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    AVANÇO CIENTÍFICO


    Jovem brasileiro cria aparelho para comunicação com pacientes em coma

    O cientista de apenas 20 anos tem revolucionado a medicina com criações que favorecem o desenvolvimento da saúde por meio da tecnologia

    Borges testou o Hermes Braindeck em 50 voluntários
    Borges testou o Hermes Braindeck em 50 voluntários | Foto: Acervo pessoal


    As referências de olhar sobre o mundo, construídas pelo cientista Luiz Fernando da Silva Borges, 20, sempre foram consolidadas no amor e dedicação ao próximo. Viciado em séries de televisão do gênero científico, não demorou muito para que o jovem criasse pontes de comunicação entre a ficção e a realidade. Agora o brasileiro é destaque internacional pela criação de um sistema de comunicação neurológica com pacientes em estados inconscientes, como o coma.

    No interior do estado de Mato Grosso do Sul (MS), em uma cidade chamada Aquidauana, cresceu o técnico em informática que vem revolucionando o mundo da medicina desde que era um adolescente. Apaixonado por ciência e tecnologia desde criança, ele amadureceu suas aspirações e desde o ensino médio, cursado no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), vem se especializando no cenário da Engenharia Biomédica, área de estudo voltada para a biomedicina em diálogo com a tecnologia.

    Luiz Fernando Borges foi convidado ao Programa do Bial, na Rede Globo, para falar sobre suas pesquisas
    Luiz Fernando Borges foi convidado ao Programa do Bial, na Rede Globo, para falar sobre suas pesquisas | Foto: Acervo pessoal


    “Eu cresci assistindo séries de TV onde os protagonistas eram cientistas que trabalhavam em descobertas e realizações que favoreciam o bem maior de todos, que possibilitavam qualidade de vida por meio da saúde e da tecnologia. Crescer assistindo o meu pai e minha mãe escolhendo fazer a diferença na vida de outras pessoas, o que me fez querer trabalhar com humanos, salvando vidas”, explica o jovem.

    Jornada científica e tecnológica

    A jornada científica de Luiz Fernando foi tomando corpo a partir de 2013 quando ingressou no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), onde o estudante conta que buscou estar sempre envolvido com atividades extracurriculares em feiras de ciência e tecnologia ao redor do Brasil. Foi nessa época que Luiz passou a ser reconhecido internacionalmente ao ser convidado para participar da Intel International Sciense and Engeneering Fair, prêmio promovido pela multinacional de tecnologia, Intel.

    Após participações em uma das maiores feiras de ciência e saúde, o jovem foi enviado pelos Estados Unidos (EUA) como representante em encontros de biomedicina e tecnologia na Europa
    Após participações em uma das maiores feiras de ciência e saúde, o jovem foi enviado pelos Estados Unidos (EUA) como representante em encontros de biomedicina e tecnologia na Europa | Foto: Acervo pessoal


    “Em 2013 eu desenvolvi um projeto chamado Termociclador, com capacidade de copiar e ler amostras de DNA para estudos. Em 2016 criei um novo método de controle de próteses, um sistema que visa recuperar a sensibilidade tátil de pessoas que perderam algum movimento usando a mente para transformar os ‘membros fantasmas’ em reais, usando próteses e a força do pensamento. Todos esses projetos foram premiados em feiras internacionais sendo um deles na Intel International Sciense and Engeneering Fair”, conta Borges.

    Mecanismo criado pelo cientista para dar movimento a membros que ainda respondem a sinais cerebrais mesmo após amputados
    Mecanismo criado pelo cientista para dar movimento a membros que ainda respondem a sinais cerebrais mesmo após amputados | Foto: Acervo pessoal

    Reconhecimento e Ascensão

    O consequente prestígio no mercado da ciência, educação e saúde logo lhe rendeu possibilidades financeiras e tecnológicas maiores e mais efetivas. Em 2017 ele foi convidado pelo primeiro web portal de educação do país para desenvolver um novo estudo na engenharia biomédica. Recebendo o incentivo privado de R$ 150 mil reais, investidos pelo criador do Portal Educação, ele criou o Hermes Braindeck, o aparelho permite uma leitura neural de sinais emitidos por cérebros de pacientes em estados inconscientes, como por exemplo o coma.

    “O paciente usa uma touca com vários fios conectados a sensores e um fone de ouvido para receber instruções. Pede-se ao paciente para imaginar o movimento da mão direita e o da mão esquerda. Cada pensamento ativa ondas cerebrais distintas. Dessa forma, o paciente consegue responder perguntas dos médicos e dos familiares”, afirma Luiz Fernando.

    Cada pensamento ativa uma parte diferente do cérebro. A máquina  traduz esses padrões em respostas
    Cada pensamento ativa uma parte diferente do cérebro. A máquina traduz esses padrões em respostas | Foto: Acervo pessoal

    A ferramenta é o produto da inspiração do jovem em uma pesquisa do neurocientista britânico Adrian Owen publicada na revista Science, em 2006. Em sua pesquisa, Owen mostrou que seria possível se comunicar com pessoas em coma usando um aparelho de ressonância magnética.

    Dificuldades

    O sistema já foi usado em 50 pacientes voluntários que, apesar de não estarem inconscientes, passaram pela leitura cerebral respondendo às perguntas do teste usando apenas estímulos neurais para respostas como ‘sim’ e ‘não’. “Em testes com pessoas saudáveis, o sistema teve 80% de precisão em reconhecer os dois padrões de resposta”, ressalta o pesquisador.

    A ideia é que o aparelho possa ser testado em pacientes do SUS a partir de 2019
    A ideia é que o aparelho possa ser testado em pacientes do SUS a partir de 2019 | Foto: Acervo pessoal

    Apesar dos resultados satisfatórios, Luiz afirma ainda que, por diversos motivos, a descoberta está um pouco distante de fazer parte da realidade do cenário hospitalar no país. “Ainda não conseguimos levar o mecanismo para os hospitais por conta de falta de material necessário. Esperamos em 2019 a exportação do equipamento mais consolidado para abrir essa ferramenta a pacientes internados”, explica Borges.

    Desenvolvimento e futuro

    O cientista se prepara agora para a próxima fase de sua pesquisa. Após receber a liberação do Comitê de Ética em Pesquisa (Cep), por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), Luiz Fernando deve receber a partir de janeiro de 2019, equipamentos para introduzir o mecanismo em pacientes da rede pública de saúde do MS.

     “Acredito que ainda no primeiro semestre de 2019 já consigamos ter resultados da comunicação aplicada a pacientes que de fato estão em coma profundo ou em estado vegetativo. Os pacientes em coma tem a dignidade de se comunicar ou de ter suas últimas palavras. A realidade mostra que mesmo conscientes mas desacordadas, algumas pessoas não conseguiram se despedir dos familiares”, diz Borges. “É uma questão de humanidade”, conclui o cientista.

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