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    Reflexão


    Lições da primeira luta contra a febre amarela

    No Brasil Império, chegada de vírus mortal provocou negacionismo e crítica a quarentenas

    Ao longo do século XX, o combate à febre amarela impulsionou a pesquisa científica e o desenvolvimento de vacinas no Brasil | Foto: Divulgação

     Manaus (AM) - Uma das primeiras catástrofes envolvendo algum tipo de vírus no país, ocorreu entre o século XIX e XX, com o maior surto da febre amarela. Na virada de 1849 para 1850, a tranquilidade que o Brasil vivia sob o reinado de dom Pedro II foi abalada pela chegada de um vírus devastador. Velho conhecido no exterior, mas novidade no país, o vírus da febre amarela pegou o Governo imperial de surpresa e avançou sem piedade sobre as grandes cidades do litoral, deixando um rastro de pânico e morte.

    Ao longo do século XX, o combate à febre amarela impulsionou a pesquisa científica e o desenvolvimento de vacinas no Brasil e incluiu capítulos vitoriosos como a gradual eliminação da doença de áreas urbanas e a erradicação temporária do Aedes aegypti.

     

    A febre amarela é uma doença infecciosa causada por um vírus cujo reservatório natural são os primatas não-humanos que habitam as florestas tropicais
    A febre amarela é uma doença infecciosa causada por um vírus cujo reservatório natural são os primatas não-humanos que habitam as florestas tropicais | Foto: Divulgação

    Casos se repetem com a gripe espanhola e em 2020 com a pandemia de Covid-19, a sobrevivência com Febre Amarela e outras doenças  não foram o suficiente para preparar a população e o governo do país para outras pandemias, foi o que explicou o historiador Aguinaldo Figueiredo.

    “A doença já era antiga na região. Aprenderam pouco, houve ocasião que uma trupe de artistas de ópera francesa que estava em Manaus teve seis mortes de seus membros. Não aprendera,  porque em 1918, sofremos imensamente com a gripe espanhola e o pandemônio foi tão desastroso quanto esse da Covid”, comentou.

    Negação da doença

    Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado, em Brasília, mostram que, apesar da destruição que a Febre Amarela produzia a olhos vistos no Império, houve políticos que negaram a realidade e procuraram minimizar a gravidade da epidemia.

    Num discurso em abril de 1850, no Palácio Conde dos Arcos, a sede do Senado, no Rio de Janeiro, o senador e ex-ministro Bernardo Pereira de Vasconcellos (MG) garantiu que a doença não era assim tão perigosa e chegou a pôr em dúvida se seria mesmo a temida febre amarela.

    “Acredito que seja um erro que se repete. Todas as ações devem ter o apoio dos veículos de comunicação e da imprensa para esclarecimentos da população.”, afirmou o historiador Júlio Santos.

    O coronavírus chegou ao país em um momento em que pesquisas científicas eram postas em dúvida por governos e autoridades e quando investimentos no setor eram suspensos ou cortados.

    “Houve a onda do negacionismo atrelado a pouca instrução da população mais desprovida de recursos, que já era marginalizada. Fato é que a pobreza e a falta de acesso à educação ou o dificultar disso é plano, é projeto. A diferença é que não são propagadas por meio de livretos ou cartazes, mas por meio da internet e redes sociais”, comentou a historiadora Karla Cristina.

    Foi por causa dessa grande epidemia que o Brasil mudou um antigo costume. Em 1850, uma lei proibiu as sepulturas dentro e ao redor das igrejas e exigiu que os novos cemitérios fossem abertos longe do centro das cidades. A preocupação era evitar a infecção dos fiéis e dos vizinhos das igrejas.

    Até então, excetuando-se alguma aparição episódica nos tempos da Colônia, o Brasil era um país livre da febre amarela. O vírus chegou primeiro a Salvador, em setembro de 1849, a bordo de um navio de bandeira americana que fez escala em ilhas infectadas do Caribe.

    O combate à febre amarela

    Para colocar em prática a campanha sanitária de Oswaldo Cruz, que tinha como meta eliminar a febre amarela e também a peste bubônica, o Rio de Janeiro foi dividido em 10 distritos sanitários. Esses distritos seriam visitados por brigadas anti-mosquito e estariam sob olhares rigorosos das autoridades quanto à limpeza das ruas, sob o risco de pesadas multas. O doutor em história da ciência pela Fiocruz e professor do colégio Pedro II no Rio de Janeiro, Rodrigo Cesar Magalhães salienta que Oswaldo Cruz, à semelhança do que já havia ocorrido um tempo antes em Sorocaba com Emilio Ribas, estrutura sua campanha baseada na teoria do inseto-vetor. “Casas que fossem identificadas com foco do mosquito eram cobertas com uma lona gigantesca e injetavam-se gases com enxofre e píretro, utilizados durante muito tempo como inseticidas”. Os piretróides são derivados sintéticos de compostos isolados das flores das espécies Chrysanthemum cinerariaefolium e correlacionadas.

    A Fundação Rockefeller

    Criada em 1913 em Nova York, Estados Unidos, era uma organização filantrópica com uma divisão dedicada à saúde, chamada de Comissão de Saúde Internacional. Essa divisão tinha como objetivo desenvolver e implementar programas sanitários no mundo inteiro. Nos moldes de como foi implementada, assemelhava-se à Organização Mundial da Saúde hoje. Uma das primeiras campanhas internacionais, lançada em 1918, foi de combate à febre amarela. Com os conhecimentos de bacteriologia e os estudos de Finlay, preconizava combater o Aedes aegypti como algo essencial nas cidades.

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