NÍCOLAS DANIEL MARRECO
15 de Outubro de 2018 - 12:33

Desde que o homem consegue se lembrar da própria história, o objetivo de alcançar e ultrapassar as nuvens sempre esteve perto. Do 14-bis às missões Apollo. Da Torre de Babel ao topo do monte Everest. Atletas do paraquedismo vão mais longe: voar por quase cinco minutos no ar ainda se encaixa na parte mais calma do esporte.


O paraquedismo é um dos desportos de aventura que mais provoca adrenalina no praticante. O esporte é uma atividade radical que possibilita o conhecimento de sensações nunca antes sentidas.

No Amazonas, a prática é conduzida somente por Manaus, dividida em quatro escolas em funcionamento, sendo três oficiais. Com o passar dos anos, o esporte vem caindo no gosto dos amazonenses.

Terceira maior área


A capital amazonense tem a terceira maior área de paraquedismo do Brasil, localizada no Aeroclube, na Zona Centro-Sul da cidade. Quem tem vontade de atingir 250km/h em queda livre se espanta quando ouve que é preciso apenas 15 minutos de instrução técnica antes de saltar do avião.


"Quem não pretende virar atleta ou profissional no esporte, salta com um instrutor agarrado nas costas por um equipamento especial. É o chamado salto duplo. Apenas uma explicação de 10 a 15 minutos antes do salto é suficiente para a pessoa saber o que ocorre lá em cima e como obedecer às normas de segurança", explica o professor e recordista mundial, Stanley William, de 41 anos.

Um pouco da história


Apesar de ser pouco conhecido no Brasil comparado ao famoso futebol, o esporte é antigo e tem origens próximas ao ano 1.300. Os primeiros registros ocorreram quando acrobatas chineses foram vistos saltando de muralhas e torres com um item parecido a um enorme guarda-chuva, usado para amortecer a queda.


Entretanto, o paraquedismo só foi se formalizar em um experimento no século XV, quando Leonardo Da Vinci estudou o voo dos pássaros e tirou conclusões básicas sobre a aerodinâmica, construiu diversas máquinas voadoras, entre elas o paraquedas.


Mesmo com diversos estudos, o paraquedas só seria patenteado em 1783, por Sebatian Lenormand. Mas o primeiro paraquedista do mundo só surgiu em 1797: Andre-Jacques Garnerin. Ele chegou a quebrar um recorde, quando saltou a 8000 pés em Londres. Atualmente o paraquedismo tem um vasto número de praticantes.

Nascidos para voar


Para Stanley William cada salto é único. Segundo ele, a principal atração pelo esporte é o desejo de ser livre, de imitar os pássaros. Histórias tanto de quem pratica por hobbie, quanto de quem já é esportista, confirmam esta verdade.


O militar Joilson Alves, de 30 anos, bateu o recorde pessoal de 31 saltos em 30 dias. Ele contou que não havia planejado fazer algo parecido, mas depois que pulou pela primeira vez de um avião, tudo mudou. "Não sei explicar. Tornou-se uma coisa viciante. Hoje, pulo seis vezes aos fins de semana. Mal posso esperar a hora de poder voar", disse entusiasmado.


Em um mês, ele disse, subiu dois graus como atleta, conforme os níveis da Confederação Brasileira de Paraquedismo (CBPq).


"Não dá para ter medo porque você não tem referência de nenhum ponto fixo, praticamente não se vê nada. Para mim, é uma terapia. Deixa minha mente em outro nível", completou.

 

Uma pessoa durante a queda livre pode atingir aproximadamente 250km/h - Foto: Divulgação / Skydive Manaus

 


Para mim, é uma terapia. Deixa minha mente em outro nível

Joilson Alves - Militar

 

Outro que compartilha do mesmo sentimento é o técnico em segurança do trabalho Carlos Daniel Silva, de 38 anos.


"Sinto uma paz diferente. Passei a ver as coisas por outro ponto de vista, e isso faz toda diferença", conta Carlos, que pulou de 9 mil pés, equivalente a quase 2.700 metros de altura.


Inspirado nos filmes de ação vistos na adolescência, o técnico de segurança no trabalho conta que o paraquedas foi sua primeira experiência em um esporte radical.


"Antes de pôr os pés para fora do avião, cheguei a me perguntar: 'o que estou fazendo aqui?', mas depois foi tranquilo. Os instrutores ficam acompanhando a altitude com o altímetro e te orientam a cada etapa antes do salto. Deixam tudo mais fácil", salientou.

 

Para realizar o salto duplo, os instrutores usam em média 15 minutos de explicação - Foto: Divulgação - Skydive Manaus



 Quando olho os passarinhos pela cidade, penso que já tive a experiência de estar no ar sem nenhum apoio, como eles


Márcia Oliveira - Jornalista

 

Salto de surpresa


A jornalista Márcia Oliveira, de 35 anos, conta que foi convidada pelo pai para fazer seu primeiro salto durante um café da manhã. "'Filha, vamos saltar de paraquedas?'. Eu só disse vamos quando ouvi a pergunta. Tinha vontade de pular desde a infância, quando via meu pai de paraquedas militar, e, assim, do nada, fiz meu primeiro pulo", lembrou.


Explicando como é a sensação no momento que sai do avião e pula no ar, Márcia disse que teve a impressão de ver a si mesma em uma tela 3D. "Foi muito louco, tive a sensação de estar vendo meu próprio corpo girando no ar. Quando olho os passarinhos pela cidade, penso que já tive a experiência de estar no ar sem nenhum apoio, como eles. Todo mundo precisa fazer isso um dia", recomendou.


Com 30 anos de experiência, o instrutor William soma nas costas mais de 8,5 mil de saltos de paraquedas. Atualmente, segundo ele, o avanço da tecnologia facilitou os saltos e melhorou o conforto para quem tenta pela primeira vez.


O Dispositivo de Abertura Automática (DAA), por exemplo, garante que o paraquedas se abra automaticamente a uma certa altura, mesmo se o gatilho não for puxado. Outro recurso, também, é o ponto radiofônico que indica o melhor local para pousar.


"Ninguém pula sozinho com menos de três saltos. Ensinamos os movimentos de navegação do paraquedas em simulação no solo e preparamos todos, com base na legislação para o esporte. Hoje, quem tiver 14 anos pode fazer o salto duplo. Já para ser atleta, a idade mínima é de 16 anos com autorização dos pais", explicou.

Museu de Minerais e Rochas Geólogo Carlos Isotta
 Márcia Oliveira durante o salto duplo  - Foto: Divulgação Skydive / Amazonas

 

Federação amazonense


Com constante desenvolvimento e potencial para o futuro, o presidente da Federação Amazonense de Paraquedismo (FAP), Romano Marquez, encorajou a formação de novos atletas.


"Temos a terceira maior área de paraquedismo do Brasil. A cada dia se apresentam novas especializações abrindo espaço para os esportistas", falou. 

Sem incentivo


Apesar do paraquedismo moderno ser enquadrado em diversas modalidades - como o trabalho relativo, o free fly e o wingsuit -, William lamenta a falta de incentivos públicos para o esporte no Estado.


"Perdemos várias competições e encontros nacionais e internacionais por falta de dinheiro para a passagem. Pedimos ajuda da pasta estadual de esporte, uma vez, mas fomos ignorados. Mesmo assim, para quem sonha em voar, ficar parado nunca foi opção e isso nos motiva a continuar", finaliza William.


Em 40 anos de escola de paraquedismo, três acidentes fatais foram registrados Foto: Ione Moreno / Em Tempo

 

Quem pode saltar?


As quatro escolas de paraquedismo de Manaus se encontram no Aeroclube do Amazonas, na avenida Professor Nilton Lins, Flores, Zona Centro-Oeste. O preço base para o salto duplo (iniciantes) é em torno de R$ 600, incluso o serviço de vídeos e fotos durante o percurso, com 30 minutos de passeio de avião e 40 segundos de queda livre.


A idade mínima para saltar, com autorização dos pais, é de 14 anos, conforme a legislação atual do esporte. Já para se tornar atleta, com o curso profissional, é de 16 anos com o aval dos responsáveis.


Em 40 anos, apenas três acidentes fatais foram registrados no Amazonas.

Editora Executiva
Gláucia Chair

Reportagem
Nícolas Daniel Marreco

Edição de Vídeo
Ítala Lima

Designer
Desirée Souza

Desenvolvimento
Renato Ipiranga