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    DIA DO TRABALHO


    Entre lutas e direitos: por que 1 de maio é o Dia do Trabalhador?

    Por trás de uma data, há sempre uma história. Saiba como os trabalhadores conseguiram, com muita luta, conquistar direitos como a carga horária de 8h

    | Foto: Tarsila do Amaral

    Manaus - "O que você vai querer ser quando crescer"? A frase que costuma ser perguntada para as crianças reflete a cultura do trabalho em boa parte dos  países do mundo. Mas se hoje ter um emprego com direitos assegurados é algo mais palpável em muitas nações, num passado não distante, isso não era assim. Foi preciso que trabalhadores se organizassem e lutassem ao longo da história. Um desses exemplos aconteceu no dia 1 de maio, motivo pelo qual a data é conhecida hoje como Dia do Trabalhador.

    Mas antes de avançar para uma das principais greves de trabalhadores da história, é preciso entender em quais condições eles viviam. Isso porque, foram elas que fizeram com que os operários se manifestassem contra a falta de direitos e a extrema exploração da época.

    Quem traz os registros é o professor de História do Trabalho, César Augusto Queirós. Ele ministra aulas sobre o tema na Universidade Federal do Amazonas e aponta, para esta reportagem, algumas das condições impostas aos trabalhadores do século XIX (1801 a 1900).

    César é professor de História do Trabalho na Universidade Federal do Amazonas
    César é professor de História do Trabalho na Universidade Federal do Amazonas | Foto: Reprodução

    "As jornadas de trabalho chegavam a 13h ou até mesmo 17h diárias. Como se isso não fosse exploração o suficiente, ainda havia muita insalubridade nos ambientes de trabalho. Isso fazia com que os operários ficassem suscetíveis a diversas doenças, como varíola, sarampo, escarlatina e coqueluche", comenta o historiador.

    Ele diz à época a taxa de mortalidade era alta, e dá exemplos. Entre cerca de 1801 e 1830, a expectativa de vida de um trabalhador de fábrica ou mina de carvão era de 33 anos. 

    Trabalhadores nas fábricas, no século XIX. Local desconhecido
    Trabalhadores nas fábricas, no século XIX. Local desconhecido | Foto: Arquivo Em Tempo

    "As violências, físicas e morais, dos patrões e contramestres sobre os empregados eram frequentes, uma vez que não havia a quem recorrer e os trabalhadores ficavam à mercê da boa vontade dos patrões, em uma situação de total vulnerabilidade", afirma César.

    Ele diz que não havia sequer regulamentação das relações entre capital e trabalho. Logo, as negociações entre patrão e empregado eram assimétricas, ou seja, pendiam a favor do empregador.

    Além disso, até mesmo crianças entravam na exploração. O professor conta que era comum os pequenos com idade entre seis e oito anos nas fábricas e minas de carvão. Isso fazia com que a mortalidade infantil também fosse elevada. 

    O dia da luta

    A história já é conhecida e difundida há anos pelos livros de história das escolas. No dia 1 de maio de 1886, trabalhadores dos Estados Unidos realizaram uma grande manifestação em diversas cidades. A reivindicação era simples, mas essencial para eles. Que a carga horária fosse reduzida de cerca de 16h para 8h por dia. 

    César acrescenta mais informações a essa história. A primeira delas é que o pedido de redução da carga horária já vinha desde o século XIX e que não era uma novidade. 

    "Até mesmo a manifestação do dia 1 de maio havia sido planejada anos antes. Foi no IV Congresso da Federação de Agrupamentos do Comércio e Uniões de Trabalhadores dos Estados Unidos, ocorrido em outubro de 1884, que decidiram pela greve geral de 1886", afirma o historiador.

    Revolta de Haymarket, em 1886, nos Estados Unidos
    Revolta de Haymarket, em 1886, nos Estados Unidos | Foto: Desconhecido

    Ele conta que a manifestação mobilizou milhares de trabalhadores e paralisou diversas cidades nos Estados Unidos. A greve teve um desfecho violento com a explosão de uma bomba e a forte repressão da polícia e à prisão de inúmeros trabalhadores.

    "Cinco líderes grevistas foram julgados e condenados à morte. A partir daí essa data se tornou um símbolo da luta pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras do mundo, um dia de reflexão", comenta o professor.

    César aproveita para citar o poeta alemão Bertolt Brecht, que dentre seus escritos, refletiu sobre a vida dos trabalhadores. 'Perguntas de um trabalhado que lê' é um deles. Confira o trecho citado pelo historiador:

    “Quem construiu Tebas, a cidade das sete portas? Nos livros estão nomes de reis; Os reis carregaram as pedras?”

    O poema, como demonstram as palavras, questiona quem deveria ser o responsável pelo mérito de erguer uma construção. O rei que mandou fazer ou o trabalhador que carregou as pedras. 

    A luta pelos direitos no Brasil

    Quando se olha para a história do trabalho no Brasil, um dos principais momentos a serem lembrados pode ser a criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), no dia 1 de maio de 1943, pelo presidente Getúlio Vargas. A carta garantia muitos direitos aos trabalhadores, como o conhecido Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), o pagamento de horas extras, o período de descanso, entre outros.

    Homenagem de trabalhadores ao presidente Getúlio Vargas, em 1930
    Homenagem de trabalhadores ao presidente Getúlio Vargas, em 1930 | Foto: Arquivo Em Tempo

    Mas antes mesmo dessa nova legislação, César conta que já havia muitos movimentos de proletários pelo Brasil, os quais já faziam barulho para pedir mais direitos trabalhistas.

    "A luta dos trabalhadores brasileiros por direitos e melhores condições de trabalho é constante em nossa história e podemos tomar como referência o processo de organização dos trabalhadores urbanos em associações, sindicatos e partidos políticos no final do século XIX, quando os trabalhadores passam a emergir definitivamente no cenário político brasileiro", comenta o historiador.

    Ele diz que a partir do final do século XIX, essas associações passaram a conversar com patrões para garantir mais direitos, como as oito horas de trabalho. Quando não havia diálogo, os proletários faziam greves e assim iam garantindo novas conquistas e melhores condições de trabalho.

    "Talvez o momento mais marcante e representativo desse processo de lutas operárias tenha sido durante as greves gerais que ocorreram em diversas cidades brasileiras ao longo do ano de 1917. Nesse ano, a classe trabalhadora organizada tomou a cena política em defesa da jornada de oito horas de trabalho e de melhores condições de trabalho e deflagrou greves em diversas cidades brasileiras como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife,  o que se seguiu nos anos seguintes", afirma o historiador.

    Ele finaliza com uma citação sobre o Amazonas da época. O professor lembra que no mesmo período, muitas categorias profissionais também fizeram greve no Estado, o que virou até mesmo estudo por parte da professora Maria Luíza Ugarte, em seu livro 'Cidade Sobre os Ombros'.

    A luta hoje

    Passados mais de 100 anos das primeiras grandes manifestações a favor dos direitos dos trabalhadores, ainda hoje essa é a uma batalha em curso. Um exemplo são os elogios, mas também muitas críticas à Reforma Trabalhista ocorrida no Brasil, em 2017, ainda no governo Michel Temer. As alterações da Reforma mexeram em pontos como férias, jornada de trabalho, remuneração e plano de carreira.

    Além disso, em 2020, uma das grandes preocupações mundiais é com uma possível alta no número de desempregados durante a pandemia de coronavírus, devido ao isolamento social para evitar mais casos. 

    "Esse feriado do dia 1 de maio, Dia do Trabalhador, será diferente. Não vai haver manifestações públicas, como de costume, por conta da suspensão de manifestações por parte dos sindicatos. O motivo é o distanciamento social na pandemia de coronavírus", comenta o deputado federal José Ricardo (PT).

    José Ricardo, deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores
    José Ricardo, deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores | Foto: Valmir Lima

    Apesar de não haver greves, o político lembra que a "luta não pode parar" durante a crise de coronavírus, já que, segundo ele aponta, "já houve muitas demissões em setores como comércio, serviços e indústria".

    "Já temos o auxílio emergencial para os trabalhadores informais, mas o valor ainda é baixo. A minha versão do projeto sugeria o pagamento de um salário mínimo. Além disso, muitos desses trabalhadores sequer tiveram acesso ao benefício, que já vai para o pagamento da segunda parcela", diz o deputado.

    Ele tece críticas ao governo federal em medidas de 2020, como a "aprovação da Reforma da Previdência, que retirou um trilhão de reais dos mais pobres e que vão se aposentar com menor valor e ter que trabalhar muito mais", afirma Zé Ricardo.

    "Os trabalhadores vêm sofrendo ataques há anos pelos governo federal"
    "Os trabalhadores vêm sofrendo ataques há anos pelos governo federal" | Foto: Divulgação

    O deputado aponta também a Medida Provisória 905 (carteira verde e amarela), que , segundo ele, reduzia direitos dos jovens ao iniciaram com um primeiro emprego. A medida caducou no senado. 

    "Todas essas reformas do governo federal, desde 2017, dizem que é para gerar mais empregos, mas o que vemos é o contrário. São apenas retiradas de direitos que resultam em mais desemprego e sofrimento para os trabalhadores", afirma José Ricardo.

    Já o deputado Federal Marcelo Ramos (PL) aproveita o momento para homenagear os trabalhadores durante a data.

    "Em um primeiro de maio tão diferente, trabalhadores muito especiais revelam, de forma incansável - heroica até - a diferença que fazem no mundo. Encontrando forças quando elas já esgotaram. Achando sempre motivos para continuar. Lutando. Salvando. Se expondo", comenta ele.

    Marcelo Ramos, deputado federal (PL)
    Marcelo Ramos, deputado federal (PL) | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

    E cita um agradecimento aos profissionais das áreas da saúde, limpeza, transporte, segurança, comércio e comunicadores. "Obrigado por nos ensinar que nunca é tempo de desistir. A esses trabalhadores, um agradecimento do tamanho da Amazônia", finaliza o deputado.

    "A luta deve continuar"

    A fala é do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos do Estado do Amazonas (Sindmetal). Valdemir Santana diz que muitos proletariados sabem pouco sobre o real significado do dia 1 de maio para os trabalhadores.

    "Levam hoje como se fosse apenas um feriado, mas essa data marca uma constante luta por direitos que muitas vezes foram difíceis de conquistar. Como se não bastasse, ainda hoje, há quem queira tirar nossas conquistas", diz ele.

    Valdemir finaliza com uma fala que compara o Brasil em 2020 com a realidade de séculos atrás. "Nosso país está numa situação de século XIX ,na época da Revolução Industrial, em que a luta tem que continuar porque não está fácil. O desemprego no Amazonas já está em 700 mil pessoas. No Brasil, 12,9 milhões", afirma o presidente do Sindmetal.

    Presidentes de sindicatos do Polo Industrial de Manaus falam sobre a importância da data
    Presidentes de sindicatos do Polo Industrial de Manaus falam sobre a importância da data | Foto: Arquivo Em Tempo

    Já Francisco Brito, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Material Plástico do Amazonas (Sindplast), diz que o momento é de comemoração, mas de um jeito diferente. 

    "Durante esta pandemia, não temos o que comemorar, dada a ampla perda de direitos por parte dos trabalhadores durante a crise causada pelo coronavírus. O que temos visto, enquanto categoria, é uma tentativa de grandes empresários de retirarem direitos com a desculpa da crise", comenta ele.

    Francisco concedeu a entrevista na quinta-feira (29), após receber 50 funcionários do setor de materiais plásticos do Polo Industrial de Manaus (PIM). Eles haviam sido demitidos no mesmo dia e passaram, um a um, para assinar a rescisão com a empresa.

    "Ainda temos outros trabalhadores com contrato suspenso, sob ameaça de demissão. Tudo o que posso pedir é que, para os que puderem, fiquem em casa. O Dia do Trabalhador é uma data para se comemorar, mas sob essas circunstâncias, prefira comemorar em casa. E quando passar essa crise, que voltemos para a rua na busca pelos nossos direitos, que é constante", finaliza o presidente do Sindplast.

    *Conteúdo produzido pela equipe do www.emtempo.com.br, o maior portal de conteúdo do Amazonas.

    Veja os vídeos produzidos pela WEB TV EM TEMPO:

    | Autor: Tatiana Sobreira/ WEB TV Em Tempo
     
    | Autor: Tatiana Sobreira/ WEB TV Em Tempo
     
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