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    Marcus Lacerda


    ‘Não será 100% das pessoas que vão se infectar’, diz infectologista

    Médico que liderou análises sobre a cloroquina, afirma que novo estudo confirma a sua ineficácia sobre a Covid-19

    Apesar do otimismo, o pesquisador diz que não se pode baixar a guarda diante do novo coronavírus | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Coordenador em Manaus dos estudos sobre a cloroquina e hidroxicloriquina, que apontou em primeira mão a sua ineficácia sobre a Covid-19, o médico infectologista Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda, de 43 anos, afirma que nos estudos confirmam o primeiro resultado e alerta que o risco no relaxamento das medidas de contenção à pandemia está sobre aquelas pessoas que realmente decidiram pelo isolamento social.

    Nascido em Taguatinga (a 20 quilômetros de Brasília), o médico infectologista da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) e pesquisador do Instituto Leônidas & Maria Deane (Fiocruz), construiu carreira de respeito em Manaus, onde se especializou em doenças infecciosas e parasitárias, principalmente no enfrentamento a malária.

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    Novos trabalhos mostraram que pessoas podem não se infectar, dependendo do tipo de sangue, de vacinas que já tenham tomado, ou de anticorpos que já tenham desenvolvido contra outros coronavírus, que são vírus do resfriado comum. Ou seja, não será 100% das pessoas que vão se infectar, pelo que temos visto "

    Marcus Lacerda, médico infectologista, sobre as últimas percepções sobre a Covid-19

    Ele que constituiu família em Manaus, em meio à politização do enfrentamento ao novo coronavírus, no Brasil e no mundo, viveu momentos de pânico por conta das ameaças de morte que partiram, segundo ele, de pessoas preferiram acreditar no discurso de ódio espalhado pelas redes sociais, ao conhecimento científico desenvolvido com ética.

    Marcus que coordenou muitos dos testes para o Brasil, em Manaus, sobre a malária, a base de cloroquina, e ajudou o Ministério da Saúde na formulação de políticas de enfrentamento à doença, está hoje, junto a outros centros, em fase final de teste de uma vacina contra a dengue, com o apoio do Instituto Butantan.

    Diante da sua experiência, Marcus diz ao EM TEMPO que o Brasil é um dos poucos países que conseguirá produzir de forma rápida e sustentável uma vacina, independentemente de onde ela venha. Alertou ainda que, diante da história das pandemias, é necessário que o Brasil estabeleça vigilância sobre a Amazônia, a fim de conter possíveis vírus tão letais quanto à Covid-19. Veja mais na entrevista exclusiva.


    EM TEMPO - De novembro para dezembro de 2019, começaram a falar de um novo vírus na China. Naquela época, dentro da experiência como infectologista, já era possível alertar sobre os possíveis impactos ao Brasil e ao Amazonas?

    Marcus Lacerda - Todo vírus respiratório precisa levantar preocupação dos infectologistas, porque o passado não nos deixa esquecer das graves consequências de pandemias de influenza, por exemplo. O que não sabíamos exatamente, no início, era a capacidade de infecção do vírus e seu potencial de letalidade. Ambos acabaram se revelando mais altos do que acreditávamos.

    ET - Quando exatamente o botão de alerta foi acionado pelas autoridades de saúde internacionais, e assimiladas pelas locais?

    Marcus Lacerda - Houve muita negação e atraso internacional em reconhecer a gravidade do problema. A própria OMS declarou a pandemia de forma tardia. As Américas foram os últimos continentes a enfrentar o problema, portanto, tivemos todo o tempo para adequar a rede de saúde, planejar estudos, fazer vigilância, montar laboratórios para fortalecer diagnóstico. Mas, ninguém acreditava que, o que já estava acontecendo na Itália chegaria por aqui, com a mesma intensidade. Na realidade, cada país só aprendeu mesmo depois que a doença se instalou.

    Marcus que coordenou testes sobre a malária, está hoje, junto a outros centros, em fase final de teste de uma vacina contra a dengue
    Marcus que coordenou testes sobre a malária, está hoje, junto a outros centros, em fase final de teste de uma vacina contra a dengue | Foto: Lucas Silva

    ET - O Brasil demorou a entender os perigos do novo coronavírus?

    Marcus Lacerda - O Ministério da Saúde do Brasil já estava em alerta desde janeiro de 2020, inclusive com guias e um protocolo de atenção prontos. Mas, o país é muito grande, e cada Estado teve seu tempo de entender a crise e reagir a ela. Apesar da entrada oficial do vírus ter sido por São Paulo, não tínhamos a visão clara de que Norte e Nordeste teriam capitais em tão grave estado de colapso do sistema de saúde.

    ET - Nas últimas semanas, pelo menos no Amazonas, a curva de óbitos se mantém em queda. As medidas de contenção estão sendo em fase de flexibilização. Manaus errou ao começar a abrir as portas do comércio e dos serviços não essenciais, no dia 1º de junho?

    Marcus Lacerda - Essa é uma resposta complexa, e temos visto opiniões diversas a respeito. Ainda estamos começando a entender a imunidade contra o vírus e quem são as pessoas que se infectam. Parece que não são todos. Vendo pessoas em casa, como médico, observamos que algumas se infectaram e outras não, mesmo sendo um vírus tão contagioso. Novos trabalhos mostraram que pessoas podem não se infectar dependendo do tipo de sangue, de vacinas que tenham tomado, ou de anticorpos que já tenham desenvolvido contra outros coronavírus, que são vírus do resfriado comum. Ou seja, não será 100% das pessoas que vão se infectar, pelo que temos visto. E de fato, mesmo com uma estimativa baseada em testes rápidos, que varia entre 10 e 40% de infectados em Manaus, vemos que o número de casos de morte em Manaus caiu. Não no interior, porque lá os picos ainda estão acontecendo, em outro ritmo.

    ET - Quanto tempo para saber se a flexibilização foi de fato um erro? O que podemos ver pela frente diante do número ainda crescente de casos de contaminação?

    Marcus Lacerda - Curioso que estamos criticando muito a flexibilização do distanciamento social, mas Manaus nunca teve o real distanciamento recomendado. Quem vive aqui e conhece a periferia da cidade, sabe disso. Para que o número de casos caia de forma sustentável, como aconteceu em Manaus, sem lockdown e sem vacina, só tem uma explicação: número de pessoas suscetíveis já é baixo, o que não quer dizer que o vírus desapareceu daqui. Quem estava mesmo isolado e sair agora às ruas, pode sim se infectar, e se tiver fator de risco, pode agravar. Mas, pelo menos agora temos leitos de UTI para dar um melhor cuidado a essas pessoas, além de profissionais de saúde mais experientes no tratamento da Covid-19.

    ET - O que o levou a iniciar estudos sobre a cloroquina ou hidroxicloroquina?

    Marcus Lacerda - Por trabalhar com malária, acumulamos muita experiência no uso da cloroquina, que é a principal medicação usada no Brasil. Com a possibilidade de ação dessa medicação contra SARS-CoV-2, e grande número de casos em Manaus, acreditamos que poderíamos contribuir para mostrar a eficácia, em primeira mão.

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    Descobrimos muito cedo que as doses mais altas eram mais tóxicas e decidimos pela suspensão desse grupo, continuando a usar apenas a dose mais baixa, que era mais segura. Tudo foi feito com aprovação ética, comitê de especialistas independente e todos os pacientes e/ou familiares assinaram um termo de consentimento "

    Marcus Lacerda, médico infectologista, sobre os estudos com a cloroquina

    ET - O que deu certo ou o que deu errado nessa pesquisa?

    Marcus Lacerda - Nossa primeira ideia foi testar duas doses de cloroquina em pacientes graves, já que a ação da cloroquina sobre o vírus depende de doses mais altas, como mostraram os estudos de laboratório iniciais. Descobrimos muito cedo que as doses mais altas eram mais tóxicas e decidimos pela suspensão desse grupo, continuando a usar apenas a dose mais baixa, que era mais segura. Tudo foi feito com aprovação ética, comitê de especialistas independente e todos os pacientes e/ou familiares assinaram um termo de consentimento. Além disso, eletrocardiogramas eram feitos todos os dias, por segurança do paciente. Verificamos também que mesmo as doses baixas não foram eficazes e eles ainda tinham o vírus na secreção respiratória no quinto dia. Ou seja, os estudos iniciais com poucos pacientes não estavam corretos. Depois disso, fizemos outro estudo, ainda não publicado, em pessoas que não estavam hospitalizadas, e, igualmente, não vimos nenhum benefício.

    ET - Depois da divulgação “científica”, a cloroquina entrou no discurso político como solução para aquilo que era tratado com negação por autoridades norte-americanas e brasileiras. Quais foram os efeitos da politização no discurso de solução contra a Covid-19?

    Marcus Lacerda - Parte da imprensa não compreendeu nossos resultados e divulgaram que o estudo tinha sido interrompido porque a cloroquina tinha matado mais. Isso incomodou muita gente, nos Estados Unidos e aqui no Brasil, que começaram então a espalhar que nosso estudo tinha cunho meramente político, que éramos ativistas do PT, e que tínhamos escolhido uma dose de cloroquina excessivamente alta e letal, para matar pacientes de propósito, e mostrar que a droga não funcionava. Para deixarem a história mais verídica, espalharam também que não tínhamos aprovação ética antes de iniciar o estudo. Bem, muita gente nas redes sociais acreditou nisso, lamentavelmente.

    Apesar do otimismo, o pesquisador diz que não se pode baixar a guarda diante do novo coronavírus
    Apesar do otimismo, o pesquisador diz que não se pode baixar a guarda diante do novo coronavírus | Foto: Lucas Silva

    ET - Ouvimos que o discurso de ódio, construído por aliados do presidente da República, levou a ameaças contra a sua vida e de seus colegas de pesquisa. Como tem lidado com isso?

    Marcus Lacerda - Não foi fácil explicar à sociedade o que tínhamos feito, depois de tudo o que eles leram. Muita gente passou a nos atacar, nos ameaçar de morte pelas redes sociais, o que gerou muito medo, ansiedade e principalmente frustração. Eu e minha família ficamos com escolta armada por duas semanas. A calúnia e a difamação, por parte de pessoas que nunca leram nosso artigo científico, gerou um conflito de âmbito nacional. Muitos preferiram acreditar que um grupo sério de pesquisadores havia matado gente de propósito, do que acreditar que a cloroquina não funcionava.

    ET - São Paulo anunciou parceria com a China para a produção de vacina. O Brasil não tem condições de desenvolver a vacina e produzir em larga escala? Por quê?

    Marcus Lacerda - Nesse momento, em que a transmissão ainda aumenta em muitos Estados, vacinas mais adiantadas, como a da China, precisam ser testadas ao mesmo tempo em que se testam outras vacinas. Talvez haja mais de uma vacina igualmente eficaz e segura. Independente de qual seja a vacina, o Brasil é um dos poucos países que conseguirá produzir de forma rápida e sustentável com grandes lotes, porque já tem experiência nisso, em laboratórios de saúde pública como Biomaguinhos (Fiocruz) e Instituto Butantan.

    ET - Quando o mundo deve, enfim, ter uma vacina para esse vírus?

    Marcus Lacerda - Acreditamos que final de 2020 é uma esperança otimista, mas vejo 2021 como algo mais realista. No desenvolvimento de uma vacina, muitos cuidados são necessários para que a vacina seja muito segura.

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    As pequenas mutações que têm sido vistas até o momento não parecem mudar características como transmissibilidade e manifestações clínicas. As principais mutações ocorrem mesmo nos animais. No caso desse novo coronavírus, provavelmente em morcegos "

    Marcus Lacerda, médico infectologista, sobre as possíveis mutações da Covid-19

    ET - O mundo corre risco de mutação da Covid-19 em contaminados ou pessoas “curadas”?

    Marcus Lacerda - Sempre existe essa possibilidade, mas as pequenas mutações que têm sido vistas até o momento não parecem mudar características como transmissibilidade e manifestações clínicas. As principais mutações ocorrem mesmo nos animais. No caso desse novo coronavírus, provavelmente em morcegos.

    ET - Antes da pandemia, se fala de crise econômica e cortes de investimentos voltados à ciência. Durante a pandemia esse quadro mudou? Como?

    Marcus Lacerda - Sim, o investimento em ciência, que já estava em declínio antes da pandemia, pode ser maior a partir de agora. Apesar da ajuda rápida e oportuna da Fapeam, da Capes e do Decit (MS), aos grupos que começaram a estudar a Covid-19 desde março, temos grandes preocupações com o financiamento em pesquisa, porque certamente teremos uma crise econômica mundial, e cortes em ciência e tecnologia costumam estar na primeira mira do gestor, que não considera essa uma atividade essencial.

    ET - Diante dos discursos políticos sobre os efeitos da pandemia no país, por quanto tempo ainda o Brasil viverá sobre os riscos de novas ondas?

    Marcus Lacerda - O Brasil é grande e estamos vivemos sucessivas ondas em Estados e municípios. Não podemos pensar no Brasil como uma unidade em que a doença chega ao mesmo tempo e desaparece ao mesmo tempo. Mas, se olharmos para a história dessa doença, em cidades que viveram o pânico de aumento de mortes pela Covid-19, que não fizeram isolamento social rigoroso, não houve segunda onda da doença. É o caso de Wuhan e de Milão. Naturalmente que não sabemos até quando essa imunidade dos infectados irá durar, e se o vírus terá comportamento sazonal.

    ET - A Amazônia é um universo ainda muito misterioso. Ela é uma ameaça de uma nova pandemia? Como evitar?

    Marcus Lacerda - Acho que é hora de começarmos a explorar a Amazônia, de forma séria, como provável foco de produção de novos vírus causadores de pandemias. Temos imensa biodiversidade e uma população que cresce a cada dia, nas grandes capitais. Em 1918 foram os EUA, em 2019 a China. Sem uma vigilância ambiental de animais silvestres e vírus emergentes, a Amazônia pode ser o novo foco de uma doença letal a qualquer momento.

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