúdo pejorativo. Chegamos até o grupo, convocamos os pais, orientamos as alunas e punimos com advertência e transferência”, relatou.

    Considerado uma questão de saúde pública, o bullying atinge crianças e adolescentes com perfil tímido, introvertido e com habilidades sociais mais fracas. A psicóloga Adriana Andrea complementa que, apesar de muitas vezes ser tratado como uma ‘brincadeira’, o bullying pode afetar a construção da personalidade de quem está sofrendo, ocasionando a baixa autoestima, ansiedade e depressão.

    “O bullying pode passar despercebido na escola ou na família por ser confundido com uma brincadeira, mas é uma forma de agressão contra a dignidade do outro”, disse.

    É fundamental que os profissionais de educação tenham um olhar atento e diferenciado para cada indivíduo e que sejam feitas as intervenções necessárias. A parceria entre escola e família é essencial na prevenção ao bullying. Nelly Falcão de Souza, diretora do Colégio Martha Falcão, destaca a importância dessa integração para o desenvolvimento do aluno.

    "Não só nas escolas devem ser trabalhados conteúdos socioemocionais na prevenção ao bullying, mas também na família, pois, às vezes, esse processo ocorre em casa. Quando acontece na escola e os pais são chamados, reagem de forma diferente quando o filho é vítima ou quando é o que provoca. A mediação da escola se torna desafiadora", afirma. 

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