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    Dia Mundial do Rock


    'Rock é sinônimo de revolução', afirma Renato Rocha do Detonautas

    Em comemoração ao Dia Mundial do Rock, o EM TEMPO entrevistou o guitarrista Renato Rocha. Ele falou sobre os 23 anos de carreira do Detonautas e sobre a revolução do Rock

    Banda Detonautas tem mais de 20 anos de estrada
    Banda Detonautas tem mais de 20 anos de estrada | Foto: Divulgação/Fabiano Santos

    Manaus – O rock é um estilo musical que está passando por diversas transformações ao longo dos anos e, para celebrar o Dia Mundial do Rock, comemorado nesta segunda-feira (13), o EM TEMPO entrevistou Renato Rocha, guitarrista da banda Detonautas que, há mais de duas décadas, representa o rock brasileiro. Confira a entrevista.

    EM TEMPO - Após 23 anos mantendo a tradição viva, como vocês veem a importância do gênero em áreas fora da música, com posicionamentos políticos e sociais?

    Renato Rocha - Rock sempre foi sinônimo de contestação, inquietude e revolução, mesmo agora, quando o gênero se encontra bastante careta e conservador. Mas a essência permanece e sobreviverá após essa onda retrógrada em vários países do globo terrestre. É de grande valia quando a arte espelha os anseios do povo, denuncia opressões e injustiças. Ao se elitizar o estilo, ele se afasta da maioria das pessoas e volta ao underground, mas basta uma garotada numa garagem qualquer escrever sobre sua realidade em cima de três acordes distorcidos que a onda volta, cada vez mais forte.

    ET - Como o Detonautas influenciou o rock nacional desde a formação inicial e como vocês olham o futuro do gênero no Brasil?

    RR - A gente segue os passos da geração 80, crescemos ouvindo aquela turma toda, e depois a geração 90, quando a gente chega em 1997 já abordando os temas recorrentes do nosso repertório. Tratamos de amor, de cotidiano, mas também de política e da desigualdade social que atravanca o nosso país, dentre outros assuntos. A semente que deixamos desde 2002 é essa, de que é possível viver de rock no Brasil, apesar de todos os percalços e obstáculos, e que é importante usar a nossa música para retratar as diversas facetas da nossa cultura, da nossa política, da nossa sociedade e seus tabus.

    "

    A arte, de uma forma geral, sempre foi um canal de disseminação de conteúdos políticos e sociais, e o rock and roll está obviamente inserido nesse contexto "

    Renato Rocha,

    Para o futuro imaginamos que o rock, se não souber se reinventar e afinar seu discurso e sonoridade novamente em sintonia com as massas, vai se manter no gueto, sem alcançar o mainstream, mas tudo pode acontecer e aparecer aquela garotada da garagem que citei na pergunta anterior e mudar tudo, mais uma vez. E que fique claro que não há regras quando se trata de rock, se tem alguma pessoa que se diz roqueira e que está "cagando regras", é porque não entendeu nada sobre a filosofia do gênero musical.

    Renato Rocha afirma que rock não tem regras
    Renato Rocha afirma que rock não tem regras | Foto: Divulgação/Fabiano Santos

    ET - Após duas décadas na estrada, qual o segredo da banda para se manter fiel à essência?

    RR - Fazer o que realmente acredita, em todos os sentidos. Compor e tocar o que realmente emociona e toca cada um de nós. Manter o respeito e a união entre nós e todos os que colaboram e trabalham para manter a banda na ativa. Manter a mente aberta a novidades, sonoridades, tecnologias e tudo mais que aparecer. Continuar com aquela gana de fazer acontecer, não perder jamais esse sentimento de querer realizar, de querer construir. 

    ET - Em relação à nova produção ‘’Fica Bem’’, como foi o trabalho no meio de uma pandemia? 

    RR - Produzimos esse single de forma totalmente remota, todos nós trabalhando em seus estúdios caseiros (uma das revoluções tecnológicas que nossa geração se beneficiou), e mandamos nossas partes para o produtor Marcelo Sussekind mixar. O processo em si foi bastante prazeroso, sem pressão alguma, já que cada um em sua casa pôde gravar e experimentar sem pressa. 

    ET - No aspecto pessoal, os integrantes da banda também passaram pelo sentimento de aflição que a música revela?

    RR - A pandemia afeta a todos nós sem exceção, o isolamento social é um exercício diário de força mental, precisamos nos manter positivos e produzindo, até mesmo para aliviar os sintomas desse isolamento. É um dia de cada vez e tudo bem se em um dia ou outro não se sentir muito bem, esse estresse emocional é uma das várias contas que todos nós estamos pagando nesses novos tempos. 

    Banda conseguiu produzir novo single durante a pandemia
    Banda conseguiu produzir novo single durante a pandemia | Foto: Divulgação/Fabiano Santos

    ET - Seguindo os ‘’dias incríveis que chegam depois’’, o que os fãs podem esperar do novo álbum e das músicas inéditas?

    RR - Já temos uma safra de canções novas praticamente prontas e a galera pode esperar um repertório bastante maduro em termos de letra, arranjos e sonoridades. Estamos tocando melhor do que nunca e em breve esperamos ter novidades sobre o que faremos com essas músicas todas. Estamos apenas aguardando um posicionamento mais claro da nossa gravadora para poder traçar os próximos passos. De qualquer forma já temos um novo single com data de lançamento para dia 31/07. Carta ao Futuro é o nome da música inédita e ela já foi apresentada ao público na live mais recente que fizemos, no dia 05/07. 

    ET - O vocalista Tico Santa Cruz citou, durante uma das passagens em Manaus, sobre o orgulho que ele tem dos fãs manauaras, um dos mais numerosos do Brasil. Qual a energia que vocês sentem em shows na capital amazonense?

    RR - Somos muito afortunados por ter fãs que nos apoiam e nos estimulam, em todas as partes do Brasil, dentre outros países. Manaus sempre nos recebeu calorosamente, desde o desembarque no aeroporto, com muitos sorrisos, carinhos, presentes e tudo mais, até o embarque no dia seguinte na saída da cidade! Na hora do show é sempre emocionante porque a entrega das pessoas é total. E como a banda se alimenta dessa troca de energia, o show acaba crescendo absurdamente e atinge picos de êxtase, a sensação é de catarse e de eletricidade máxima!

    ET - Quais são as melhores memórias da banda em Manaus?

    RR - Todos os shows sempre foram especiais em Manaus, os do anfiteatro em Ponta Negra, com os prédios ao redor piscando suas luzes junto com a galera presente com seus celulares. Mesmo usando fones de ouvido para retorno, sempre ouço as vozes cantando em uníssono num volume tão alto que arrepia mesmo. Me recordo do Gabriel, o Pensador, tocando conosco num desses shows e temos esse vídeo no nosso canal oficial do YouTube, energia incrível! Me lembro dos banhos de piscina nos hotéis, após os shows, no calor da noite manauara em pleno verão. Lembro das filas intermináveis das pessoas querendo falar conosco após as apresentações e sermos recebidos com muitos sorrisos… 

    ET - Um dos momentos que mais lançou a banda em novos cenários foi a participação de Chad Smith, o baterista do Red Hot Chili Peppers, na abertura de um show. Como foi essa oportunidade para vocês?

    RR - Estávamos abrindo a turnê do álbum By The Way, do Chili Peppers, em 2002 e estávamos tocando pela primeira vez na capital paulista, logo no estádio do Pacaembu, para 50 mil pessoas, quando de repente o Chad Smith invade o palco e começa a tocar percussão ao lado do DJ Cleston, num primeiro momento não sabíamos o que estava acontecendo, apenas ouvimos a multidão gritando enlouquecida e quando olhamos para trás lá estava ele em seus quase 2 metros de altura e pura simpatia fazendo um som conosco...  Depois do show pudemos trocar uma ideia com ele, com o Flea... já o Frusciante estava mais na dele e o Anthony bem mais blindado com sua comitiva particular, mas fomos muito bem recebidos pela banda e sua equipe. Clima bem parecido com nossa galera aqui do Rio de Janeiro. Talvez o clima da Califórnia tenha a ver com o nosso, praia, sol... 

    Renato Rocha relembra Manaus como um lugar cheio de energia
    Renato Rocha relembra Manaus como um lugar cheio de energia | Foto: Divulgação/Fabiano Santos

    ET - Durante toda a carreira da banda, as letras ou integrantes sofreram algum tipo de censura, interferências externas ou repreensão?

    RR - Nunca fomos censurados, sempre gravamos as músicas que quisemos e é claro que existe diálogo com as pessoas da gravadora, precisamos ouvir e aprender também com a experiência deles e juntos potencializar nossas músicas. Nas diversas cidades onde passamos na maioria das vezes somos muito bem recebidos, mas já aconteceu de recebermos avisos externos, que não era para tocar em assuntos mais delicados nos shows, política principalmente.

    O próprio Tico já recebeu bilhetinhos com ameaça de morte por baixo da porta do quarto de hotel, nesses tempos estranhos de polaridade política acirrada. Quando nos excedemos, recebemos sim algum retorno mais contundente do nosso empresário ou produtor, afinal, todos estão querendo o melhor para o Detonautas, e é natural em um momento ou outro a gente cometer um deslize, mas censura mesmo nunca houve. Já fomos bloqueados por certos veículos de mídia, como rádios, tvs, por conta da forte atuação, principalmente do Tico, nessa frente política, ao usar seu alcance para opinar sobre o assunto.

    Renato Rocha durante show da banda
    Renato Rocha durante show da banda | Foto: Divulgação

    Acaba sendo bem estranho imaginar que mesmo vivendo numa democracia, frágil que seja, uma banda seja boicotada por falar o que pensa, dentro dos limites éticos do nosso Estado Democrático de Direito. Não estamos falando de discursos de ódio e de fake news, etc... esses sim, precisam ser combatidos, porque não se enquadram no conceito de liberdade de expressão.

    ET - Além do novo álbum, quais os projetos que vocês estão trabalhando e qual a expectativa para os shows no pós-pandemia?

    RR - Como dito anteriormente, temos uma nova safra de canções que podem vir a se tornar um novo álbum em breve. Talvez um EP ou talvez lançamentos de singles espaçados, vamos ver com a nossa gravadora, Sony Music, qual a melhor estratégia para esse momento.

    E quando pudemos nos encontrar novamente com as pessoas ao vivo, nos palcos da vida, vai ser incrível sim, tocar novamente as músicas que nos fizeram alcançar esse reconhecimento nacional. Não vemos a hora de poder olhar nos olhos de quem nos acompanha e participa dos shows, bater um papo nos camarins, socializar novamente.

    Vivemos dessa energia, dessa troca e estar há mais de 100 dias sem fazer o que a gente ama já é a maior pausa que nós tivemos nesses 23 anos de banda e de 18 anos ininterruptos nas estradas! Vai ser demais! Mas, por hora, a gente precisa se manter vivo, com a cabeça em equilíbrio e produzindo. Se cuidem e fiquem bem!

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