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Isabela Bastos

Isabela Bastos

Joandres Xavier

Joandres Xavier

Lucas Vitor Sena

Lucas Vitor Sena

Arquivo / SEC

Dentre a pompa e real maravilha / Desses belos e grandes painéis / Toda em luz, como um sol, surge e brilha / A cidade dos nobres barés!


“Senhoras e senhores passageiros, sejam bem-vindos a Manaus”. A frase dita pelo comandante das aeronaves que pousam no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes é logo respondida em suspiros e olhares para fora da janela. De noite ou de dia, quem chega com a janela aberta, não se arrepende, porque a visão é maravilhosa: uma metrópole à margem de um rio que mais parece um mar, bem no meio de uma imensidão de floresta preservada.


" Dentre a pompa e real maravilha
  Desses belos e grandes painéis
  Toda em luz, como um sol, surge e brilha
  A cidade dos nobres barés!..."


A poesia de Thaumaturgo Vaz, por Nicolino Milano traduz bem o que foi e o que é hoje a cidade de Manaus. Encravada no meio da floresta, a metrópole de mais de dois milhões de habitantes completa 349 anos nesta quinta-feira (24), com uma história de lutas e conquistas, escrita com sangue, suor, látex e lágrimas

Do Forte à Vila da Barra


Acaba sendo um erro pensar, no entanto, que Manaus começou apenas em 1669, uma vez que já existia um pequeno aglomerado indígena com uma população antiga e uma cultura consolidada e sedimentada. É o que explica o historiador, advogado e presidente da Academia Amazonense de Letras, Robério Braga, de 67 anos. "É o começo antes do começo", diz ele.


"Começa uma tentativa de aproximação e 'descoberta' das terras para os europeus, porque havia uma população e uma cultura importantíssima aqui. Essa aproximação se consolida no modelo português de ocupação, que é a construção do Forte de São José da Barra do Rio Negro. O próprio nome de São José já indicava a devoção dos portugueses presentes a esse santo. Agora, a padroeira de Manaus é Nossa Senhora da Conceição. A razão da mudança eu nunca vou saber", diz o historiador.


"O fato é que o forte, mandado construir em 1684 e inaugurado em 1669, marcava um novo horizonte na ocupação portuguesa sobre a região do Negro. E em 1755, com a transformação da região do Rio Negro em Capitania, o velho Forte de São José, que se tornara Vila da Barra do Rio Negro, se tornou a capital da capitania, por iniciativa de Manuel da Gama Lobo d'Almada.


"O Lobo d'Almada transfere a sede da capital de Barcelos para a Barra, o que acabou impulsionando fortemente esse núcleo urbano que já existia aqui. Construiu fábrica de tecido, fábrica de anil, prédios de repartições públicas. Só que por conta de brigas políticas, a capital acaba voltando para Barcelos e, por conta disso, o Lobo d'Almada acaba morrendo pouco tempo depois, por desgosto", relata Robério.


"O Lobo d'Almada transfere a sede da capital de Barcelos para a Barra, o que acabou impulsionando fortemente esse núcleo urbano que já existia aqui. Construiu fábrica de tecido, fábrica de anil, prédios de repartições públicas. Só que por conta de brigas políticas, a capital acaba voltando para Barcelos e, por conta disso, o Lobo d'Almada acaba morrendo pouco tempo depois, por desgosto", relata Robério.


Já em 1808, um novo alívio: o Lugar da Barra voltou a ser a capital da Capitania de São José do Rio Negro. Em 24 de outubro de 1848, o Lugar, que já tinha sido elevado a vila, se tornou a Cidade de Nossa Senhora da Conceição da Barra do Rio Negro. Finalmente, em 1856, com o Amazonas já transformado em província, a Barra do Rio Negro chegou ao seu nome definitivo: Manaus.

Uma mudança radical


A capitania outrora subordinada ao Grão-Pará se tornou província do Amazonas por lei imperial em 5 de setembro de 1850, porém só foi instalada em 1852. Com isso, a pequena Manaus começou a atrair expedições de pesquisadores que viam na Amazônia um lugar bucólico e repleto de riquezas naturais, como o casal de cientistas Louis e Elizabeth Agassiz, que chegaram à capital em 1866.


A Manaus vista pelo casal Agassiz não era, nem de longe, a cidade pujante que se conhece hoje. As ruas ainda eram alagadas. A capital da província se resumia aos bairros de São Vicente, Espírito Santo e da Imperatriz, que hoje compreendem toda a área do Centro de Manaus. O relato de Elizabeth Agassiz sobre a cidade é esperançoso.


"Que poderei dizer da cidade de Manaus? É uma pequena reunião de casas, a metade das quais parece prestes a cair em ruínas, e não se pode deixar de sorrir ao ver os castelos oscilantes decorados com o nome de edifícios públicos: Tesouraria, Câmara legislativa, Correios, Alfândega, Presidência. Entretanto a situação da cidade, na junção do rio Negro, do Amazonas e do Solimões, foi uma das mais felizes na escolha. Insignificante hoje, Manaus se tornará, sem dúvida, um grande centro de comércio e navegação".


A paisagem da capital só mudaria, definitivamente, a partir dos anos 1890, com a República já proclamada e a província transformada em Estado do Amazonas.


Antes parecida com uma pequena vila, sem saneamento básico, proliferação de doenças e sem planejamento urbano, Manaus passou a ter ares de uma cidade 'europeia' graças a ação do engenheiro militar Eduardo Gonçalves Ribeiro. Negro, maranhense, filho de uma ex-escrava, ele assumiu o governo pela primeira vez em 1891, sendo eleito, de fato, em 1892.


"Com o comércio da borracha, o Estado arrecadava muitos contos de réis a mais do que precisava para a manutenção de sua estrutura, o que fazia com que houvesse superávit. Ainda havia um plano de Taumaturgo de Azevedo de modernização da cidade. O Eduardo, então, observou esse plano, e como engenheiro militar, fez muito mais do que estava planejado”, conta Robério Braga.


É justo dizer que Manaus foi transformada pelo governador, porque a partir de 1892, a cidade virou um imenso canteiro de obras. A Avenida do Palácio e muitas outras ruas, como a Municipal, também foram abertas.


Construiu-se o Reservatório do Mocó, na Vila Municipal, que provia água saneada e tratada para toda a cidade, e o maior dos pontos turísticos da cidade, cujas obras estavam paradas desde 1884, foi erguido: o Teatro Amazonas, até hoje o cartão postal da cidade de Manaus e um dos teatros mais lindos do mundo. A cidade foi uma das primeiras do Brasil a ser dotada com energia  elétrica.


“Se hoje nós achamos a Eduardo Ribeiro larga, a imagine em 1892! Em 23 de julho, quando Eduardo Ribeiro assumiu o governo, o Teatro Amazonas estava com dois metros e meio de alvenaria e o resto inexistente, com um telhado de zinco cobrindo os ferros importados. Três anos depois, o Teatro, o Reservatório do Mocó, o Palácio da Justiça e até o projeto do Palácio do Governo estavam prontos”, lembra Braga.


A mudança de Manaus, no entanto, não foi apenas no campo arquitetônico. Eduardo Ribeiro foi o primeiro a pensar, de fato, na educação feminina, com o Instituto Benjamin Constant. Além disso, trabalhou na organização financeira e tributária do Amazonas, evitando o contrabando e cobrando impostos. Com as melhorias sociais e econômicas e reconhecimento público, Eduardo Ribeiro atraiu o ódio das oligarquias políticas tradicionais, como as famílias Nery e Antony.


“A administração de Eduardo Ribeiro fez girar toda a atividade econômica de Manaus. Bares, hotéis, restaurantes e até lupanares, que, querendo ou não, faziam parte da vida europeia que se queria para a cidade. Herdando toda essa atividade econômica, a cidade conseguiu resistir até 1924, com o declínio da borracha. Por todas as melhorias que ele fez, e por ter enfrentado as oligarquias militares, ele foi morto. Estudei a vida dele por trinta anos. Não há nada que não me faça crer que ele não foi assassinado”, diz Robério Braga.


A oposição a Eduardo Ribeiro veio apenas da famílias. Nos anos seguintes, essas oligarquias do Amazonas fizeram de tudo para, após a morte do político, em 14 de janeiro de 1900, apagar o seu nome da História. No entanto, a própria História lhe fez justiça. Seu nome está inscrito em lugar de honra do Teatro Amazonas, e dá nome à avenida mais movimentada do Centro de Manaus. Suas obras pela cidade demonstram a excelência de uma administração visionária e cosmopolita.

MANAUS SOB TIROS DE CANHÃO


Em 1910, a capital amazonense acordou sob tiros de canhão disparados por navios de guerra da Marinha do Brasil. O episódio, que ficou conhecido como "Bombardeio de Manaus", foi o mais emblemático da história manauense, mas até hoje permanece desconhecido da maioria da população.


"Havia um grupo político ligado ao senador e ex-governador Silvério Nery, que era vinculado ao senador Pinheiro Machado, do Rio Grande do Sul. Esse grupo estava se articulando junto ao presidente Nilo Peçanha para manter e satisfazer os interesses das oligarquias locais. Aqui, o Silvério tinha interesse pela candidatura de Antônio Sá Peixoto, embora o Antônio Bittencourt, que era o adversário, tivesse sido secretário de Estado dele", conta Robério Braga.


Em 5 de outubro de 1910, ciente da situação prestes a estourar no Amazonas, o Ministro da Marinha enviou um telegrama para o comandante da Flotilha do Amazonas, em mensagem cifrada, dizendo "Não, tenha prudência". "O intuito era defender os interesses do Silvério Nery, do Sá Peixoto e até do Pinheiro Machado, por isso que veio esse telegrama. Só que tiraram a vírgula, e a mensagem ficou 'Não tenha prudência'. No sábado, dia 8, a cidade amanheceu bombardeada", diz o historiador.


Bittencourt, com outros notáveis da época, como Adriano Jorge, se refugiou no Quartel da Polícia Militar, para pegar em armas e resistir. Mas temendo pela segurança do povo diante das forças federais, desistiu e renunciou ao governo. Pontos históricos ficaram completamente destruídos, como o Paço Municipal. Até hoje, as marcas dos tiros se veem no Mercado Municipal Adolpho Lisboa.

O DECLÍNIO DA BORRACHA


A partir dos anos 1920, Manaus começou a sentir os efeitos do declínio da economia da borracha. A cidade estava urbanizada, mas pouco a pouco, os serviços públicos e básicos, como água e energia, começavam a se degradar.


Diariamente, os jornais publicavam leilões públicos de bens móveis e imóveis. As famílias que aqui viviam começaram a migrar para Belém ou Rio de Janeiro. Pessoas com menos sorte voltavam para o interior do Estado.


"Era natural, porque a economia estava empobrecida. Com o esvaziamento dos seringais, as ruas da cidade começaram a se encher de pedintes nordestinos, doentes. As diversões foram reduzidas, o mundo literário foi esmagado. O Teatro ficou sem função e sem atividades. A vida cultural e social da cidade foi empobrecida e esmagada", afirma Braga.


Os anos de 1930, 1940 e 1950 foram marcados em Manaus por uma situação difícil. A cidade passou a sobreviver da indenização da venda do território do Acre e do comércio de produtos da floresta. Mesmo com a transformação natural, Manaus transformou-se em uma metrópole empobrecida.

Não experimentaria novo boom  econômico e nova vida senão a partir do ano de 1957, com a criação do Porto Franco de Manaus. Mesmo pequena, a iniciativa do Porto Franco era o primeiro passo para algo ainda maior: a Zona Franca de Manaus.

Arquivo / SEC

 

Borracha


Ao longo da história, Manaus sustenta um poder econômico pujante, principalmente a partir do ciclo da borracha que perdurou até meados da década de 1940. A manutenção desse status e o ápice se consolida com o nascimento da Zona Franca de Manaus, em 1957 por meio da Lei nº 3.173, que cria uma área de beneficiamento fiscal para atrair fábricas.


Mais tarde essa mesma área de beneficiamento fiscal foi ampliada para além das fronteiras do Amazonas em 24 de fevereiro de 1967, por meio do Decreto-Lei 288, alcançando outros estados da região Norte.


O decreto define-a no seu artigo 1º como “Uma área de livre comércio de importação e exportação e de incentivos fiscais especiais, estabelecida com a finalidade de criar no interior da Amazônia um centro industrial, comercial e agropecuário dotado de condições econômicas que permitam seu desenvolvimento”.


Na época de sua implementação legal, em 1957, o então presidente Juscelino Kubistchek, realizou o projeto como uma forma de levar desenvolvimento econômico e social para a região Norte - uma das menos povoadas do país - e melhorar a qualidade de vida da população. 


Com esse modelo até hoje são beneficiados os estados da Amazônia Ocidental, como Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima e Amapá, com a criação de três polos econômicos: indústria, comércio e agropecuária, em uma área de dez mil quilômetros quadrados.


No Polo Industrial de Manaus (PIM), as fábricas são atraídas pela isenção ou abatimento de impostos de produção, importação e exportação.


O Polo Comercial criou áreas de livre comércio em cidades estrategicamente localizadas próximos as zonas fronteiriças facilitando a importação de insumos e exportação da produção, como Tabatinga no Amazonas, Macapá/Santana no Amapá e Cruzeiro do Sul no Acre.


Cerca de 90% da produção do PIM é absorvida pelo próprio mercado interno brasileiro. Destacam-se produtos como motocicletas, televisores, celulares, condicionadores de ar, entre outros. Em 2014 o modelo foi prorrogado até 2073.


Desde a sua criação, até os dias atuais, a ZFM, cumpriu seu papel de ser o principal propulsor de desenvolvimento econômico da Amazônica brasileira, sendo os anos dourados do modelo na década de 80, quando alcançou o maior avanço no Polo Industrial de Manaus, apesar de os outros dois polos de agricultura e comércio não terem tido a mesma força.

Crise de 2016


O capítulo mais recente que envolve o modelo foi a chegada de uma das maiores crises econômicas que atingiram o Brasil e o Amazonas, levando os níveis de produção industrial do PIM a patamares preocupantes como queda de 6% na produção de 2016, considerado o auge da crise, queda no faturamento de 10%, e redução drástica no quadro de trabalhadores com a alta do desemprego, caindo de 120 mil trabalhadores para apenas 85 mil industriários.


O atual titular da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), Appio Tolentino, disse que a crise ainda não passou, mas a autarquia já a está superando.


“Passada a crise, este ano a gente já estava retornando para o ritmo de 2014, mas veio a greve dos caminhoneiros e deu uma retraída. A ZFM vem se recuperando, o Polo de Duas rodas e televisores já estão crescendo muito, o concentrado exportando”, detalhou.

Alternativas


Apesar de a ZFM ser o principal propulsor da economia amazonense, há quem diga que a região precisa criar outros meios de sustentabilidade financeira. 


Um dos maiores defensores e críticos construtivos do desempenho do modelo, deputado Serafim Corrêa, acredita que quando se depende só de um modelo, corre-se riscos. Para ele é necessário que se tenha várias alternativas econômicas. Corrêa lamentou que outras opções de polo econômico já tenham sido apresentadas, mas nunca implementadas. O turismo, segundo ele, é um modelo que o estado ainda não aprendeu a explorar.


A exemplo do projeto Parque Encontro das Águas, o último projeto que Oscar Niemayer concebeu, consiste em um observatório a partir da torre da Embratel, onde há a melhor vista de Manaus, para o encontro das águas.


“É algo muita lindo esse projeto. esse projeto precisaria de uma avenida de um quilômetro e fazer a obra, o projeto já está pronto e seria um investimento barato. Isso daria um impulso ao turismo local, todas as pessoas que visitassem Manaus, iam querer ter essa visão diferenciadas do encontro das águas, que hoje só é possível por avião”, detalhou.


Outra opção apontada pelo parlamentar seria explorar a mineração, precisamente a “Silvinita”, no município de Autazes. A exploração depende de uma energia de qualidade, que seria resolvido com a criação de uma subestação que leve energia para Autazes isso viabiliza o empreendimento da silvinha.


O deputado também citou a vocação do Amazonas para explorar a atividade portuária, em canais como o Rio Madeira, onde já passam três milhões de tonelada de soja por ano, além da duplicação da rodovia AM-010, que liga Manaus à Itacoatiara, que beneficiaria o escoamento da produção de Roraima.


 


"A ZFM sempre vai ser nossa primeira alternativa, mas nós precisamos de ter um colchão de outras atividades que equilibrem para que quando tenha um baque a gente não sinta tanto. Estamos atrasados nessas questões", completou Serafim.

Serafim Côrrea

Indústria


O vice-presidente da Federação das Indústria do Amazonas (Fieam), Nelson Azevedo criticou a falta de implementação da Nova Matriz Econômica. “Até agora isso não existe, enquanto não trouxerem a iniciativa privada, investidores para cá e os governos municipal e estadual sendo facilitadores desse processo e dar segurança jurídica aos investimentos”, detalhou.


Azevedo resgatou que o modelo ZFM deu outra vida para a cidade e Estado em todos os sentidos. “Está na hora de fazer uma união política no nosso estado, unir entre os estados do Norte para fortalecer o modelo e terceiro levar em frente a Nova Matriz com propostas para começo meio e fim par trazer investimos. Não é tirar a ZFM, mas complementar com base nas nossas potencialidades regionais mineração agricultura, sempre com sustentabilidade para mantermos a nossa Manaus”, disse. Azevedo.


Para a cidade Nelson desejou felicidades. “Que a gente tenha outros aniversários da cidade de Manaus e que ano que vem a gente saia do discurso e a pratica e traga a Nova Matriz econômica para o Amazonas”, completou o presidente da Fieam.


 

Ione Moreno / Em Tempo

 

Nos últimos 50 anos, após a implantação da ZFM e consequente chegada de migrantes em busca de emprego, além de êxodo do interior, a cidade passou por um crescimento extraordinário.


Para se ter uma ideia, no início da década de 70, quando a Zona Franca foi implantada, a população de Manaus era de 646.737 habitantes. Em 2018 esse número está quase quatro vezes maior.


O povo Baré cresceu e inchou desordenadamente. Segundo o IBGE em apenas um ano, de 2016 a 2017, a população aumentou em 35.873 pessoas, consagrando Manaus como a gigante da região Norte e sétima capital mais populosa do Brasil. Mas para onde vão todos esses novos manauenses?


A cidade não conseguiu acompanhar a demanda populacional, fazendo com que as famílias buscassem novas áreas para morar. Surgiram então os focos de invasão na capital.


Sem saneamento ou políticas assistenciais suficientes, essas famílias ocuparam desde as margens do rio até áreas preservadas por órgãos ambientais.


Sem preparo para abraçar todos os novos habitantes, Manaus se viu com falta de políticas públicas suficientes para manter uma estrutura de “megalópole” no lugar da calmaria que antes existia.


Manaus de milhões


Quase 50 anos depois, as ruas da capital ainda refletem esse despreparo mostrando infraestrutura e falta de condições de limpeza. O resultado de toda a desordem culmina em guerra entre facções, gerando medo e morte de inocentes no caminho.


O engenheiro, arquiteto e urbanista José Carlos Monteiro, de 52 anos, comenta que nenhum especialista poderia prever um aumento populacional tão grande na capital.


“É como se você construísse uma casa para três pessoas e de repente a família aumentasse para 20, lógico que haverá uma sobrecarga em todo o sistema”, aponta ele.


Carlos prevê que, se não houver uma mudança no modelo de crescimento demográfico sem planejamento, em 20 anos a cidade pode sofrer um colapso urbano severo.


Os problemas que já existem, aumentarão principalmente nas áreas da saúde, educação, mobilidade e saneamento. “A cidade não está preparada para o crescimento pelo qual está passando”, aponta ele.


Apesar da perspectiva para uma situação calamitosa, muitos ainda vêm do interior com uma esperança de encontrar melhoria de vida na capital. Esse é o caso do agente de segurança Charles Brito, de 32 anos. Charles nasceu em Coari (distante 362 quilômetros da capital), mas veio para a capital aos 25 anos, com pretensão de conseguir um emprego.


“Eu vim atrás de trabalho, pois fiz um curso na área de segurança do trabalho e não tinha perspectivas de trabalho na minha cidade ou em qualquer uma próxima”, conta.


Apesar de ter conseguido o emprego, a saudade da tranquilidade e da segurança da terra natal ainda persistem em Charles. “Se eu conseguisse trabalho perto da minha família não teria saído de casa para vir a Manaus, essa cidade está muito violenta. Diferente da minha terrinha onde todos se conhecem”, lamentou.


Violência urbana


Manaus está entre as 50 cidades mais violentas do mundo, segundo levantamento divulgado neste ano pela organização de sociedade civil mexicana Segurança, Justiça e Paz. A capital subiu 12 posições em dois anos ganhando o 34º lugar no ranking.


Nem sempre foi assim. A antiga “Paris dos Trópicos” já foi uma capital tranquila e pacata. Porém, o especialista em segurança pública e direitos humanos Divanilson Cavalcanti, aponta que “ como toda metrópole, Manaus cresceu e seus problemas floresceram junto com ela”.


Com o aumento das periferias, o tráfico de drogas tomou conta das ruas. Devido ao grande número de migrantes, não havia emprego para todos, fazendo com que a vida ilegal fosse atrativa para os menos favorecidos economicamente.


A localização da cidade como parte de uma das maiores rotas do tráfico de drogas em todo o país também favorece para que o crime organizado cresça.


As facções criminosas são algo da virada do século 21, quando presos de alta periculosidade tiveram contato com membros do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV). Até então, predominava em Manaus o tráfico familiar.


Segundo Divanilson, a capital passou do status de exportadora de drogas, para consumidora. Associado ao tráfico e os problemas de uma grande cidade, o crime e a insegurança implodiram.


Mas qual o caminho para recuperar o sentimento de segurança na população? Para o especialista, investir em políticas públicas diferenciadas por localidade. “Precisamos analisar o que pode ser

Janela para o futuro


Embora com tantos problemas, Manaus é a metrópole da Amazônia, uma cidade com potencial extraordinário. Com as constantes ameaças ao modelo da ZFM, várias frentes buscam novas alternativas econômicas. O investimento no turismo alternativo é uma das janelas que se abrem.


A capital tem sido porta do turismo e atraído principalmente estrangeiros. A cidade recebe aproximadamente 24 mil turistas a cada temporada de cruzeiros, em sua maioria, americanos, seguidos de ingleses e canadenses.


Mesmo em relação ao parque industrial, já há investimento na modernização da indústria. A indústria 4.0 é a alternativa já aplicada nos países desenvolvidos e que pode ser a salvação para o atual modelo da Zona Franca.


Segundo a estudante de PhD em Produção Industrial e Sistemas, Simone Sarges, a mudança será gradativa. “Muito já se fala, mas embora seja a solução, poucas são as empresas que terão condições de investir a curto e médio prazo em processos conceituais da indústria 4.0”, comentou.


Para que esse modelo evolua, é necessário investimento  em educação, pois a modernização exige pessoal especializado. “Esta mudança na indústria exigirá profissionais especialistas, novas formas e metodologias administrativas e lideranças além de novos processos de trabalho que serão desenvolvidas”, comenta Simone.


As perspectivas para Manaus são gigantescas. Ao longo da história a cidade mostrou que conhece o caminho da mudança e da reconstrução. Do alto de seus 349 anos, a Paris dos Trópicos aponta para o futuro, embalando o sonho de milhões de manauaras que acreditam nas possibilidades do maior estado da nação.