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    Filhos do Boto Navegador


    Gilberto Mestrinho é 'pai político' do grupo que governa AM há 40 anos

    Linhagem familiar inicia com o primogênito Amazonino, que consagra Braga e tem como descendentes Alfredo, Omar e José Melo

    Filhos do Boto Navegador | Foto: Divulgação

    Manaus - Uma definição para pai pode ser: “aquele que gera um ser, ensina-o a dar os primeiros passos e instrui o caminho que deve percorrer”. No fim de semana em que se comemora o Dia dos Pais, o EM TEMPO relembra que, na árvore genealógica da política local, os principais candidatos nestas eleições têm o mesmo DNA: o do ex-governador falecido Gilberto Mestrinho, conhecido como Boto Navegador.

    Na linhagem do “pai político”, está o atual governador Amazonino Mendes (PDT), o senador Eduardo Braga (MDB), os candidatos ao governo Omar Aziz (PSD) e David Almeida (PSB) e o deputado federal e candidato ao senado Alfredo Nascimento (PR).

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    Amigo pessoal de Gilberto Mestrinho, Mario Alfredo Lopes, que lançará no dia 23 de fevereiro de 2019 um livro sobre o político, relembra datas importantes da vida dele e a aproximação dos novos nomes, que posteriormente se tornariam lideranças no Amazonas.

    Primogênito do "Boto Navegador", Amazonino mendes é o atual governador tampão do Estado
    Primogênito do "Boto Navegador", Amazonino mendes é o atual governador tampão do Estado | Foto: Ricardo Oliveira

    “Em 1959, Gilberto foi eleito de forma direta. Nesta época, Amazonino era uma liderança estudantil que via no Gilberto uma liderança política popular com qual se identificou e ambos tornaram-se muito amigos. A partir do segundo mandato de Gilberto, em 1982, Amazonino tornou-se advogado dele”, lembra.

    De acordo com Mario, naquela época, Amazonino começou a “afastar” o vice de Gilberto, Manoel Ribeiro (Manoel Pracinha), para se credenciar à sucessão do Boto Navegador, fato que ocorreu em 1986, quando não havia reeleição,sim, indicação para a vaga.

    Ao citar como Gilberto sobreviveu a alguns imbróglios, o amigo do ex-governador cita que, determinada vez, o Boto deixou o governo do Estado para disputar um cargo menor, de deputado federal, em 1961, em Boa Vista (RR) - iniciativa para não perder o status de político e com a facilidade de ter em mãos uma base eleitoral no Estado.

    Alfredo Nascimento veio logo após Amazonino Mendes, assumindo a prefeitura de Manaus
    Alfredo Nascimento veio logo após Amazonino Mendes, assumindo a prefeitura de Manaus | Foto: Divulgação

    “Ele ia deixar o governo e, como não tinha reeleição, ele decidiu disputar um cargo na Câmara dos Deputados. Nesse momento, ele se aproximou de Almino Afonso e Arthur Virgilio Filho”.

    Cassado em 1979, no período da ditadura, e proibido de entrar no Amazonas, Gilberto se auto divulgou, fazendo palestras, conciliando com a atividade de empresário. “Neste período tinha uma aliança com Pedro Simões, Tancredo Neves e Ulisses Guimarães. Quando voltou a Manaus, tornou-se prefeito, dentro de uma mobilização poderosa, em que o MDB consegue eleger mais de 20 prefeitos pelo Brasil”, conta.

    Com a chegada de Braga ao poder, ele afasta-se do "pai" para governar sozinho
    Com a chegada de Braga ao poder, ele afasta-se do "pai" para governar sozinho | Foto: Divulgação

    Entre tapas e beijos

    Mario classifica como entre “tapas e beijos” a relação com o “primogênito” do ciclo político, Amazonino, quem ele considera que vivia à sombra do Boto Navegador. Quanto à primeira grande oportunidade dele, Mario relembra: “O cargo de prefeito pertencia ao governador, então em 1984, Amazonino foi indicado por Gilberto para comandar a prefeitura, e essa parceria entre tapas e beijos aconteceria porque Amazonino sempre quis fazer uma política diferenciada”, diz. Já em 1988, em uma nova disputa para a prefeitura, Gilberto se lançou ao cargo contra Arthur Virgilio. “Dizem que houve investidas de Amazonino para que o Boto saísse da cena política”, comenta.

    Foi naquele mesmo ano que Alfredo Nascimento surgiu na cena política, assumindo interinamente a prefeitura após Amazonino decretar uma intervenção e retirar Manoel Ribeiro do cargo.

    Escola de estratégia

    Sobre as estratégias políticas que começam a ser apresentadas para o pleito de outubro, Mario Lopes revela que parte delas é fruto da convivência dos políticos com Gilberto.

    Mario afirma que o desejo de ambos era dirigir o Estado do Amazonas, e a convivência de Amazonino com Gilberto formou uma escola de estratégia política. “Mas o jeito de Amazonino fazer política não é fruto apenas de um aprendizado com Gilberto, mas sim da situação atual do Brasil”, conta.

    Da linhagem de Eduardo Braga, surgiu também Omar Aziz (foto acima)
    Da linhagem de Eduardo Braga, surgiu também Omar Aziz (foto acima) | Foto: Walmir Barreto /Agência Senado

    Para ele, houve uma mudança no comportamento da classe política. “Os políticos passaram a se associar com empreiteiros, e esta relação acabou criando problemas de ordem administrativa financeira. Os políticos tinham essa visão de que administrar com empresas garantiria um amparo na gestão”, comentou.

    Novatos da escola

    Já na década de 1990, Gilberto voltou aos trabalhos na política ao ser eleito governador e contribuir com o êxito de seus sucessores. “Em 1995, Amazonino Mendes foi eleito e reeleito. No pleito seguinte, apoiou Eduardo Braga, vereador governista, considerado por ele, à época, o candidato do sistema, e assim o tornou governador em 2003, com a necessidade de se livrar de Gilberto”, relembra.

    José Melo, ex-governador cassado do Amazonas
    José Melo, ex-governador cassado do Amazonas | Foto: Divulgação

    Dessa linhagem, Mario aponta que veio ainda Omar Aziz, ex-integrante do PCdoB, que atuou como secretário de infraestrutura e de segurança e com a benção de Eduardo, e conseguiu a cadeira de governador em 2010. Posteriormente, garantiu apoio a José Melo, dono da vaga a partir de 2014 e único governador cassado da história. Com a saída dele, o então líder dele na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam), o deputado estadual David Almeida (PSB), assumiu o posto interinamente, até o comando voltar para as mãos do primeiro filho de Gilberto, Amazonino Mendes.

    Para Mario, com a chegada de Braga ao poder, aconteceu o previsível, “a criatura se afastou do criador”. “Logo Braga tratou de livrar-se de Amazonino e bandear-se para o lado de Gilberto, ao ponto de se desfiliar do PFL e integrar o MDB. Por isso, esta dança das cadeiras é a marca do grupo. Infelizmente, estes conflitos trazem prejuízos para o Amazonas. Aqui não há uma tradição de cumplicidade política, é um grupo que vive numa luta permanecente”, finalizou.

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