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    Após incêndio em Manaus, moradores choram perdas e buscam reconstrução

    'Sinto que perdi parte da minha alma', relata morador de comunidade devastada pelo fogo na Zona Sul de Manaus

    "Não tinha mais jeito. Tentamos baldes e mangueiras, mas não pudemos contra o fogo", contou um homem
    "Não tinha mais jeito. Tentamos baldes e mangueiras, mas não pudemos contra o fogo", contou um homem | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    Manaus - Lembranças de infância perdidas. Lugares de encontro e abrigo ficaram em ruínas de um dia para outro. Apesar do drama, essa é uma parte da realidade vivida pelas vítimas do incêndio que destruiu quase 600 casas no local conhecido como Favela do Bodozal, no bairro Educandos, Zona Sul de Manaus. 

    O desastre ocorreu na última noite de segunda-feira (17) e parte da madrugada desta terça (18), porém somente nesta manhã foi possível medir os danos reais, em que o cheiro de fumaça de material queimado ainda impregna o local. Pessoas que se aproximam para ver o que restou das moradias, assustam-se, com o cenário desolador. 

    No local, onde estavam casas de madeira e alvenarias, um grande buraco com fumaças tomou a vez
    No local, onde estavam casas de madeira e alvenarias, um grande buraco com fumaças tomou a vez | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    O contador Marcos Abensur, de 45 anos, ficou por minutos encarando o local, que marcou sua vida por mais de 20 anos. "Até os anos 80, o igarapé do Educandos era limpo e a gente tomava banho, pescava e brincava o dia inteiro. Era nosso balneário particular. Atravessávamos de canoa para o Teatro Amazonas. Era uma vista incrível", lembrou.

    Os quatro amigos de infância, Claudio Silva, de 59 anos, Renato Silva, de 46 anos, Isaac Coelho, de 63 anos, e Marcos, ao compartilharem lembranças, recordam que o cenário se transformou, apesar das lembranças de uma época em que a natureza era mais presente no local e menos degradada. 

    O quarteto de amigos estava reunido no barranco de escombros do incêndio
    O quarteto de amigos estava reunido no barranco de escombros do incêndio | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    Após a tragédia, Marcos revelou ter esperanças de reconstrução. "É duro  olhar para o lugar onde nascemos, crescemos e ver tudo destruído", completou. Cláudio também comentou sobre as vezes, em que voltavam depois das 18h para casa, quando crianças, e eram recebidos com palmadas pelas mães.

    "Essas ruas juntavam muitas histórias. No dia de Copa, na virada do Fim de Ano, enfeitávamos aqui. Era muito alegre, todos eram envolvidos. Sinto que perdemos parte da nossa alma. Vamos tentar superar isso. Agora, cada um precisa do suporte do outro", opinou.

    Relato de ex-morador que sempre encontrava amigos de infância nas ruas da Favela do Bodozal | Autor: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    "Não tinha mais jeito"

    Antes das chamas se espalharem, Marcos recebeu uma ligação da mãe pedindo ajuda para apagar o fogo. Ao chegar ao local, ele percebeu que não era um acidente isolado e chamou vizinhos e conhecidos para pegarem baldes e mangueiras. Sem sucesso, eles esperaram pela ajuda dos bombeiros.

    "Quando os bombeiros chegaram ainda passaram mais de uma hora sem água. Houve muitos contratempos. Eu sei que os moradores fizeram o que podiam, mas nós não tínhamos a mínima chance, o fogo era muito grande, não tinha mais jeito", lamentou.

    "A nossa rua era animada. Sempre a enfeitávamos no fim do ano", falou Cláudio, um ex-morador que sempre ia encontrar antigos amigos
    "A nossa rua era animada. Sempre a enfeitávamos no fim do ano", falou Cláudio, um ex-morador que sempre ia encontrar antigos amigos | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    Desabrigados de novo

    A venezuelana e cafeteira Solange Araújo, de 40 anos, sentada em frente à sua casa chorava a perda. Ela mora em uma residência de alvenaria, que não chegou a ser atingida pelo fogo. Questionada pela reportagem, explicou que, durante o tumulto, ladrões entraram e roubaram o pouco que conseguiu acumular desde a imigração.

    "Houve muito corre-corre quando o fogo começou a se espalhar. Peguei tudo o que pude e corri, com medo de também ter minha casa queimada. Quando voltei, vi que o incêndio não havia subido, mas minha casa estava vazia. Levaram geladeira, fogão, ar-condicionado e tudo mais que conseguiram", lamentou.

    A venezuelana Solange Araújo sentou em frente à sua casa e chorou pelos seus conterrâneos venezuelanos
    A venezuelana Solange Araújo sentou em frente à sua casa e chorou pelos seus conterrâneos venezuelanos | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    Ainda assim, ela respondeu que estava mais triste por causa dos amigos, também venezuelanos, que moravam mais embaixo no beco, que é uma ladeira de acesso à Favela do Bodozal.  Ela conta que duas famílias com crianças pequenas morando em um casebre de madeira, perderam tudo o que havia na casa.

    "Eu sei o que é perder uma casa. Parece que nós venezuelanos passamos a ser conhecidos por essas coisas. Saímos do nosso país para tentar uma vida melhor e acontece isso. Tudo o que restou foi a sandália do pé deles. Pegaram as crianças no colo e subiram o mais rápido que podiam, deixando tudo pra trás pela segunda vez".

    Na casa, Solange irá abrigar ao todo seis novas pessoas sem perspectiva de renda
    Na casa, Solange irá abrigar ao todo seis novas pessoas sem perspectiva de renda | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    Ela acrescentou que vai acolher os amigos em sua casa, mesmo não tendo alimentos o suficiente para todos. Uma placa de "vende-se dindin" destaca umas das formas de renda. da família, mas pretende dividir o pouco que tem. 

    Diversas instituições públicas e privadas se reuniram para arrecadar todo tipo de doações para as famílias desabrigadas. A prefeitura concentrou o ponto de encontro de algumas doações na Casa Militar, na avenida Padre Caballero, Compensa, Zona Oeste.

    O Em Tempo preparou uma lista com algumas entidades que estão recebendo doações, podendo ser encontrada aqui.

    Famílias desabrigadas passaram o dia na fila do cadastro social
    Famílias desabrigadas passaram o dia na fila do cadastro social | Foto: Nícolas Daniel Marreco/Em Tempo

    Edição: Isac Sharlon

    Confira a reportagem da TV Em Tempo:

    Confira a reportagem | Autor: TV Em Tempo

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