Fonte: OpenWeather

    Especial Municípios


    Terra das índias Ycamiabas, Nhamundá completa 63 anos de existência

    Conhecida como "Ilha Bela da Amazônia", terra onde se localiza o município foi campo de batalha entre espanhóis e índias. Município fica localizado a 381 quilômetros da capital Manaus

    Município de Nhamundá foi palco de uma guerra entre o explorador Frei Gaspar de Carvajal e as índias Yacamiabas em 1542 onde as índias saíram vencedoras | Foto: Malika Dahil

    Município de Nhamundá foi palco de uma guerra entre o explorador Frei Gaspar de Carvajal e as índias Yacamiabas em 1542 onde as índias saíram vencedoras
    Município de Nhamundá foi palco de uma guerra entre o explorador Frei Gaspar de Carvajal e as índias Yacamiabas em 1542 onde as índias saíram vencedoras | Foto: Malika Dahil

    Nhamundá - A margem direta do Rio Amazonas abriga uma ilha lendária, banhada por um caudaloso rio, de cor escura, mesma ilha que hoje dá nome ao município de Nhamundá. A localidade guarda o acontecimento histórico, que deu nome ao estado do Amazonas, o encontro entre espanhóis e grandes índias guerreiras, tais como as amazonas narradas na mitologia grega. 

    O embate na expedição do desbravador espanhol Francisco Orellana, em viagem pelo Amazonas e o encontro do lugar místico de mulheres, conhecidas como Ycamiabas (mulheres guerreiras) foi descrito historicamente em 1542 e relatado por Frei Gaspar de Carvajal. Na narrativa, as mulheres guerreiras da tribo vencem os exploradores, embora muitas tenham sido mortas.

    A atual cidade amazonense de Nhamundá, cujo aniversário se comemora nesta quinta-feira (31), apesar de ter uma história muito antiga, completa oficialmente 63 anos de existência.

    O município de Nhamundá, distante 381 quilômetros de Manaus por via fluvial, possui uma população de quase 22 mil habitantes, numa área de de 14.334 km². Antes de ser reconhecida como município, passou por vários processos até ganhar independência.

    Leia também: Urucurituba, a 'Princesinha do Médio Amazonas' completa 42 anos

    Em 1758 foi elevada a categoria de vila. Em 1911, apareceu na divisão administrativa do Brasil, como integrante do Município de Parintins (distante 368,82 KM de Manaus por via fluvial) e  em seguida, distrito de Jamundá  (extinto em 1933). Somente em 19 de dezembro de 1955, a ilha foi desmembrada de Parintins e se transformou no município autônomo de Nhamundá, porém a cidade só passou a existir oficialmente dia 31 de janeiro de 1956, data em que o primeiro prefeito da cidade, tenente Pedro Macedo de Albuquerque ,foi nomeado pelo então governador do Estado do Amazonas, Doutor Plínio Ramos Coelho. 

    Economia

    A cidade de Nhamundá vive do setor primário, sendo a produção agrícola, a farinha artesanal e a pecuária, as principais atividades econômicas. Rebanho bovino também está presente na região. Porém, a agricultura de subsistência, como o cultivo de mandioca para a fabricação da farinha, destaca-se entre os ribeirinhos locais.

    No mês de setembro, o destaque é para a pesca do tucunaré. A cidade ganhou um festival de pesca esportiva que é realizado durante 72 horas. No evento, várias atividades são realizadas, com atrações musicais e a escolha da garota Tucunaré.

    A  Festa da Pesca do Tucunaré é realizado no mês de setembro no município de Nhamundá
    A Festa da Pesca do Tucunaré é realizado no mês de setembro no município de Nhamundá | Foto: Miguel Amorim /João Dias

    De acordo com o funcionário público e nhamundense Jander Azevedo, 66 anos, o evento da pesca esportiva foi criado em 1983 pelo prefeito da época. "Paulo Albuquerque teve iniciativa, afinal Nhamundá é o berço do peixe tucunaré, mas apenas em 1989 é que ela ganhou impulso. Além das modalidades de pesca, vieram outros esportes. A festa conta ainda com com atrações nacionais, exposição de artesanato, tudo isso durante três dias. Há também a escolha da 'Garota Tucunaré".

    A  Festa da Pesca do Tucunaré realizada no mês de setembro escolhe a garota Tucunaré para representar a beleza do município
    A Festa da Pesca do Tucunaré realizada no mês de setembro escolhe a garota Tucunaré para representar a beleza do município | Foto: Reprodução/ Facebook

     Turismo

    Cidadezinha acolhedora e charmosa, Nhamundá possui belas praias com areias brancas e paisagem Amazônica, com altas árvores frutíferas, repletas de cores. As praias, atração à parte, são o orgulho dos nhamundenses, frequentadas principalmente nos intensos verões amazônicos. Em feriados, para comemorar dias santificados pela igreja católica, destacam a religiosidade da ilha. Em junho comemora-se o padroeiro de Nhamundá, Santo Antônio. A cidade tem como padroeira Nossa Senhora de Assunção. Em homenagem a santa, foi construída a "Praça Nossa Senhora de Assunção", onde são comemorados os festejos religiosos.

    Praias de Nhamundá

    O principal ponto turístico de Nhamundá é a Praia da Liberdade, localizada no bairro Gilberto Mestrinho, numa área é de 30 mil metros. No complexo, o turista pode encontrar dois anfiteatros, quadra esportiva e os populares chapéus de palha. No local também é realizado no mês de setembro a "Festa da Pesca ao Tucunaré", considerada a maior festa de praia do Baixo Amazonas.

     Praia da Liberdade é o principal ponto turístico da cidade de Nhamundá
    Praia da Liberdade é o principal ponto turístico da cidade de Nhamundá | Foto: Wanner Souza

    A “Ponta das Pedras”, outra praia famosa em Nhamundá, mais parece um cenário cinematográfico. Com linda paisagem, contém rochas naturais cercadas por uma pequena praia, no centro da cidade.

    Ponta das Pedras, é uma praia localizada no centro da cidade de Nhamundá- AM
    Ponta das Pedras, é uma praia localizada no centro da cidade de Nhamundá- AM | Foto: Miguel Amorim /João Dias

    Praia não falta na bela Nhamundá. A Ilha do Papagaio, como o próprio nome já diz, abrigava na década de 40, uma quantidade considerável dessa espécie de ave. Infelizmente, com o avanço da população, as espécimes deixaram o local. Na verdade, a praia é formada por duas ilhas a oeste da cidade de Nhamundá. Na época de vazante do rio, as duas ilhas juntam-se, formando uma só, com 1.200 metros de comprimento. 

    O lugar mais misterioso do município e ainda pouco explorado é o "Espelho da Lua", às margens do rio Nhamundá. Moradores da região dizem que o lugar foi a morada das índias. No local eram confeccionados os famosos Muiraquitãs (espécie de amuleto feito de barro e argila com formato de sapo, símbolo da fertilidade).

    Moradores de Nhamundá contam que a praia Espelho de Lua foi mroada das índias Yacamiabas
    Moradores de Nhamundá contam que a praia Espelho de Lua foi mroada das índias Yacamiabas | Foto: Wanner Souza

    Para se chegar até a ilha é preciso se deslocar por via fluvial. Chega-se em 40 minutos. Com areia branca ao redor de todo o lugar, o banhista encontra árvores nativas e frutíferas como: açaizeiros, bacabeiras, patauazeiros, buritizeiros, coqueiros, ingazeiros e madeiras nobres diversas. A ilha promete ser uma bela aventura para exploradores.

    A nhamundense Ana Paula D’Antona, de 29 anos, saiu de Nhamundá para estudar na capital amazonense, mas retorna  pelo menos duas vezes ao ano para visitar à cidade. "Eu chamo Nhamundá de minha menina, tenho muito amor e carinho por ela, apesar de ser mais velha que eu. Considero uma cidade desenvolvida, limpa, com praias lindas, pessoas maravilhosas, uma cidade alegre. Eu comparo a cidade como um bairro, onde todos se conhecem. Nós jovens, comemoramos o novo ano na Praia da Liberdade", 

    Ana Paula D’Antona tem 28 anos, nhamundense e descreve o município de Nhamundá como um grande bairro
    Ana Paula D’Antona tem 28 anos, nhamundense e descreve o município de Nhamundá como um grande bairro | Foto: Reprodução

     Lenda das Ycamiabas

    A região de Nhamundá é até hoje marcada pela lenda das mulheres guerreiras que viviam no Amazonas. A história, que alguns consideram lenda, sobrevive, após relatos históricos de expedições de exploradores que navegaram pelo Rio Amazonas, por volta de 1500, época do descobrimento do Brasil.

    Segundo a lenda, existiam mulheres que andavam a cavalo manipulando arco e flecha com grande habilidade e se recusavam a viver com os homens em suas terras. Elas ficaram conhecidas como as Amazonas, guerreiras que enfrentavam os homens.

    De acordo com as narrativas, elas seriam altas, brancas, possuíam cabelos compridos em tranças dobradas no topo da cabeça, segundo a descrição do Frei Gaspar de Carvajal, também escrivão da frota.

    O professor doutor Auxiliomar Silva Ugarte, um estudioso do expedicionário Francisco Orellana, afirma que de fato o encontro aconteceu.

    “No caso do encontro/confronto entre as índias guerreiras e os espanhóis capitaneados por Francisco de Orellana, a batalha ocorreu no dia 24 de junho de 1542. Essas índias guerreiras, entre 10 e 12 mulheres, aparentemente estavam em posição de comando dos muitos índios guerreiros que combateram os espanhóis. Segundo uma versão do relato de frei Carvajal, essas mulheres eram tão treinadas no manuseio de arcos e flechas que, ao atirarem as setas contra os bergantins dos expedicionários, os mesmos ficaram com feição de porco-espinho, de tantas flechas cravadas neles. Todavia, embora com todas essas qualidades bélicas, várias foram mortas pelos espanhóis, sendo descritas como brancas, altas, com cabelos longos e cujo vestuário era somente uma tanga”, descreveu.

    Ainda de acordo com a história, as índias guerreiras admitiam apenas mulheres na tribo e no período de reprodução elas capturavam índios de outras tribos. Ao engravidar, informavam aos seus parceiros que, se nascesse um curumim (nome indígena para menino), elas entregavam a criança aos pais, porém se nascessem meninas elas ficavam e presenteavam o pai com um talismã verde conhecido como Muiraquitã.

    O professor explicou ainda que a história cercou-se do mito das Amazonas, da Grécia antiga. “No que tange à estrutura matriarcal de tal sociedade, bem como os respectivos costumes de terem ajuntamento carnal com homens em épocas especiais, de permanecerem somente com prole feminina e devolverem a prole masculina aos pais, tais informes foram decalcados de obras clássicas da Antiguidade greco-romana, como da autoria de Estrabão ou Joviano Justino. As obras desses autores foram descobertas e editadas pelos humanistas do Renascimento (séculos XV-XVI)", apontou

    Ritual Lunar

    O ritual das pedras verdes ou Muiraquitã, acontecia uma vez por ano em uma festa dedicada à lua. As índias mergulhavam no lago e traziam às mãos um barro verde, onde modelavam com formas variadas de rã (símbolo da fertilidade), tartaruga e outros animais. Ao entrar em contato com o ar, o barro endurecia e o objeto passava a ser usado como colar, uma espécie de amuleto presenteados por elas  aos homens. Por essa razão as tribos das Ycamiabas eram conhecidas como o “Reino das pedras verdes”

    Muiraquitã é um amuleto em formato de sapo (símbolo da fertilidade) usado como colar, onde índias presenteavam índios após  rituais
    Muiraquitã é um amuleto em formato de sapo (símbolo da fertilidade) usado como colar, onde índias presenteavam índios após rituais | Foto: Reprodução

     Homenagem

    As iacamiabas tiveram sua historia contada no famoso Festival de Parintins em 2007, pelo boi Caprichoso com a música Conori – As Amazonas,  de Ademar Azevedo e Roberto Viana.

    | Autor:

    Durante o espetáculo é apresentada a lenda das índias guerreiras e o famoso confronto com os expedicionários espanhóis. Na evolução da história surge o muiraquitã, em formato de sapo, que se materializa em plena arena e da lugar a líder das Ycamiabas, representada pela Rainha do folclore do Boi Caprichoso Carla Thainá, trazida pela mão de uma figura indígena.

    Letra

    "Conori, Conori, Conori, cunhã puiara

    Conori, Conori, rainha das icamiabas

    Mulheres valentes guerreiras

    Belas seminuas manejo certeiro

    Com arcos e flechas

    Se banham no lago espelho da lua

    Índias dos cabelos longos

    Que habitam o rio Nhamundá

    Magia nos potes sagrados

    Perfumam Iací-Aruá

    Amantes dos muiraquitãs

    As virgens do sol mostram seu valor

    Na casa de pedra em noite de festa

    Forçavam os guerreiros, forçavam os guerreiros para o amor

    E Orelana se encantou

    Com o reino das bravas índias guerreiras

    Amazonas, Amazonas

    E batizou o imenso e valioso rio

    Das Amazonas, das Amazonas

    Icamiaba, Icamiaba, Icamiaba mergulhou

    Talismã de Iaci pras cunhãs os sagrados verdes muiraquitãs"

    Se você quer ver a apresentação do ritual, bastar tocar o play.

    Lenda das Amazonas, Boi Caprichoso 2017, Fesitval de Parintins | Autor: Reprodução/ Youtube


    Município de Nhamundá- Infográfico
    Comentários