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    Saúde em risco: carnes estragadas são comuns nas feiras

    O banheiro é próximo ao setor das carnes, agravando ainda mais a situação, propícia à propagação de bactérias - foto Márcio Melo
    O banheiro é próximo ao setor das carnes, agravando ainda mais a situação, propícia à propagação de bactérias - foto Márcio Melo

    Nas feiras, alimento e sujeira dividem espaços com os consumidores em uma imagem urbana comum. Na maior feira de Manaus, no Centro, a busca por alimento fresco e preços mais em conta é uma missão de risco. Se a procura for por carne, o consumidor encontra o produto fora dos padrões de higiene.

    Na feira da Manaus Moderna, as carnes são expostas em balcões ao ar livre, manuseadas de forma incorreta e sem refrigeração. O ambiente é favorável à contaminação por insetos como moscas e mosquitos. No local, o banheiro é próximo ao setor das carnes, agravando ainda mais a situação, propícia à propagação de bactérias.

    Os ratos também são presença constante na feira, ora aparecendo de forma furtiva pelas aberturas dos esgotos, ora saindo de uma lixeira com restos de alimentos expostos. Nada disso parece incomodar os feirantes, principalmente no setor de carnes, onde o alimento é manipulado em balcões inadequados para esse tipo de atividade.

    Esse cenário de perigo já era para ter mudado se fossem cumpridas as normas estabelecidas pelo Departamento de Vigilância Sanitária (DVisa), que determina a exposição de carnes apenas em câmaras frigoríficas e manipulação em balcão inoxidável. A falta de higiene, infelizmente, tem relação com os hábitos dos feirantes, um mau costume reconhecido pela Subsecretaria Municipal de Produção e Abastecimento (Subsempab).

    Antônio Coelho, 55, que trabalha como feirante há mais de 15 anos, explicou que o freguês faz questão de tocar no produto para conferir a qualidade.

    “Se colocar a carne no freezer não vende. O cliente vem à feira em busca de carne fresquinha, ele quer pegar, cheirar, conferir o produto”, disse, garantindo que a carne vendida em sua banca possui nota fiscal e que todos os dias ele limpa os maquinários, utensílios e não vende carne ‘velha’. Coelho garantiu que quando percebe que a carne está enegrecida, passa adiante ou doa para os pedintes que circulam na feira. No ato de boa ação, os mendigos ficam por sua conta e risco.

    E por que não usa luvas de proteção? Coelho justifica. “O equipamento atrapalha no atendimento”. Para compensar, diz que todos os dias usa roupas brancas e limpas e que faz as unhas e corta os cabelos com frequência para manter a higiene em dia.

    Outro feirante, que preferiu não se identificar, tem a mesma opinião do seu colega. Para ele, se padronizar a feira, o movimento cai. “O cliente gosta de vir à feira para escolher o produto, quer pegar para ter certeza da qualidade”, disse.

    Risco

    A ingestão de alimentos sem cozimento ou que tenham tido manuseio ou conservação impróprios provoca infecções graves. Em geral, vômitos, dores abdominais, febre e diarreia são sintomas de intoxicação alimentar, segundo o médico Geraldo Majela.

    O especialista alerta que a desidratação pode levar à morte, caso não procure imediatamente um hospital. Ele frisou ainda, que a boa qualidade dos alimentos levados à mesa é uma das condições essenciais para prevenir a intoxicação alimentar e que é responsabilidade do cliente fiscalizar e denunciar, quando perceber irregularidades.

    “É importante que os consumidores não comprem alimentos sem refrigeração, principalmente carne, pois microrganismos adquiridos nesses alimentos podem gerar sérios riscos ao aparelho gastrointestinal”, informou.

    Preço x qualidade

    A dona de casa Ester Lima da Conceição, 52, disse que costuma comprar carne em feira devido o preço ser mais em conta. Segundo ela, costuma chegar cedo na feira para levar o produto ‘fresquinho’ e que a carne da feira é superior à comercializada em açougue.

    “No açougue não tem a mesma carne não. Aqui na feira a gente pode escolher a carne que vai comprar, é mais barata e é novinha. Só não pode mudar de banca. Tem feirante que engana no peso, mas se a gente compra sempre com o mesmo feirante, vira amigo e ele não trapaceia, até coloca um ossinho para temperar o feijão e cativar o freguês”, disse Ester.

    José Ferreira, 58, que também madruga na feira, considera o melhor lugar para fazer as compras da semana porque encontra preços, qualidade e diversidade atraentes. Adverte, porém, que devido à exposição por muito tempo as carnes perdem a coloração e os insetos pousam, contaminando todo o produto.

    Ao contrário de Ester e José, a dona de casa Mariza de Lourdes, 47, prefere chegar mais tarde à feira, por volta das 11h. Nesse horário, segundo ela, o preço fica mais baixo. “O bom é depois do horário de movimentação. O feirante quer acabar logo para fechar a banca ao meio-dia, aí aproveita para fazer promoção. Levo bastante mercadoria por um preço que vale a pena”, disse, como que revelando uma espécie de segredo para comprar mais com menos dinheiro na feira. Sobre a exposição de carnes nos balcões, disse não se importar. “Após o cozimento a carne fica boa”, disse.

    Fiscalização

    Em nota, a SubSempab informou que as carnes ficam nos balcões porque não oferecem risco à saúde do consumidor. Conforme o órgão, dois fiscais se revezam na inspeção dos boxes para garantir a qualidade dos produtos oferecidos. A secretaria informou ainda que a comissão gestora da feira faz o monitoramento diário dos permissionários.

    Segundo a secretaria, ao meio-dia, momento em que o movimento diminui, os feirantes acondicionam as carnes, vísceras e peixes em freezers e que “a exposição dos produtos é uma forma de chamar atenção do consumidor e ao mesmo tempo mostrar a qualidade”.

    De acordo com órgão, a limpeza das feiras é feita em parceria com a Secretaria de Limpeza Pública, que disponibiliza carros-pipas para lavar as feiras após suas atividades”.

    A nota da prefeitura ainda assevera que cabe ao administrador da feira verificar junto aos permissionários se algo está incorreto, orientar os feirantes e conferir todos os procedimentos visando ao melhor para o cliente consumidor dos produtos oferecidos em cada boxe. Informou ainda, que periodicamente são oferecidos cursos de capacitação aos feirantes por meio de parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

    Jornal EM TEMPO

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