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    Homicídios


    Mata-se mais em Manaus do que na guerra da Síria

    Em menos de seis meses, mais de 400 assassinatos registrados em Manaus

    Crime em Manaus
    Crime em Manaus | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Manaus - O Instituto Médico Legal (IML) registrou em cinco meses e 15 dias, 416 assassinatos em Manaus. O número é alarmante e preocupa a sociedade do Estado. De acordo com a polícia, a maioria dos crimes estão relacionados ao tráfico de entorpecentes e ao envolvimento de criminosos com roubos, furtos, estelionato e outros delitos mal sucedidos

    Atualmente, o número de investigadores da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS) não consegue atender à grande demanda de inquéritos policiais (IPs) abertos.

    Crimes em Manaus
    Crimes em Manaus | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Entre janeiro deste ano e o início de junho de 2018, a DEHS instaurou mais de 400 inquéritos policiais. No entanto, com um contingente de 28 investigadores - 12 plantonistas e 16 policiais de rua, fora estagiários - não se consegue resolver todos.

    Segundo o delegado Jeff David MacDonald, titular da DEHS, outro fator que pesa para a ausência de solução dos casos é o fato de que a própria família não dá informações à Polícia Civil do Amazonas (PC-AM). “A investigação que nós fazemos é por meio das informações que as pessoas nos passam. Já tivemos casos aqui de pessoas que foram enterradas como indigentes, porque a família não veio à delegacia para registrar Boletim de Ocorrência (BO) ou dar qualquer informação”, afirmou delegado da DEHS.

    Leia também: 'Quarta sangrenta': mais de 10 mortes são registradas no Amazonas

    Crimes em Manaus
    Crimes em Manaus | Foto: Marcely Gomes

    MacDonald ainda aponta que os inquéritos abertos em 2018 nem sempre se referem a crimes que aconteceram em 2018. A premissa se aplica também aos casos solucionados, que não chegam a 100. Também pudera: o número de inquéritos abertos na DEHS por homicídio não bate com os números dados pelo registro diário do IML, no bairro Cidade Nova, Zona Norte de Manaus, que, entre 1° de janeiro e 14 de junho de 2018, registrou 416 mortes por homicídio.

    “Os casos que nós solucionamos aqui geralmente regridem até 2015. Têm vezes em que nós conseguimos fechar até 10 casos de uma só vez, mas isso demora, porque faltam informações”, afirma o delegado.

    Crimes em Manaus
    Crimes em Manaus | Foto: Marcelo Cadilhe

    MacDonald ressalta que existe um plano para transformar a DEHS - que entre 2012 e 2018 teve cinco delegados titulares - em um departamento: o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). “Como departamento, acredito que teríamos mais autonomia para investigações, já que o nosso contingente de investigadores aumentaria, e nós mesmos teríamos uma autonomia maior. O delegado-geral (Mariolino Brito) vê essa ideia com bons olhos”, conta o titular da DEHS.

    A equipe de reportagem do EM TEMPO entrou em contato com a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-AM) para obter dados sobre homicídios cometidos na capital amazonense. No entanto, não recebeu qualquer retorno até o fechamento desta matéria.

    Semana sangrenta

    Os homicídios de 2018 chegaram ao ápice nos últimos seis dias, entre domingo (10) e a noite de sexta-feira (15). Ao todo, 24 pessoas foram mortas em um das semanas mais sangrentos em Manaus. Mortes em série nunca são normais, e a suspeita é de que os homicídios tenham sido desencadeados pela morte do cabo Taynan Régis Barreto, da Polícia Militar (PM).

    Barreto fazia parte de uma guarnição da PM que foi à localidade conhecida como “Bariri”, no bairro Presidente Vargas, Zona Sul de Manaus, para apurar uma denúncia de tráfico de drogas. O trio foi recebido a tiros, e Taynan, que ficou gravemente ferido, acabou falecendo na madrugada de segunda-feira (11) em uma unidade hospitalar de Manaus.

    Os homicídios estão sob severa investigação da Polícia Civil, de acordo com o delegado-geral da instituição, Mariolino Brito. “Temos 10 equipes investigando esse caso diuturnamente, sem comprometer o efetivo das delegacias. A dificuldade, como se sabe, é que as famílias não prestam as informações necessárias ao trabalho, o que dificulta e muito as investigações. O que nós podemos dizer é que essas mortes são produtos de uma disputa entre as próprias facções criminosas”, afirmou o delegado-geral da PC-AM.

    Contrato milionário

    No dia 7 de maio deste ano, o Governo do Amazonas assinou um contrato de consultoria de segurança no valor de R$ 5 milhões com a empresa Giuliani Security & Safety LLC, chefiada pelo americano Rudolph Giuliani,-prefeito de Nova Iorque (EUA) entre 1994 e 2001. A intenção do governador Amazonino Mendes era importar o modelo utilizado pelo Departamento de Polícia de Nova iorque para as forças de segurança do Amazonas, que reduziu em 57% os crimes cometidos na metrópole norte-americana.

    A Carta de Compromissos entregue ao governo, assinada pelo CEO da Giuliani, John Huvane, previa uma visita inicial à cidade de Manaus, que ocorreu em 14 de maio, além de reuniões com as polícias Civil e Militar do Amazonas, além de inspeções às instalações de segurança. A mesma carta previa a não divulgação dos relatórios expedidos pela empresa de consultoria.

    No entanto, em 18 de maio, apenas dez dias após a assinatura do contrato, o Governo do Amazonas pagou R$ 1,7 milhão à empresa. Embora o sigilo seja um dos requisitos da Carta de Compromissos e do contrato assinado pelo governador e pelos secretários de Estado da Casa Civil, Arthur Lins, e da Segurança Pública, coronel Anézio Paiva, o contrato também previa a divulgação dos resultados do primeiro relatório à imprensa e à sociedade, o que, um mês depois da primeira visita e do pagamento, ainda não foi feito.

    Atlas da Violência

    Em dez anos (2006-2016), o Amazonas registrou 12.233 homicídios, conforme o Atlas da Violência 2018, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que foi divulgado neste mês. Por ano, neste mesmo período,1223,3 pessoas foram assassinadas.

    Na faixa etária de 15 a 29 anos, o número de assassinatos no Amazonas neste período de dez anos chegou ao patamar de 6.967 crimes. Os casos de homicídios de mulheres foi à estatística de 906 no período 2006 a 2016.

    Conforme o relatório, o Brasil atingiu, pela primeira vez em sua história, o patamar de 30 homicídios por 100 mil habitantes. A taxa de 30,3%, registrada em 2016, corresponde a 62.517 homicídios naquele ano, 30 vezes o observado na Europa no mesmo ano, e revela a premência de ações efetivas por parte das autoridades públicas para reverter o aumento da violência.

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