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    Decisão


    Em Manaus, mulheres que não querem ser mães comentam decisão

    O desejo a não maternidade é uma tendência crescente no mundo todo, porém, mulheres ainda enfrentam preconceito e barreiras pela decisão que tomaram

    Para outras, o desejo de liberdade e a falta do famoso 'instinto maternal' levaram a decisão de não engravidar | Foto: Divulgação

    Manaus - Desde pequenas muitas mulheres sonham em casar, ter uma família com vários filhos e netos. Ser mãe, dizem os mais velhos, é a maior dádiva na vida de uma mulher. Porém, esse conceito tem mudado nos últimos tempos. Mulheres têm desistido da maternidade por razões variadas: desde o foco em uma carreira profissional, até a preocupação com superlotação do planeta. Há ainda aquelas que defendem a falta do  "instinto maternal".

    Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2016, mostrou que o Brasil marcou queda em -5,1% em nascimentos, relacionado aos números do ano de 2015. Esta foi a primeira queda registrada desde 2010. Diferente do que os mais velhos dizem, a realizadora audiovisual Michelle Andrews, de 33 anos, diz que: "nem toda mulher nasce para ser mãe". Ela decidiu, aos 17 anos, que não ia ter filhos.

    “Nunca tive muita afinidade para criar crianças, não me vejo na condição de criar um filho”, afirmou.

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    A decisão de focar na carreira profissional só fortaleceu a ideia de Michelle sobre a maternidade. “Passei por todas as etapas de brincar de boneca, cuidar de ‘casinha’ quando era pequena, porém, nos meus planos de estudar e fazer uma carreira profissional, nunca coube uma criança. Isso não é para mim”, conta. 

    Algumas optaram por focar na carreira profissional, o que exige tempo e dedicação, nao condizentes com a maternidade
    Algumas optaram por focar na carreira profissional, o que exige tempo e dedicação, nao condizentes com a maternidade | Foto: Divulgação


    A opinião de Michelle ainda surpreende algumas pessoas, mas não é tão diferente assim do que defende quase a metade das mulheres em idade reprodutiva no país. A Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios, do IBGE, mostra que 4, em cada 10 brasileiras,  não têm filhos. Esse é o maior índice desde 2004.

    O Censo aponta que as mulheres com mais instrução (mais de 7 anos de estudo) estão sendo mães mais tarde, depois dos 30 anos. A média de filhos por mulher também diminuiu drasticamente, de 6,1 para 1,9 nos últimos 50 anos.

    Por causa da opção que fizeram, essas mulheres são tachadas muitas vezes de egoístas e enfrentam, com frequência, preconceitos sobre os motivos que as levaram a abrir mão de incluir uma criança em seus planos de vida.

    “Ouço muitas pessoas dizendo ‘ai mana, você vai ficar sozinha, não vai ter ninguém para cuidar de ti’, como se um filho fosse garantia de cuidados na velhice” afirma Michelle. “Parece que essas pessoas nunca ouviram histórias de filhos que abandonaram os pais na velhice”, diz. 

    Sheron disse há dificuldade em encontrar um parceiro ideal para criar um filho, por isso, muitas mulheres como ela optam por não engravidar
    Sheron disse há dificuldade em encontrar um parceiro ideal para criar um filho, por isso, muitas mulheres como ela optam por não engravidar | Foto: Janailton Falcão


    Assim como Michelle, a estudante Sheron Gomes, de 23 anos enfrenta pressão familiar pela escolha que fez. “Meus pais não aceitam a decisão, dizem que uma hora meu instinto irá pedir uma cria”, conta. Para Sheron, o motivo principal que definiu sua escolha foi a situação caótica em que se encontra o mundo. “Sou cristã e observo que o mundo está cada dia pior e isso está na Bíblia”, afirma. 

    Sheron comenta que, como protestante, conversa com Deus sobre a decisão de não ter filhos. “Falo com ele sobre as vontades dele sobre a minha vida, mas também exponho os meus desejos sobre isso”, diz. Outro ponto levantado pela estudante é a dificuldade em achar um parceiro ideal, que crie uma zona de segurança para iniciar uma família. “As pessoas hoje estão focadas em relações sem compromisso e isso não me dá estabilidade emocional para pensar em ter filhos”, afirma. 

    A publicitária Isabely Pinto, de 22 anos, concorda com Sheron. Para ela, colocar mais uma criança em um mundo já superlotado e cheio de mazelas é uma covardia. “Vivemos com  menos qualidade de vida aqui na terra, cercados de violência e problemas sociais. Seria errado trazer mais uma criança para esse mundo”, afirma. 

    Em todo o Brasil, o número de mulheres que não querem ser mães aumenta
    Em todo o Brasil, o número de mulheres que não querem ser mães aumenta | Foto: Reprodução


    Ela conta que já pensou em ter filhos, mas o nascimento da irmã mais nova, que agora tem três anos, foi decisivo para que tomasse a decisão. “Quando minha irmã menor nasceu pude acompanhar de perto o quanto a maternidade exige de uma mulher. Então, eu decidi que não quero isso para mim”, afirma. 

    Pela decisão, a jovem enfrenta vários preconceitos disfarçados de piadas. “Já me disseram várias vezes que vou morrer velha e sozinha em algum asilo”, conta. Uma das técnicas que desenvolveu para escapar dessas situações constrangedoras é simplesmente mentir e dizer que não pode ter filhos. “Às vezes, é mais fácil encerrar logo esse assunto do que tentar explicar a opção de não ser mãe para os seus familiares ou amigos”, diz. 

    O preconceito pode arruinar relacionamentos, segundo Isabely. Estar com um parceiro que não respeita a decisão da mulher em não ser mãe, pode ser bastante cansativo.

    “Tive um namorado que vivia fazendo planos para ter filhos, apesar de eu ter dito várias vezes que não queria. Me sentia desconfortável com o assunto e, mesmo que eu dissesse ser contra a maternidade, ele insistia que eu iria mudar de ideia”, fala. 

    Para o professor e sociólogo Francinézio Amaral, existem alguns pontos que fortaleceram, com o passar do tempo, a decisão das mulheres de não ter filhos.

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    O primeiro ponto é a dedicação exigida pelo modelo de produção capitalista. Esse desejo de ascender socialmente acaba fazendo com que a mulher retarde cada vez mais a maternidade "

    Francinézio Amaral, sociólogo


    Amaral salienta que aliada à lógica capitalista, as mulheres buscam valorizar seu papel social dentro do mercado de trabalho. Por último, o sociólogo aponta que o mundo parece um local cada vez menos atrativo para o exercício da maternidade.

    “A presença de dificuldades como violência e desemprego desencorajam uma mulher a ter filhos”, afirma. 

    Edição: Bruna Souza

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