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    Contaminação


    Contaminação por mercúrio ameaça botos na Amazônia

    Alto volume do metal encontrado nos botos do rio Tapajós é um sinal de alerta para ribeirinhos e indígenas

    Ainda não se sabe o efeito do mercúrio para os botos, mas os prejuízos humanos são estimados. | Foto: WWF-Brasil/Adriano Gambarini

    Manaus - Uma pesquisa realizada pela Iniciativa Botos da América do Sul (SARDI) apresentou resultados preocupantes quanto ao índice de mercúrio nos golfinhos fluviais da Amazônia. O alto volume deste metal nos botos é um sinal de alerta para os seres humanos que dependem das mesmas águas que estes animais, como ribeirinhos e povos indígenas. Contaminação humana com mercúrio causa danos ao sistema nervoso central, disfunções neurais, e, em casos graves, leva à paralisia e à morte.

    O alerta é resultado do primeiro monitoramento via satélite de golfinhos fluviais, botos, realizado pela Iniciativa Botos da América do Sul (SARDI), formada pelas organizações Faunagua, Fundação Omacha, Instituto Mamirauá, Prodelphinus e WWF. Foram acompanhados 29 botos da Bolívia, do Brasil, da Colômbia e do Peru. Os botos analisados são das espécies Inia geoffrensis, o boto cor de rosa, e Inia boliviensis, ou bufeo boliviano.

    De acordo com as análises feitas nos tecidos desses cetáceos, 100% das amostras musculares analisadas apresentam alto teor de mercúrio. Esse metal pesado usado na exploração artesanal de ouro e também mobilizado por queimadas da floresta nativa, polui a água e o ar, acumula-se em plantas e animais e, através dos peixes, ameaça espécies como os botos, bem como a saúde e os meios de subsistência de milhões de pessoas que habitam a Amazônia.

    O biólogo do WWF-Brasil e coordenador desta iniciativa de conservação de botos na Amazônia, Marcelo Oliveira, explica que o índice encontrado nos botos analisado foi considerado muito altos, tendo em vista o padrão para peixes ou para pessoas. Os dados foram comparados com outros animais capturados na Colômbia e, de fato, o resultado foi alarmante. “Todos tinham alguma contaminação, mas metade tinha altos índices”, diz o pesquisador.

    Os animais brasileiros analisados nesta pesquisa foram capturados no começo do rio Tapajós, no ponto de encontro com o Rio Juruena, na região Sul do Amazonas, fronteira com os estados do Pará e Mato Grosso. Desde os anos 1980, a área deste rio registra contaminação por mercúrio.

    Botos estão na classificação "em perigo", pela segundo a lista vermelha da The International Union for Conservation of Nature.
    Botos estão na classificação "em perigo", pela segundo a lista vermelha da The International Union for Conservation of Nature. | Foto: Marcelo Santana/Instituto Mamirauá

    Fontes potenciais do mercúrio

    O mercúrio é um metal pesado que, sob condições normais, é encontrado em baixas concentrações no ambiente, sendo naturalmente liberado devido a processos erosivos e erupções vulcânicas.

    As queimadas de grandes áreas florestais na região Amazônica também são apontadas, em relatório do Ministério do Meio Ambiente, como uma fonte significativa de emissões de mercúrio no país. Além disso, existe a problemática da contaminação do solo devido ao descarte incorreto de produtos que contêm mercúrio, englobada pela Política Nacional de Resíduos Sólidos.

    Marcelo explica que o solo amazônico já tem mercúrio em seu estado natural. “O que acontece é que o mercúrio é mobilizado por queimadas ou desmatamento. E também tem esse solo sendo jogado para dentro dos rios”, conta. É desta forma que o mercúrio sai do ambiente natural e entra na cadeia. Além disso, o mercúrio também é usado em garimpo de ouro, especialmente garimpos ilegais existentes nesta região do Amazonas.

    Monitoramento dos botos 

    O primeiro monitoramento com transmissores satelitais, foi realizado entre 2017 e 2019, em seis grandes bacias hidrográficas da Bolívia, Brasil, Colômbia e Peru, onde esses cetáceos se movem, se alimentam e se reproduzem.

    O grupo promove a conservação dos botos e seus habitats com estratégias conjuntas, como monitoramento por satélite. Seu objetivo tem sido acessar informações científicas sobre essas espécies e seus habitats, seus movimentos, alimentos, o impacto de ameaças como a mineração e os efeitos negativos das mudanças climáticas, a fim de obter maiores insumos para sua conservação.

    “Quando entendemos melhor a ecologia dos animais e seus movimentos, como está acontecendo agora, podemos propor ações de conservação mais eficazes. É muito importante continuar esse esforço regional exatamente no momento em que vimos a magnitude dos incêndios na Amazônia. Isso tem impacto nos ecossistemas aquáticos, portanto, o monitoramento de espécies é ainda mais importante para conhecer também a saúde de florestas e rios nas bacias da Amazônia e Orinoquia”, explica Marcelo.

    O grupo promove a conservação dos botos e seus habitats com estratégias conjuntas, como monitoramento por satélite.
    O grupo promove a conservação dos botos e seus habitats com estratégias conjuntas, como monitoramento por satélite. | Foto: WWF-Brasil/Adriano Gambarini

    Contaminação

    O mercúrio não existe no organismo dos mamíferos de forma natural. Ele é obtido por contaminação, seja por ingestão ou por outros mecanismos. Traz sérios problemas motores, neurológicos, doenças associadas, levando à morte se não diagnosticado e freado o aumento desse nível. Trata-se de um metal extremamente tóxico.

    “Para mulheres grávidas e para crianças é péssimo, porque causa deformações em fetos, e, em crianças, no mínimo tem um déficit de aprendizagem muito grande, pois afeta o sistema cognitivo”, diz Marcelo. Para os botos, ainda não se sabe quais são os efeitos. Considerando o fato de que eles são mamíferos, então se infere que tem efeitos parecidos com o que tem nos humanos.

    Vera da Silva, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), explica que o perigo não está só na água. “As plantas e animais também podem estar contaminados com mercúrio. Como ele é um metal bio acumulador, ele vai acumulando no organismo, ele não é metabolizado, essa proporção aumenta”.

    Significa que, se o ser humano come um peixe com carga de mercúrio, ele passa a ter a carga de contaminação que estava no animal. Isso acontece não só com humanos, mas entre os próprios animais.

    Peixes carnívoros são os que mais acumulam mercúrio. A piracatinga é o peixe que apresenta os maiores índices de contaminação por mercúrio, pois tem entre os seus hábitos o de comer animais mortos.

    Hidrelétricas 

    No passado, os botos podiam nadar sem obstáculos pelas bacias do Orinoco e Amazonas. No entanto, a operação de mais de 140 usinas hidrelétricas e a previsão de outras 160 no bioma Amazônia mudaram esse cenário e estão gerando consequências preocupantes para a conservação desses cetáceos. Por quê? Barragens isolam populações de botos, deixando-as desconectadas dos principais canais. Além da alta mortalidade de ovos e animais juvenis em turbinas hidrelétricas, a migração dos peixes – seu principal alimento - é interrompida, gerando uma ameaça significativa à sua reprodução.

    O monitoramento mostrou que os botos usam diferentes ambientes aquáticos para viver: áreas de confluência de rios, lagoas, rios e canais tributários e até áreas rasas perto das praias, onde se acasalam. Além disso, essas áreas estão mudando ao longo do ano em resposta ao nível da água e ao ritmo das inundações. Por esse motivo, o controle dos fluxos por hidrelétricas pode afetar todo o ciclo de vida da Amazônia, em áreas úmidas e florestas inundadas importantes para botos e peixes.

    A redução do estoque de peixes devido à transformação de seus habitats pode aumentar os conflitos entre pesca e botos e pôr em risco a soberania alimentar de milhões de pessoas que usam esses recursos.

    Embora possam ser uma solução energética hoje, as usinas hidrelétricas na Amazônia significam um problema alimentar para amanhã. “Por que insistir nessas enormes infraestruturas se podemos obter energia de fontes renováveis? O SARDI analisou o impacto de usinas hidrelétricas, como as construídas no rio Madeira (Brasil), onde nos próximos cinco anos as populações de peixes que migram longas distâncias, como os bagres, e onde o bufeo boliviano poderiam ser afetados pela falta de alimentos”, disse Paul Van Damme, diretor de Faunagua (Bolívia).

    Próximos passos

    Um dos pontos mais importantes para o grupo de instituições que compõem o SARDI é que esses resultados sejam levados em consideração no desenvolvimento do Plano de Conservação e Manejo (CMP) de botos de rio, que é apoiado pela Comissão Internacional baleeira, como resultado de um esforço coordenado entre governos. Este é o mais alto órgão científico internacional responsável pelas regulamentações relacionadas a cetáceos. Assim, o CMP visa mitigar ameaças aos golfinhos de água doce na América do Sul.

    Nas fases seguintes do monitoramento por satélite, os pesquisadores do SARDI desejam obter informações sobre a pressão gerada pela caça de botos para uso ​​como isca para capturar uma espécie de peixe conhecida como mota (no Peru, Colômbia), piracatinga (no Brasil) ou blanquillo (na Bolívia). Por fim, eles também buscam ter mais dados sobre áreas onde estradas ou usinas hidrelétricas não devem ser construídas para poder orientar as ações dos governos considerando a proteção dos botos e seus ecossistemas na Amazônia e Orinoquia.

    Sobre os botos

    Apesar de serem animais famosos e símbolo da Amazônia, existem poucos estudos com informações científicas consolidadas sobre os botos. Os botos são animais de topo de cadeia alimentar, se alimentam exclusivamente de peixe e, com isso, acumulam qualquer toxina bioacumulável. Hoje, segundo a lista vermelha da The International Union for Conservation of Nature (IUCN/RedList), o boto-tucuxi (Sotalia fluviatilis) é classificado como um animal com “dados insuficientes” e o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) saiu dessa categoria apenas no final de 2018. Hoje, ele é considerado “em perigo” (“Endangered”, em inglês). Este é o segundo nível de ameaça mais grave para um animal e indica que a espécie pode ser extinta num futuro próximo.

    Acesse o artigo científico completo: https://www.cambridge.org/core/journals/oryx/article/effectiveness-of-unmanned-aerial-vehicles-to-detect-amazon-dolphins/75F0F61047497C88B14EEAA6CB280672

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