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    Incesto


    Incesto: Há limite para a demonstração de carinho entre pais e filhos?

    Casamento entre primos ou selinho entre pais e filhos, são alguns dos exemplos que chocam a sociedade. Mas, afinal, o que é incesto? Recentemente, a relação entre participantes do BBB levantou esse questionamento

    "É pouco provável que o problema aconteça entre membros de uma família bem estruturada", diz o psicólogo Sebastião. | Foto: Marcely Gomes

    Manaus - Demonstração de carinho entre membros da mesma família é algo comum para a sociedade. No Brasil, o contato físico entre familiares e amigos costuma ser mais frequente e normal do que em outros países. Porém, mesmo em lugares onde as afetividades são demonstradas mais aberta e intensamente, algumas situações levantam polêmicas e geram questionamentos. 

    Um selinho entre a mãe e um filho, uma abraço mais demorado entre pai e filha, apego "excessivo" entre irmãos, configuram algumas dessas situações. Mas, até que ponto esse carinho pode se transformar em uma relação considerada incestuosa?

    O psicólogo e sexólogo Sebastião Nascimento, afirma que o incesto pode surgir desde os primeiros meses de vida de uma pessoa. Ele diz que a relação incestuosa, que se difere do incesto em si, começa em grande número dos casos ainda na infância, fruto de uma relação mal elaborada pelos próprios familiares.

    Recentemente, uma família que participa da 18º edição do BBB, foi alvo do assunto. O carinho visto como "excessivo" de Ayrton pela filha Ana Clara, incomodou muita gente que acompanha o reality.

    Ayrton e Ana Clara na piscina.
    Ayrton e Ana Clara na piscina. | Foto: Reprodução

    A interação entre os dois chegou a ser considerada, por muitos, como uma possível relação incestuosa e não demorou muito para chover críticas nas redes sociais quanto à convivência entre eles.

    "Esse problema ocorre com mais frequência do que imaginamos e as possíveis motivações que contribuem para isso são consideradas complexas. O incesto é a relação sexual entre membros da mesma família, ou até mesmo entre madrastas ou padrastos e seus enteados", explica Sebastião, ao ressaltar que a possibilidade dessa relação aumenta quando falamos de uma família mal estruturada.

    "É  preciso entender que, quando falo de família bem ou mal estruturada, não estou falando de família com bons recursos financeiros, mas sim sobre deixar claro princípios básicos, além de elaborar bem a criação e a convivência entre pais e filhos", completa o psicólogo.

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    Para Sebastião, todo processo de desenvolvimento da criança é de fundamental importância. A partir dos 2 anos até os 6, algumas vezes já é possível perceber quando a relação tende a ser incestuosa ou com traços incestuosos, que de acordo com ele, se diferem.

    Diferente do incesto, a relação com traços incestuosos é o relacionamento onde uma das partes sente atração pelo outro. "Um exemplo é quando a mãe se separa do pai da criança e começa a se apegar ao filho, chega a dormir junto e intensifica a relação a ponto de ter sentimento de posse do filho, o que também pode ser o contrário, quando o filho se apega à mãe e começa achar que ele é o "homem" dela, sem o contato sexual”, exemplifica.

    Sebastião também classifica a questão como um conjunto de questões biológicas, sociológicas e psicológicas. Além de uma questão complexa, delicada, não debatida e  muitas vezes nem percebida.

    É justamente aí que pode entrar uma terceira denominação do incesto, sendo o incesto de 2º grau, quando o parceiro da mãe ou a parceira do pai, que não são genitores da criança ou do adolescente passam a se envolver com o enteado ou enteada, ou no caso de irmãos de criação.

    Casos avaliados

    Sebastião trata sete casos de relações incestuosas em Manaus.
    Sebastião trata sete casos de relações incestuosas em Manaus. | Foto: Marcely Gomes

    Somente nos últimos dois anos foram tratados por Sebastião, sete casos de relações incestuosas em Manaus, sendo a maioria de adolescentes que se envolveram com algum membro da família. Ele afirma que o problema tem tratamento e varia de caso para caso. "A 'cura' pode vir após seis meses de terapia ou mais".

    O psicólogo revela que casos entre pais e filhas são mais comuns, seguidos de mãe e filhos, tios e sobrinhos e um pouco mais raro a relação íntima entre irmãos. Porém, existe ainda a relação entre primos, que atualmente é bem mais aceita pela sociedade, mesmo que também seja uma relação classificada como incestuosa no Brasil.

    "Não to aqui dizendo que carinho e interação entre familiares cause uma relação incestuosa. O que estou explicando é que há de se ter cuidado com a formação familiar. Beije, abrace, toque, brinque a vontade", diz.

    É crime?

    No Brasil, ainda que seja considerado amoral, o incesto não é considerado crime se os envolvidos forem maiores de 14 anos e consentirem a intimidade sem nenhum tipo de coibição.

    São até mesmo permitidos casamentos entre tios e sobrinhos, mas caso o adolescente seja menor de 14 anos, aí sim a relação é caraterizada como crime, sendo ele de estupro ou pedofilia. Já pelo Código Civil não é aceito apenas o casamento entre pais e filhos e a união entre irmãos. 

    E quando a culpa é do Boto?

    Na Amazônia, durante algum tempo a conhecida Lenda do Boto, do homem forte e robusto que seduzia as caboclas na beira do rio, foi usada como desculpa para acobertar um fato até então recorrente na região, quando pais iniciavam a filha sexualmente.

    Ainda que pareça absurdo, em pleno século 21 não é difícil encontrar nas comunidades ribeirinhas meninas grávidas do próprio pai. A situação, inclusive, em grande parte era aceita pelos familiares que viam com certa "naturalidade". Aos que não concordavam, a omissão os calava.

    Questões sociais

    No caso do reality show, a reprovação social da relação entre Ayrton e a filha é praticamente adotada pela sociedade de todo o mundo. Mesmo não identificando de onde surgiu a origem exata de repugnância, o tema é sempre abordado muito mais pelo lado moral do que por qualquer outra vertente. "Essa família que entrou no BBB é estranha. O pai beija a filha demorado na boca e ainda agarra ela, estou chocado", disse um internauta nas redes sociais.

    Para a jornalista e antropóloga Carly Anny Barros, a proibição é de ordem natural, biológica e cultural. Biológica quanto às questões genéticas, onde afirma-se que filhos gerados de uma relação entre pessoas consanguíneos podem nascer defeituosas e cultural pois a situação por si só causa aversão no imaginário social sem precisar de proibições.

    Mas ela lembra que o que moralmente é antiético em uma sociedade, pode não ser para a outra, ainda que esta outra não vá de encontro com a maioria. Um exemplo disso eram os Incas no Peru, onde para manterem o reinado, casamentos entre irmãos eram absolutamente normais. 

    "Se formos olhar pelo lado sociológico, temos que lembrar que cada família é um grupo social especifico e tem seus parâmetros morais. Essa questão é complexa demais, o que deve prevalecer é o respeito com outro e se não haver a certeza de que realmente há algo errado, não invadir o espaço do outro. Cada família tem sua intimidade e apontar o dedo sem a certeza do que talvez você erroneamente supõe é perigoso", finaliza a antropóloga.


    Edição: Luís Henrique Oliveira



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