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    Obesidade


    Obesidade cresce entre os manauaras e acende alerta

    Manaus é a capital da obesidade no país e esta é uma doença que afeta a vida de muitas pessoas

    A obesidade pode ter várias causas | Foto: Márcio Melo

    Manaus – Manaus é a capital com o maior índice de pessoas com obesidade no Brasil, com um percentual de 23,8% de obesos. Os dados são da recente pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), divulgada pelo Ministério da Saúde, no dia 18 de junho deste ano.

    Caracterizada pelo acúmulo de gordura no organismo, a obesidade é uma doença que afeta a vida de muitas pessoas no Brasil e no mundo. Muito além de hábitos alimentares, a obesidade pode ser proveniente de outros fatores. Segundo a nutricionista Renata Zacarias, a obesidade pode ter várias causas.

    “Podem ser fatores genéticos, maus hábitos alimentares, distúrbios emocionais, distúrbios patológicos, até mesmo medicação e disfunções endócrinas”, afirmou a especialista.

    Portanto, é importante lembrar que a obesidade é uma doença e deve ser tratada como tal. É preciso desprender-se da ideia de que a pessoa obesa “não emagrece por que não quer”, pois existem vários fatores envolvidos no processo de tratamento da doença e quem luta contra a obesidade precisa receber apoio e não julgamento.

    Quem sofre com a obesidade, precisa de ajuda como explica o psicólogo Hudson Rockefeller. “A pessoa obesa precisa ser apoiada pela família, amigos e buscar ajuda profissional”, pontuou.

    A obesidade também pode causar diabetes, doenças cardíacas, colesterol alto e dores na coluna
    A obesidade também pode causar diabetes, doenças cardíacas, colesterol alto e dores na coluna | Foto: Márcio Melo


    O psicólogo Hudson Rockefeller destaca que quem tem obesidade, geralmente, reclama das complicações físicas provenientes da doença, como pressão arterial alta, dores na coluna, dores nos joelhos, cansaço e limitações físicas.

    A obesidade também pode causar diabetes, doenças cardíacas, colesterol alto, dores na coluna, infecções dermatológicas, câncer, apneia do sono, entre outras doenças.

    Além das limitações físicas, pessoas com obesidade sofrem outros tipos de inconveniências. A reportagem do Em Tempo conversou com especialistas e manauaras que lutam contra a obesidade e pontuou as principais dificuldades relacionadas à doença. 

    Psicológico abalado

    Muito além do aspecto físico, a obesidade também afeta profundamente o psicológico das pessoas que lutam com a condição.

    “Pode afetar o psicológico de várias formas, mas as mais comuns são baixa autoestima, ansiedade, agitação psicológica e até sintomas depressivos. Além disso, também há o preconceito”, afirmou Rockefeller.

    Encontrar roupas no tamanho Plus Size é um dos dilemas para quem está acima do peso
    Encontrar roupas no tamanho Plus Size é um dos dilemas para quem está acima do peso | Foto: Márcio Melo



    O especialista também afirmou que a maioria dos pacientes estão cansados de lutar contra a obesidade, pois fazem dieta e atividades físicas e, na maioria das vezes, não emagrecem. Alguns até diminuem alguns quilos, mas voltam a ganhar peso.

    Compulsão alimentar

    Comer sem sentir fome é a forma mais prática de explicar a compulsão alimentar. Causada pela ansiedade ou outros fatores, a compulsão alimentar acomete a maioria das pessoas obesas e é um comportamento que tem início na infância ou adolescência.

    “Muitos não têm noção sobre o volume de comida que consomem e nem o tipo de alimento que estão escolhendo. A pessoa precisa comer para ficar satisfeita e não para encher barriga. É importante prestar atenção na diferença”, pontuou Renata Zacarias.

    Comer sem sentir fome é a forma mais prática de explicar a compulsão alimentar
    Comer sem sentir fome é a forma mais prática de explicar a compulsão alimentar | Foto: MMelo


    Fatores psicológicos podem desencadear a compulsão

    Vencer a compulsão alimentar foi um grande desafio para o gerente de logística João Vitor Braga, de 20 anos. Ele explica que começou a ter problemas com a obesidade aos 11 anos de idade, após o divórcio dos pais.

    “Com a separação dos meus pais, eu tive uma mudança de rotina e eu passei a comer cada vez mais. Eu tentava preencher o espaço da minha tristeza comendo”, disse.

    Segundo o psicólogo Rockefeller, transtorno de compulsão alimentar (TCA) é um distúrbio em que um indivíduo come grandes quantidades de alimentos (normalmente de forma rápida), enquanto experimenta uma perda de controle e sentimentos de vergonha ou culpa após o consumo.

    “Transtorno de compulsão alimentar é o distúrbio alimentar mais comum e afetando 5% da população. Embora algumas pessoas que têm TCA são obesas, alguns indivíduos estão presentes dentro de uma faixa de peso normal, tornando mais difícil de diagnosticar”, afirmou o psicólogo.

    O Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5ª edição (DSM-5) identifica o Transtorno de compulsão alimentar como um transtorno diagnosticável, com critérios como: comer quantidades grandes de alimento dentro de um curto período de tempo, exibindo uma perda de controle.

    Andrea Nascimento fez bariátrica e diz que já sofreu preconceito ao tentar comprar roupas no Centro de Manaus
    Andrea Nascimento fez bariátrica e diz que já sofreu preconceito ao tentar comprar roupas no Centro de Manaus | Foto: Marcely Gomes


    O especialista identifica alguns sintomas que classificam o TCA:

    - comer rápido,

    - comer até ficar muito cheio ou experimentar desconforto,

    - comer grandes quantidades de alimentos quando não há fome real,

    - comer secretamente para que outros não saibam da extensão da alimentação,

    - sentimentos de nojo/culpa/vergonha depois

    Tratamento

    Transtorno de compulsão alimentar é tratável com terapia, juntamente com o uso de medicação – sendo que esses são os tipos mais comuns de tratamento.

    Preconceito

    Além de todos os problemas enfrentados diariamente por quem sofre com a obesidade, o preconceito é um dos que mais afetam essas pessoas. Julgamento, olhares, comentários e opiniões indesejadas, ainda são práticas corriqueiras.

    Por mais que vivamos na era da informação, muitas pessoas continuam (sem qualquer motivo racional) associando obesos à uma imagem negativa.

    “As pessoas te olham diferente. Nem todo mundo está disposto a encarar uma pessoa acima do peso. Por mais que sejamos todos iguais, as pessoas te olham diferente só pelo fato de você ter problema com a obesidade”, afirmou João Vitor Braga.

    Preconceito no olhar e nas palavras de uma vendedora dentro da loja de roupas foi um constrangimento vivido duas vezes pela administradora Andrea Nascimento, de 36 anos. 

    “Aconteceu em uma loja no Centro e em um shopping de Manaus. Nem cheguei a perguntar e a vendedora se aproximou e falou que ela não teria como me atender porque não tinha roupas que coubessem em mim. O olhar penetrante e a voz irônica me marcaram. Respondi que era para presente, mas na verdade eu saí da loja arrasada. Chorei muito e fui para casa refletindo que isso não poderia mais acontecer”, disse.

    Bullying na escola

    Conviver com a obesidade na fase escolar não foi fácil para a designer Ana Franco, de 26 anos. Ela conta que na adolescência sofreu muito preconceito e recebia apelidos pejorativos só pelo fato de ser obesa.

    “Sofri muito com preconceito na infância e na adolescência. Quando eu era criança, eu sempre era a excluída da turma. Não tinha muitos amigos e sempre tinha que ouvir apelidos pejorativos na escola. Na adolescência foi uma das piores fases, pois alguns colegas me apelidavam e sempre faziam chacotas”, relembra.

    Preconceito dentro do transporte coletivo é uma lembrança viva na memória do designer Adriano Dias, de 29 anos.

    “Já escutei todo tipo de ofensa dentro do ônibus lotado”, disse. O preconceito também fez parte da vida escolar do designer. “Na escola, o preconceito também foi grande, além dos estereótipos comuns de não ser escolhido em certas atividades, por ser gordo”, pontuou.

    Falta de acessibilidade 

    Uma das principais dificuldades encontradas pelas pessoas entrevistadas pela reportagem do Em Tempo, é a falta de acessibilidade para pessoas obesas em Manaus. 

    Para quem sofre com sobrepeso, uma simples cadeira de tamanho comum torna-se um obstáculo. Não é comum encontrar assentos adequados para pessoas acima do peso e isso acaba sendo um problema rotineiro. 

    “Às vezes o lugar até tem uma cadeira mais resistente (de ferro ou madeira), mas os braços delas apertam meu quadril e eu fico muito desconfortável. No avião também sofro com o mesmo projeto, já que as cadeiras são sempre muito estreitas. A viagem se torna bastante desconfortável. É uma sensação horrível você ter que se limitar de ir aos lugares por causa de uma cadeira”, afirmou a designer Ana Franco.

    “Manaus infelizmente não tem estrutura para pessoas com obesidade. Nos ônibus, os obesos não têm prioridade. O cinema não tem poltronas exclusivas, inclusive as bikes nas academias causam total desconforto”, pontuou a administradora Andrea Nascimento. 

    A mesma consideração foi feita pelo designer Adriano Dias. Ele disse à reportagem que os empreendimentos da capital amazonense, apesar de ser a cidade mais obesa do país, não está preparada para atender o público.

    “Não há espaço para obeso na cidade e nem para qualquer outra pessoa com necessidade especial. Somente algumas empresas privadas oferecem poltronas para pessoas obesas. Entretanto, ao sair para o espaço comum, como no caso dos ônibus, calçadas e lugares públicos, vemos que não há acessibilidade para quem está acima do peso”, disse o designer Adriano Dias.

    O terror para comprar roupas

    Encontrar roupas do tamanho adequado é uma dificuldade relatada por muitas pessoas obesas. Nem todas as lojas trabalham com vestuário na linha "Plus Size", termo criado nos Estados Unidos para roupas de tamanho acima do convencional.

    Apesar de algumas lojas em Manaus já trabalharem especificamente com esta linha, os clientes reclamam que não há variedade de modelos. Ana Franco conta que enfrenta uma batalha quando precisa comprar roupas em Manaus. 

    "Já passei por muita dificuldade com a questão das roupas. A maioria das lojas não trabalha com os tamanhos grandes. As que fazem, trabalham somente com peças selecionadas. Eu tinha que procurar até encontrar uma que eu gostasse e me servisse. Às vezes, eu nem gostava, mas comprava só porque estava precisando e era o que tinha na loja", disse a designer.

    Ela também relatou a dificuldade na busca pelo vestido de noiva ideal. Ana precisou buscar formas para contornar o desafio e se sentir linda no dia especial. 

    Mudança de comportamento

    Segundo a nutricionista Renata Zacarias, a maior dificuldade de quem quer emagrecer é conseguir “reconfigurar” o comportamento e os vícios da alimentação.

    “Acho que o mais difícil é a mudança de comportamento, as escolhas alimentares e o desapego aos desejos. Muitas das vezes, eu falo para os pacientes diminuírem ou cortarem o açúcar. Quem disse que café sem açúcar é ruim? Você é que foi adaptado a acreditar que café só é bom adoçado. É difícil substituir alimentos calóricos por alimentos saudáveis por causa desse tipo de pensamento”, pontuou.

    Cirurgia bariátrica

    Quando a pessoa com obesidade já recorreu a todos os esforços possíveis para perder peso, porém não obteve sucesso, uma das opções mais radicais é a cirurgia bariátrica. O procedimento, também conhecido como redução do estômago ou gastroplastia, consiste em uma intervenção cirúrgica que tem como finalidade reduzir o peso de pessoas com o Índice de Massa Corporal (IMC) muito acima dos níveis recomendados.

    Para realizar a cirurgia bariátrica, o paciente passa por um longo processo com uma equipe multidisciplinar composta por cirurgião, nutricionista, endocrinologista, psicólogo, educador físico e fisioterapeuta.

    Todos esses profissionais contribuem para que o paciente, que vai realizar a cirurgia bariátrica, tenha um pré-operatório e pós-operatório saudável.

    O psicólogo Hudson Rockefeller é especialista em cirurgia bariátrica e explica que o preparo psicológico antes do procedimento é importante para facilitar a participação e adesão ao tratamento, promover expectativas realistas e reflexões sobre as transformações que ocorrerão após a cirurgia bariátrica a curto, médio e longo prazo.

    “É feita uma entrevista com o paciente e procuro saber sobre sua vida, suas tentativas de emagrecimento, padrões de comportamentos alimentar, dentre outros aspectos. Também dou orientações e informações sobre a cirurgia bariátrica. São trabalhadas com o paciente, formas mais saudáveis para lidar com a obesidade e também com as questões emocionais envolvidas no processo de mudanças de hábitos. Também aplico alguns testes psicológicos, como o de imagem corporal e compulsão alimentar".

    Manaus foi escolhida como a capital mais obesa do país
    Manaus foi escolhida como a capital mais obesa do país | Foto: Márcio Melo


    O designer Adriano Dias realizou o procedimento em 2007 e perdeu mais de 55 quilos. Ele explicou como foi o acompanhamento clínico antes da cirurgia.

    “Um ano antes de fazer minha cirurgia, eu passei por sessões com nutricionista, psicólogo e endócrino. Participei de sessões individuais e em grupo com esses especialistas".

    A administradora Andrea Nascimento também fez a cirurgia bariátrica este ano e conta que começou a perceber um estilo de vida diferente.

    “Decidi fazer a cirurgia bariátrica em dezembro de 2017 e fiz a cirurgia no dia 9 de maio de 2018. Estou com 50 dias de operada. No dia da cirurgia, eu estava com 118 kg, hoje estou com 102 kg. Tem uma semana que comecei a fazer academia, caminhar e dançar (zumba) e hoje tenho outra vida. Fiz a cirurgia por saúde, quero viver muito. Agradeço muito pelo incentivo dos médicos que me atenderam e ao meu esposo que me apoiou".

    Desejo de aceitação

    Em meio às dificuldades e obstáculos que pessoas obesas lidam no cotidiano, muitas precisam trabalhar a autoaceitação. A baixa autoestima afeta muitas pessoas que lidam com a obesidade.

    O gerente de logística, João Vitor Braga, precisou lutar contra a timidez e a baixa autoestima. 

    "Antes de eu fazer cirurgia bariátrica, eu tinha e ainda tenho dificuldade de me relacionar com as pessoas. Não conseguia me expor ao público, principalmente em apresentações de faculdade. Não queria fazer por ter vergonha, sentia que as pessoas me caçoavam mesmo sem motivo. Não tinha autoestima, não tinha coragem para enfrentar as pessoas e não tinha a consciência de que era igual a todo mundo”.

    “O mais triste é pensar que é utopia imaginar um mundo onde lojas, restaurantes e lugares públicos estejam totalmente preparados para as pessoas obesas. Um mundo sem preconceito, com roupas que caibam em todos os tamanhos de corpos, com cadeiras confortáveis, onde as pessoas não se tratam diferente por você ser gordo (a) e onde as pessoas possam se amar, independente do que mostra em uma balança”, finaliza Ana Franco.

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