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    Imigrantes venezuelanos


    Imigrantes venezuelanos: vítimas inocentes de uma guerra suja

    Desde que a economia da Venezuela começou a ruir em 2014, começaram a surgir nas ruas de Manaus mães refugiadas com seus filhos no colo pedindo ajuda para comprar o que comer

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    Foi a imagem dramática de uma menina vietnamita de 9 anos de idade correndo nua com a pele em carne viva, queimada com explosivo napalm, que acabou com a guerra do Vietnã. O bombardeio norte-americano ao inofensivo vilarejo aconteceu no dia 8 de junho de 1972. Em nome do combate ao comunismo, os Estados Unidos massacraram guerrilheiros, crianças, mulheres e velhos — sem distinção. Os ataques não eram nada cirúrgicos. Entre as vítimas do bombardeio de napalm, há 47 anos, estava a menina Kim Phuc Phan Thi, de 9 anos. A fotografia, que comoveu o mundo e chamou a atenção da humanidade de que estava na hora de acabar com aquela guerra suja, foi feita pelo fotógrafo Huynh Cong “Nick” Ut, da Associated Press. Nick acabou ganhando o prêmio Pulitzer, e sua fotografia, comprovou que a imagem às vezes é mesmo decisiva. Independentemente de palavras, pôs fim à guerra. "

    Mário Adolfo, Jornalista


    Mãe venezuelana tenta sobreviver com filho doente pelas ruas de Manaus
    Mãe venezuelana tenta sobreviver com filho doente pelas ruas de Manaus | Foto: Ione Moreno

    “Essa obrigação não é minha. O governo não permite a invasão pela fronteira? Então ele que cuide! Já tem muito pobre amazonense pra gente cuidar”, diz, indignada, a condutora de um Honda Civic, levantando o vidro do veículo logo em seguida.

    O que a moça bonita e outros intolerantes não sabem é que o Brasil é signatário das principais normas internacionais de proteção aos refugiados, bem como às crianças. A Constituição Brasileira considera ser dever do Estado, da sociedade e da família a garantia às crianças, com absoluta prioridade dos direitos indispensáveis à sua existência e desenvolvimento dignos. O Estatuto da Criança e do Adolescente, ao regulamentar a previsão constitucional, estabeleceu verdadeiro microssistema de proteção às crianças, consolidando a doutrina da proteção integral. Não obstante, inexiste na legislação brasileira qualquer menção a uma proteção especial de crianças, quando estas se enquadrarem na definição de refugiados.

    Mulheres venezuelanas e crianças tentam sobreviver com filhos pelas ruas de Manaus
    Mulheres venezuelanas e crianças tentam sobreviver com filhos pelas ruas de Manaus | Foto: Ione Moreno

    Sofrimento pelas ruas

    São 8h45 de quarta-feira (15), na ruela que leva até ao supermercado Assaí, na avenida Efigênio Sales, Zona Leste de Manaus., chove forte, e uma Venezuela procura se abrigar com um filho pequeno debaixo de um pedaço de caixa de papelão. De dentro do carro, tento me aproximar para uma possível entrevista. Ela faz o sinal de não com o dedo, como se perguntasse “por que você quer alardear ainda mais o meu sofrimento?”.

    Na quinta-feira (16), manhã nublada, voltei para tentar reconstruir o passo a passo dessa tragédia, que tanto incomoda quem tem um mínimo de sensibilidade e entende o significado da palavra solidariedade. Em companhia da fotógrafa Ione Moreno, seguimos pela Avenida das Torres e nos deparamos com dezenas de mães no meio fio da extensa estrada. Uma delas exibe uma placa pintada com letras toscas em um pedaço de papelão a inscrição em espanhol “Eu venezolana procuro trabajo de você. tengo filhos. Jeohova Dios es fiel”.

    Mãe venezuelana tenta sobreviver com os filhos pelas ruas de Manaus
    Mãe venezuelana tenta sobreviver com os filhos pelas ruas de Manaus | Foto: Ione Moreno

    Na mesma calçada, uma mulher procura abrigar com um pequeno pedaço de pano duas crianças. É Saray Benjamin, 30, que tem cinco filhos: os gêmeos Aristides e Aisha, de 02 anos; e mais três de 6, 12 e 14 anos, que estão com o pai em casa – um quarto alugado no bairro do Coroado, Aleixo. Um dos gêmeos, Aristides, está com febre alta e uma tosse que não para. O peito ronca de secreção. Mesmo assim fica exposto ao frio, chuva, sol e mormaço, dependendo do clima imprevisível de Manaus.

    “Além da luta para conseguir o que comer, não temos remédios e isso me preocupa, porque pode ser uma doença mais grave”, lamenta Saray, que, com o marido e os meninos, vieram de Ciudad Guyana, a cidade mais povoada do Estado Bolívar e do Município Caroní, na Venezuela.

    Mulheres venezuelanas pedem por ajuda no centro de Manaus
    Mulheres venezuelanas pedem por ajuda no centro de Manaus | Foto: Ione Moreno

    Fundada nos ano 1960, Guyana (a 700 Km de Caracas) era o sonho de Hugo Chávez (falecido em 2013 após 14 anos no poder) , que, acreditando poder usar o dinheiro dos recursos naturais para industrializar a Venezuela, expropriou as empresas de capital espanhol em 2010, e o estado de Bolivar mergulhou na crise.

    “Sem emprego, sem ter dinheiro pra comer e, se tivesse, não haveria produtos para comprar, a única saída foi abandonar o país e se aventurar na estrada”, conta Saray, que atravessou a fronteira com seus filhos para Boa Vista (RR), onde pegou carona com caminhoneiros, até chegar a Manaus.

    “A vida tem sido difícil, é verdade. Mas, diante do inferno de Maduro, isto aqui é o paraíso”, diz a mulher.

    Mãe venezuelana nas ruas de Manaus
    Mãe venezuelana nas ruas de Manaus | Foto: Ione Moreno

    Alguns passos dali, Loelimar Olivar, 26, diz que, até aquela hora, seu filho de 04 anos não se alimentou. “Às vezes conseguimos algum dinheiro, mas em alguns dias é difícil”, diz a venezuelana, revelando que, “nos dias bons”, é possível arrecadar até R$ 15 na base da solidariedade do manauara.

    Olivar veio de Tucupita, a capital do estado de Delta Amacuro, na Venezuela, onde onde vive a maioria dos nativos Warao. A indígena diz que ainda alimenta sonhos de voltar à Venezuela.

    “Mas vai ser uma longa espera, porque Maduro resiste e não deverá cair tão cedo”, comenta, sem muita esperança, Loelimar, sem saber que Nicolás Maduro lançou a sua campanha à reeleição em um ritual xamânico, que incluiu bênçãos e rezas em nome de Deus e de Hugo Chávez, com a promessa de tirar a economia do país do atoleiro. Mas parece que os guias e mentores espirituais não ouviram o ditador. O país continua castigado pela hiperinflação, pela escassez de alimentos, de remédios e de produtos básicos.

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