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    Manaus 350


    De vila a metrópole: um passeio pela história de Manaus

    De tapera dos Manaós à metrópole amazônica, a capital manauara tem muitas histórias a contar

    Ilustração do viajante Paul Marcoy das ruínas da Fortaleza da Barra do Rio Negro, por volta de 1847 | Foto: Reprodução

    Manaus - Completando seus 350 anos, Manaus, como toda boa cidade, tem muitas histórias para contar. Nascida de um forte de barro e pedra acima do encontro do rio Negro com o Solimões, a capital amazonense celebra mais um ano de uma trajetória que vale a pena conhecer. 

    Com a ajuda do historiador Francisco Jorge dos Santos, o EM TEMPO faz um passeio pela história da cidade dos nobres Barés e desvenda os acontecimentos que tornaram essa terra a metrópole da Amazônia.

    Era uma vez um forte

    Manaus teve seu início em torno de uma fortaleza construída para reafirmar o domínio português por essas terras. A fortaleza, chamada São José da Barra do Rio Negro, surgiu em um contexto de caça aos povos indígenas da segunda metade do século XVII, segundo o historiador Francisco Jorge dos Santos. “Ainda não se encontrou uma documentação que determine com precisão a data desse fato, no entanto, estamos de acordo com os antigos cronistas e autores modernos que convencionaram o ano de 1669 para a sua fundação dessa ‘fortaleza’. Apenas o ano, sem mês e sem dia”, relata o historiador.

    O lugar em que a fortaleza foi erguida era o ponto máximo que os portugueses haviam atingido até então à oeste. Durante uma expedição à região, foram encontrados armamentos europeus entre os índios, em especial armas holandesas. Isso alarmou os portugueses. O governador e capitão-general do Estado do Maranhão e Grão-Pará, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, mandou guarnecer a embocadura do rio Negro. 

    Foi em torno da fortaleza que um povoamento nasceu, formado principalmente por índios Baniwas, Barés e Passés. Uma tribo chamada Manaós - que deu origem ao nome da cidade - também estava presente. Eles vinham descidos dos rios Içana, Japurá e Solimões.

    Seria apenas na segunda metade do século XVII que esse povoamento de índios passaria à categoria de Lugar, o Lugar da Barra do Rio Negro, e no final desse mesmo século tornaria-se sede provisória da Capitania do Rio Negro, sob o governo de Manoel da Gama Lobo d’Almada.

    De vila à cidade

    Oficialmente, a Vila de Barcelos continuava a ser a sede  da Capitania do Rio Negro, conta Francisco. Ainda no período colonial, a povoação que cercava a fortaleza não foi elevada à vila. Foi só em 1833 que o Conselho Provincial do Pará dividiu a província paraense em três comarcas, Grão-Pará, Baixo Amazonas e Alto Amazonas. Com a reforma, o Lugar da Barra do Rio Negro foi elevado à categoria de Vila, com o nome de Manaus, sede da Comarca do Alto Amazonas. “Oficialmente, não existiu uma Vila da Barra”, explica Francisco. 

    Pela lei nº 145 de 24 de outubro de 1848, a Vila de Manaus tornou-se cidade com o nome Nossa Senhora da Conceição da Barra do Rio Negro. Só em 1856 a cidade viria a ser chamada “Manaós” (Mãe dos Deuses) - em homenagem à nação indígena do médio Rio Negro, conhecida pela coragem e valentia. “Muito importante na Amazônia no período colonial, naquelas alturas, no tempo em que foi homenageada, já não mais existia, pelo menos oficialmente. Manaó, Manaós, Manáos, Manáus ou Manaus, apenas uma questão de grafia de cada época”, diz Francisco. 

    Daquele forte de onde nasceu Manaus, conta o historiador, sobraram apenas ruínas.

    A província de Manaus fotografada por Albert Frisch em 1865
    A província de Manaus fotografada por Albert Frisch em 1865 | Foto: Reprodução

    A bela época de Manaus: borracha, luxo e progresso

    Com a extinção do Império e a transformação da Província do Amazonas em Estado, Manaus virou capital. A partir do final da década 1870, teria início um dos períodos econômicos mais prósperos da história do país e que traria um progresso extraordinário para região, especialmente a então modesta capital amazonense. 

    A demanda cada vez maior das indústrias mundiais por borracha, da qual o Amazonas era o maior produtor foi o norte da economia do Estado à época. Deu-se início uma intensa transformação na própria essência de Manaus, a começar pela migração de nordestinos e brasileiros de outras regiões, assim como imigrantes estrangeiros. 

    “A grande migração de nordestinos para a Amazônia influenciou significativamente a cultura local, sobretudo na massificação da língua portuguesa. A conquista do território do atual Estado do Acre também foi bastante significativa”, afirma Francisco. O ciclo da borracha atingiu seu auge entre os anos 1890 e 1910, a chamada ‘época áurea’. 

    Teatro Amazonas, atual cartão-postal da cidade
    Teatro Amazonas, atual cartão-postal da cidade | Foto: Reprodução/SEC

    Em 1892, o maranhense Eduardo Ribeiro - figura emblemática na história de Manaus e do Amazonas - assumiu o governo do Estado e impulsionou uma verdadeira transformação na metrópole da borracha. 

    Sob a administração de Ribeiro, foram construídos prédios que são cartões postais de Manaus: o Teatro Amazonas, o Reservatório do Mocó e o Palácio da Justiça. Com a fortuna da borracha, também seriam edificados o Palácio Rio Negro, o Palacete Provincial e o Mercado Adolpho Lisboa. Todos prédios influenciados pelo estilo europeu.  

    “A conseqüência mais importante do boom da borracha foi a transformação da cidade de Manaus de uma vila sonolenta para uma cidade cosmopolita e moderna, como dizem por aí: da ‘Tapera dos Manaos à Paris dos Trópicos’”, resume Francisco Jorge dos Santos.

    Bonde na Avenida Eduardo Ribeiro na belle époque amazônica
    Bonde na Avenida Eduardo Ribeiro na belle époque amazônica | Foto: Reprodução/Biblioteca Nacional Digital

    Declínio e anos de crise

    O fim da hegemonia da Amazônia no mercado mundial da borracha pode ser datado em 1910, relata o historiador. Nos primeiros meses daquele ano, a Bolsa da Borracha foi estabelecida com um serviço telegráfico direto com a Bolsa de Londres. No entanto, em maio de 1910, os comerciantes e homens de negócio seriam surpreendidos com o declínio vagaroso, mas constante, do preço da borracha brasileira, que levaria o Amazonas e sua capital a uma profunda estagnação econômica.

    No fim de 1910, os barões da borracha já compreendiam que o período áureo estava terminando.

    A situação era tão grave no começo da década de 1920 que o governo do Amazonas não tinha como saldar suas contas nem mesmo quitar a folha de pagamento dos funcionários públicos. O então governador, César do Rego Monteiro, tentou um vultoso empréstimo nos Estados Unidos, dando como garantia aos norte-americanos parte das terras do Amazonas. Foi um verdadeiro escândalo político e o empréstimo não foi efetivado. Mas outras intervenções estrangeiras teriam sua vez nessas terras, como o Projeto Fordlândia para o cultivo racional de seringueiras e o estabelecimento de colônias japonesas no Pará e no Amazonas.

    Manaus, abandonada e em decadência, viveu as décadas de 1930 a 1950 um marasmo. Durante a Segunda Guerra Mundial, a economia da borracha teria uma breve sobrevida com o consórcio que ficou conhecido como Batalha da Borracha. Apenas em 1957 uma iniciativa levaria Manaus e região a uma retomada econômica, dessa vez baseada na indústria.

    ZFM, crise e futuro

    A fábrica da Moto Honda na década de 1970
    A fábrica da Moto Honda na década de 1970 | Foto: Reprodução/Arquivo ACA

    A Zona Franca de Manaus nasceu em 1957 e foi aperfeiçoada 10 anos depois para incluir outros estados da região Norte. Baseada em uma área de beneficiamento fiscal para atrair fábricas, a ZFM é definida em seu decreto como “uma área de livre comércio de importação e exportação e de incentivos fiscais especiais, estabelecida com a finalidade de criar no interior da Amazônia um centro industrial, comercial e agropecuário dotado de condições econômicas que permitam seu desenvolvimento”.

    Juscelino Kubistchek, presidente à época da implantação legal da Zona Franca, projetou-a para levar desenvolvimento econômico e social à região Norte. Estados como Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima e Amapá são beneficiados até hoje com o modelo. 

    Para muitos economistas, a Zona Franca deu uma ‘cara’ ao Brasil, mostrando que o país tem força no cenário industrial. O modelo permanece como o principal propulsor econômico da Amazônia brasileira. Produtos como motocicletas, televisores, celulares, condicionadores de ar, entre outros, são fabricados no polo manauara. No ano passado, a ZFM faturou mais de R$92 bilhões. 

    No entanto, mesmo com garantia legal até 2073, não são poucas os desafios que o modelo enfrenta. Várias são as investidas recentes contra a ZFM, de críticas de ministros do governo federal a frentes parlamentares exigindo o fim das vantagens do PIM. Em 2016, a crise econômica que assolou o país também assombrou a indústria manauara, com queda dos níveis de produção industrial, número de trabalhadores e faturamentos. O abalo e as críticas põem de novo em cheque a dependência de Manaus desse meio de sustentabilidade financeira.

    Com uma história marcada por luta, sangue, crises e apogeu, Manaus completa 350 anos sendo, ainda, a metrópole da Amazônia, lar de mais de 2,18 milhões de habitantes, encantos naturais que só ela possui e desafios presentes cujas soluções moldarão seu  futuro.

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