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    Umariaçu


    Abandono causa doenças e onda de homicídios em comunidade indígena de Tabatinga

    Os índios relatam falta de saneamento básico, assistência médica problemática e total ausência de policiamento

    O pólo de saúde não funciona aos fins de semana | Foto: Diego Caja

    Apenas 10 minutos de uma estrada de barro separam a comunidade indígena Umariaçu da sede do município de Tabatinga, no interior do Amazonas. Mas a impressão de quem visita a  tribo é que o lugar fica a dezenas de quilômetros da cidade. Por lá, cerca de 8 mil Ticuna sofrem há anos com a falta de saneamento básico, atendimento médico e segurança.

    Segundo o vice-cacique Deoclécio Vieira, de 56 anos, a maior parte da comunidade não recebe água encanada há mais de duas décadas. “A água chega em poucas casas, a maioria não recebe. Quem recebe divide com os vizinhos, todo mundo da rua e mais um pouco”, afirma ele.

    O vice-cacique da Umariaçu, Deoclécio Vieira
    O vice-cacique da Umariaçu, Deoclécio Vieira | Foto: Diego Caja

    A maioria dos indígenas trabalha com agricultura, entretanto, poucos possuem condições financeiras para investir em um poço artesiano. Quem não consegue, é refém da água contaminada pelo barro que forma as ruas da comunidade. De acordo com o vice-cacique, as crianças da tribo sofrem com doenças e disenterias provenientes do consumo de água suja.

    Problemas de saúde

    O atendimento médico da comunidade é realizado no Pólo Base instalado no local pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde. Mesmo assim, quem é atingido por doenças mais graves que uma disenteria tem problemas para ser adequadamente socorrido.

    É o caso do agricultor Gustavo Ferreira, de 63 anos, que sofre há cinco anos com pedras na vesícula. Para descobrir a origem de suas dores, o indígena precisou ir a um médico particular na cidade colombiana de Letícia. “Aqui no Umariaçu não tem médico à noite”, explica ele. “Quando sinto muita dor, vou para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) em Tabatinga e tomo injeção, aí passa a dor”.

     O barro das ruas polui a pouca água que chega à comunidade
    O barro das ruas polui a pouca água que chega à comunidade | Foto: Diego Caja

    Outro problema de saúde que os indígenas enfrentam em situações de emergência é a falta de ambulâncias que, apesar da proximidade entre a tribo e a sede do município, não chegam à comunidade. A situação se agrava nos fins de semana. Uma placa na entrada do Pólo de Saúde com as escalas do mês deixa claro que ninguém fica de plantão na unidade aos sábados e domingos. “Quem adoece na sexta tem que esperar até segunda para ser atendido”, lamenta Gustavo.

    Através de nota, o Ministério da Saúde afirma não haver falta de medicamentos ou desassistência médica no Pólo Base de Umariaçu. De acordo com a assessoria, a unidade possui equipes de saúde que atendem em quatro micro-áreas da comunidade indígena. O Ministério explica que o pólo base não possui alojamento para manter as equipes 24 horas por dia. Em caso de emergências, os indígenas devem procurar apoio do Samu de Tabatinga para a remoção de pacientes durante a noite, fins de semana e feriados.

    Segurança Comunitária

    Além de uma saúde problemática, a tribo Ticuna também sofre com a ausência de policiamento na região. O álcool e outras drogas vêm da sede de Tabatinga e causam sérios problemas entre os indígenas. O vice-cacique conta que muitos jovens entram em brigas e matam uns aos outros. “A polícia não entra aqui. Já perdemos muitos jovens por causa dessa falta de segurança”, afirma.

    Cansados de pedir segurança aos órgãos públicos, os indígenas criaram o próprio patrulhamento. Trata-se da “Segurança Comunitária”, um grupo de 45 índios do Umariaçu que fazem rondas na comunidade de quinta a domingo, a partir das 22h. Andando pelas ruas com uniformes personalizados, os patrulheiros orientam jovens que consomem álcool, evitam brigas e minimizam a violência na aldeia.

    Edmar Gabriel, de 27 anos, é um dos voluntários da patrulha. Ele descreveu o que considera o maior causador de problemas de segurança na comunidade. “O pessoal daqui briga entre eles mesmos. Bebe, briga e acaba furando um ao outro”, explica. “A polícia não entra aqui, por isso formamos esse grupo de segurança, para tentar minimizar esses casos, orientar esses jovens”.

    Os próprios Ticuna fazem patrulha para evitar homicídios
    Os próprios Ticuna fazem patrulha para evitar homicídios | Foto: Diego Caja

    Apesar da origem das bebidas ser a zona urbana de Tabatinga,  O antropólogo Cristian Pio Ávila alerta que apontar a cultura branca como vilã do problema de alcoolismo entre os jovens Ticuna pode ser uma análise simplista. O especialista acrescenta que medidas poderiam ser tomadas para evitar que a produção industrial de bebidas alcoólicas e a distribuição em larga escala facilite demais o acesso dos indígenas ao álcool.   

    “Existem estratégias em comunidades indígenas que proíbem consumo e venda desses produtos. Dessa forma, quem vende bebidas alcoólicas perto das comunidades passa a cobrar um preço muito alto", explica ele.

    Em alguns lugares, uma garrafa pequena de cachaça pode custar até R$ 70, isso inibe a procura de álcool entre os jovens indígenas. "Desse forma pode-se combater justamente o que facilita o acesso ao álcool, a produção intensa e o regime industrial de distribuição”, afirma o antropólogo.

    Decisão judicial

    Em 2015, a Justiça Federal de Tabatinga atendeu ao pedido do Ministério Público Federal do Amazonas (MPF/AM) e determinou que as comunidades Umariaçu e Umariaçu II recebessem policiamento ostensivo. A decisão judicial aconteceu após frequentes denúncias de casos de violências na região. Os indígenas que moram nas comunidades, porém, contam que a presença policial na comunidade é inexistente.

    Até o fechamento desta matéria, a Polícia Militar do Amazonas, procurada através de diversos meios de comunicação, não se posicionou sobre o patrulhamento na área indígena.

    Guerra por direitos

    Jovem Ticuna faz pinturas indígenas usadas em guerras
    Jovem Ticuna faz pinturas indígenas usadas em guerras | Foto: DIEGO CAJA

    Saindo da comunidade, a equipe de reportagem do EMTEMPO teve as atenções tomadas por um jovem que fazia pinturas típicas da etnia Ticuna em sua pele. Perguntado sobre o significado dos desenhos, ele respondeu que se preparava para a guerra.

    O índio conselheiro da tribo disse que viajaria a Manaus com um pequeno grupo para reclamar direitos como saneamento básico, saúde e segurança, que são garantidos por lei a todos os cidadãos, genuinamente, brasileiros.

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