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    Meio Ambiente


    Lixeiras viciadas e igarapés poluídos comprometem qualidade de vida

    Em 2017, a prefeitura de Manaus gastou, em média, R$ 1 milhão por mês com a retirada de lixos das ruas, barrancos e igarapés da capital amazonense

    Só nos dois primeiros meses deste ano, a Prefeitura de Manaus retirou das ruas mais de 2,1 mil toneladas de lixo | Foto: Janailton Falcão

    Manaus - Um lar é geralmente considerado, pela maioria das pessoas, um lugar confortável e acolhedor. Aquele cheiro familiar inconfundível, de onde veio a expressão “lar, doce lar” é o que torna o ambiente  tão especial.

    Em Manaus, a proximidade de moradias próximas a igarapés poluídos, traz para dentro de casas o odor fétido da água poluída com esgoto e lixo, embalagens em decomposição e toda espécie de detritos. É o que acontece na residência da dona de casa Maria do Socorro, de 59 anos, localizada na rua Ambrósio Ayres, bairro São Jorge, Zona Oeste.

    A família, composta por cinco pessoas e uma criança, convive com a podridão do lixo, acumulado há anos, nas proximidades do Igarapé da Cachoeira Grande, que passa embaixo da ponte da Avenida São Jorge. "Aqui, já houve limpeza pública há alguns anos, mas hoje a sujeira tomou conta do meu terreno. Quando há cheia no igarapé, todo o lixo jogado pelos moradores de outras ruas vem parar no meu quintal. Chegam geladeiras, fogões e até fraldas de bebês. Para não virar uma fossa, pego a enxada e tiro tudo sozinha", lamenta a dona de casa. 

    Com a chuva, o lixo jogado pela polução invade casas
    Com a chuva, o lixo jogado pela polução invade casas | Foto: Nicolas Daniel Marreco

    Os problemas causados pela poluição ambiental traz desavenças com vizinhos, proliferação de insetos e a preocupação com as doenças. Além do lixão acumulado atrás da casa, a frente da residência também está repleta de sacos com dejetos. “Nos últimos dias choveu muito aqui no bairro. Tenho medo de reclamar, pois não sei quem é envolvido com o tráfico de drogas. Tenho medo de me ameaçarem, o jeito é conviver com isso", afirma.

    Apesar das circunstâncias, a mulher limpa toda a sujeira e ainda encontra estímulo para fazer um jardim e cultivar algumas árvores frutíferas, verduras e legumes. "Ainda tenho esperança de que as coisas melhorem", diz ela. 

    O mau comportamento vem de casa

    Outro caso que mostra o descaso dos moradores com o meio ambiente ocorre no conjunto Costa e Silva, no bairro Raiz, Zona Sul. A secretária administrativa Josianne Delgado, que é moradora do local há mais de 40 anos, reclama que na rua Cristo Rei há um barranco que abriga uma lixeira viciada. O lugar, antes coberto por vegetação, acolhia de iguanas a borboletas. Atualmente, urubus, ratos e baratas rodeiam carcaças de animais, assustam a população e poluem o local. 

    Exemplos de vizinhos que acumulam o lixo nas calçadas, na mesma rua onde mora Maria, são vistos à luz do dia
    Exemplos de vizinhos que acumulam o lixo nas calçadas, na mesma rua onde mora Maria, são vistos à luz do dia | Foto: Nicolas Daniel Marreco

    “Moro aqui há mais de 20 anos e sinto saudades do tempo que cheguei. As pessoas eram mais educadas. Se duvidasse, o vizinho do lado até retirava o meu lixo, quando eu esquecia. Hoje, a nossa paisagem mudou. É tanto lixo acumulado que pessoas de outras partes do bairro vêm aqui só para jogar imundícies e vão embora depois”, reclama.

    Ela diz que a Prefeitura já visitou o local diversas vezes, retirando o lixo e fazendo a recuperação da vegetação. Além de placas ilustrativas no esforço de educar moradores, Delgado diz que de nada adiantou o esforço. “O problema está na cabeça das pessoas. A Prefeitura pode vir, mas enquanto as pessoas não se conscientizarem, não vai mudar nada. Gente que eu nunca vi na vida vem e despeja entulhos de obras na cara de pau em frente à minha rua e acham normal isto”, termina.

    Uma possível solução, segundo a secretária, seria a implantação forçada de um jardim no local com pneus grandes para ocupar todo o espaço e proteger as mudas de plantas. Ela disse que conseguiu reunir com alguns moradores da rua, onde mora, os pneus e que a próxima fase é ir atrás das mudas para começar o plantio.

    Em meio a uma diversidade de flores e vegetais, Maria diz que ainda insiste em manter um bom costume de limpeza e cuidado no terreno em que vive
    Em meio a uma diversidade de flores e vegetais, Maria diz que ainda insiste em manter um bom costume de limpeza e cuidado no terreno em que vive | Foto: Nicolas Daniel Marreco

    Perigos e precauções

    O engenheiro ambiental Alan dos Santos Ferreira conta que uma lixeira viciada compromete o solo do ambiente, corrompe a estrutura da casa e pode contaminar crianças com doenças bacterianas.

    “Em um primeiro momento, o terreno onde as casas estão construídas, é afetado diretamente com a mistura de substâncias que o lixo traz. A terra fica empobrecida, a vegetação morre aos poucos. A fauna local é afetada e até lençóis de água são contaminados. Isto impacta na questão do saneamento básico que se soma à precária infraestrutura da cidade", explica.

    Ferreira é especialista em meio ambiente há 16 anos e diz que, em uma segunda fase, a permanência da lixeira compromete a sustentação devido a erosão e degradação do solo. “O desmoronamento de casas é comum em lugares com muito lixo. A mistura de matéria industrial presente no lixo corrói aos poucos a terra e, depois de um tempo, grandes crateras ficam visíveis aos olhos de quem passa perto. Além disso, bueiros e esgotos ficam entupidos, causando alagações e inundando vias e praças”, completou.

    Com as lixeiras viciadas, várias doenças endêmicas se proliferam
    Com as lixeiras viciadas, várias doenças endêmicas se proliferam | Foto: Ione Moreno

    O acúmulo de lixo na proximidade de residência traz doenças endêmicas às famílias. Disenteria, leishmaniose, leptospirose e dengue são alguns dos exemplos decorrentes nestes casos. “As crianças menores, que normalmente têm imunidade mais baixa que os adultos, são as mais frágeis neste cenário, pois ficam vulneráveis a inúmeras doenças, muitas vezes fatais", complementa.

    O caramujo africano, um molusco exótico trazido para o Brasil, tem se proliferado em Manaus. O animal causa meningite e hepatite, além de ser, indiretamente, um criadouro para o mosquito Aedes Aegypt, dentro de sua carapaça. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) realiza campanhas didáticas para o combate ao molusco, junto à população, divulgando informações sobre como se livrar da presença do indesejado animal. 

    Identificar o caramujo africano dos outros tipos, diferente pela sua casca pontiaguda, usar luvas ou sacos plásticos para proteger as mãos, colocar o caramujo dentro de um saco, despejar sal e depositá-lo em uma lixeira comum são os passos corretos a serem seguidos pela população, alerta a secretaria ambiental. 

    Com a mistura de substâncias industriais, a erosão do solo se torna comum
    Com a mistura de substâncias industriais, a erosão do solo se torna comum | Foto: Divulgação

    A 'má educação'

    A socióloga Klyo Monteiro levanta reflexões importantes que trazem uma explicação sobre a ausência de educação ambiental por parte das pessoas que poluem o ambiente, com o lixo que produzem. “A cidadania é vista como uma situação pontual de conscientização. No Brasil é comum essa questão de desrespeito nas relações mútuas, a desobediência às leis públicas e a questão da ética. Cidadania tem a ver com a personalidade do indivíduo. Não é relação de consumo ou interesse, como a maioria pensa”, destaca Monteiro.

    A especialista fala que é papel dos governantes ensinar valores para a população, porém isso não é uma questão de mandato. A educação sempre começa na família, mas há poucas políticas públicas sobre o assunto. Também não há punição nos crimes contra o meio ambiente. Isso fomenta a cultura de se fazer o que quiser, inclusive de vizinhos acharem que têm o “direito” de jogar lixo no terreno do outro.

    Quando o lixo cai na casa de Maria, a solução que ela encontra é pegar uma enxada e começar a limpar sozinha toda a área
    Quando o lixo cai na casa de Maria, a solução que ela encontra é pegar uma enxada e começar a limpar sozinha toda a área | Foto: Nicolas Daniel Marreco

    Monteiro explica ainda que campanhas de publicidade sobre reutilização e reciclagem são medidas antigas, mas que contornam o problema.“Campanhas e ideias que provocam mudanças, são as alternativas que fazem a diferença. É preciso haver uma transformação na mente da pessoa que está com uma lixeira ao lado, porém joga o lixo no chão”, conclui.

    Deu certo

    Na rua Brasil, no Vila da Prata, Zona Oeste, o projeto de paisagismo em jardinagem deu certo. No ponto ao lado de uma escola pública, a moradora Élida Maria da Silva, de 57 anos, que coordenou o começo da ação, disse que o barranco era um antigo depósito de lixo, onde diversos moradores passavam e jogavam sacos plásticos livremente, como nos casos citados nessa reportagem.

    O barranco aterrado com pneus na rua Brasil, no bairro Vila da Prata, atrai a atenção de pessoas que passam próximo ao local
    O barranco aterrado com pneus na rua Brasil, no bairro Vila da Prata, atrai a atenção de pessoas que passam próximo ao local | Foto: Marcely Gomes

    Desde outubro do ano passado, ela, o irmão e um vizinho começaram a limpar o local e a aterrá-lo com pneus grandes para o escoramento do talude por iniciativa própria. Após isso, colocaram mudas de plantas não frutíferas. Com a mudança radical da paisagem, outros moradores aderiram ao projeto. Atualmente, quem passa por lá não imagina como era a via  há alguns meses.

    “Quero que as pessoas entendam que não precisamos esperar pelo poder público. Podemos, nós mesmos, cuidar e melhorar o local onde moramos. Espero que esta iniciativa contagie pessoas de outros bairros e também mude realidades. Não precisamos nos sujeitar a vizinhos, que insistem em depredar a nossa casa, mas podemos convencê-los aos poucos. Se um já tomar a frente para a mudança, em pouco tempo, todos vão ter o lugar decente e digno que merecem morar”, finalizou.

    Prefeitura

    A Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Públicos (Semulsp) informou, por meio da assessoria, que em 2017 gastou, em média, R$ 1 milhão por mês com a retirada de lixos das ruas, barrancos e igarapés. Para este ano, a pasta ressalta que o número permanece alto, apesar das várias ações realizadas. 

    A presença de garis para recolhimento de lixo de casa em casa, conforme o órgão aponta, não trouxe diminuição nas incidências de lixo. "Esperamos que a sociedade mude seus hábitos quanto ao lixo e ajude a manter as águas livres de poluição", destacou o comunicado divulgado pela secretaria. 


    Edição Web: Isac Sharlon e Gláucia Chair

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