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    Aplicativos de transporte


    Assédio leva mulheres a optar por motoristas do mesmo sexo em Apps

    Melissa Rabelo estuda Odontologia e oferece o serviço de "Uber só para mulheres". Ela conta que iniciou na atividade após ouvir relatos das amigas que preferem andar com uma motorista a serem assediadas

    Manaus -  O Uber completou dois anos de serviço na capital amazonense e em algumas cidades na região metropolitana. Com mais de 382 mil usuários em Manaus, a atividade é fonte de renda para muitos motoristas na cidade e uma opção para quem utiliza o serviço. Após ouvir que amigas e conhecidas passaram por situações constrangedoras e até de assédio dentro de veículos que prestam o serviço, Melissa Rabelo, de 25 anos, começou a atendê-las em seu carro particular.

    Foi pensando na segurança das mulheres que não se sentem seguras ao trafegar com homens, que a estudante universitária Melissa Rabelo começou a ofertar uma espécie de “Uber particular”. Inicialmente, o trabalho começou com as amigas, mas depois ela viu uma oportunidade de conseguir renda extra e pagar a faculdade.

    Melissa Rabelo concilia rotina com os estudos.
    Melissa Rabelo concilia rotina com os estudos. | Foto: Ione Moreno


    “Eu comecei a pouco tempo, mas ‘pego’ muita corrida para o aeroporto e saída de festa porque as meninas têm medo de andar com um homem no Uber. Esse serviço eu já fazia para algumas amigas”, fala.

    A iniciativa possui um objetivo simples: economizar para a festa de formatura e quaisquer despesas que venham com ela. A motorista está no último ano da faculdade de Odontologia. Por isso, as corridas são feitas, até no máximo, às 17h30. Após sair da faculdade, a jovem volta a atender as demandas.  

    Melissa conta que começou a nova atividade em janeiro por causa da necessidade que a formatura exige. Mesmo atendendo apenas o público feminino, Melissa toma certos cuidados nas viagens.

    “O meu público é voltado para as mulheres. Já para os casais, depende da situação. Geralmente aceito casal com filhos ou com pet, também os casais que eu conheço. Agora, casais que estão saindo da festa, que acabam indo para bairros distantes ou que tenha alguma programação noturna que não envolve crianças, eu não aceito. Querendo ou não, eu sou mulher também e tomo cuidado”, fala.

    Melissa Rabelo está juntando dinheiro para pagar a formatura
    Melissa Rabelo está juntando dinheiro para pagar a formatura | Foto: Ione Moreno


    Quanto ao preço, Melissa segue a tabela do Uber. Porém, dependendo do percurso, ela adiciona um valor que varia entre R$ 5 a R$15 para ajudar na gasolina. As corridas não partem de um ponto de partida específico, entretanto, as saídas de festas e aeroporto são previamente agendadas.

    Melissa não é cadastrada no aplicativo, por isso, conta com a ajuda de divulgação nas redes sociais para aumentar o número de viagens. No entanto, ela estuda entrar na plataforma ainda esse ano e, assim, conseguir pagar a formatura.

    O serviço de transporte de passageiros sem a devida regulamentação é proibida pela Lei 13.640, que institui as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana, para regulamentar o transporte remunerado privado individual de passageiros. Mesmo sabendo se tratar de transporte ilegal de passageiros, muitas pessoas optam por pagar por corridas "por fora" com conhecidos ou pessoas do mesmo sexo.

    Casos de assédio

    A jornalista Naritha Migueis utiliza o serviço todos os dias e relata que sente insegurança quando o motorista é homem, principalmente quando a conversa com o condutor não se desenvolve como o planejado.

    “Eu me sinto segura quando vejo que a motorista é uma mulher, seja uma corrida com 99Pop ou Uber. Se tivesse um aplicativo só para mulheres seria bem melhor e evitaria que fôssemos assediadas. Sabemos que estamos sempre correndo um risco maior por sermos mulheres”, fala.

    Para ela, um aplicativo exclusivo apenas com motoristas e clientes mulheres resolveria a maior parte dos problemas que o público feminino enfrenta. E, é claro, também serve para empoderar essas mulheres.

    “Seria muito interessante um aplicativo com os mesmos valores utilizados nesses aplicativo, sei que já o serviço em outros estados. Várias pessoas desistiram de terem carro ou evitam andar no próprio carro por economia. As mulheres precisam se unir e nós sabemos que nosso caminho tem muito mais obstáculos que os homens, infelizmente”, fala.

    Caso real

    A comerciária Bruna Ferreira, de 33 anos, conta que já sofreu com algumas piadas e até investidas diretas de alguns motoristas. 

    "Não sei se acontece só comigo, para ser bem sincera, mas eu já passei por situações que me deixaram mal por andar com motoristas de aplicativos. Em uma das ocasiões, o motorista ficou perguntando se eu era solteira, disse que não acreditava que uma mulher bonita podia estar sozinha, falou do meu perfume e até do meu decote. Fiquei sem graça, mas tentei ser simpática, fingindo que aquilo era normal, mas doida para que a viagem chegasse ao fim. Eu não tomei uma atitude na hora porque não queria ser surpreendida com alguma ação mais bruta dele", relatou. 

    Bruna conta que em outra ocasião, o motorista tentou uma aproximação e, ao ser ignorado, começou a dizer que tinha envolvimento com o crime.

    "Esse foi o caso que mais me assustou. Ele tentou uma aproximação e eu ignorei, fiquei calada. Ao perceber que não teria minha atenção, ele começou a dizer que tinha um problema com um tio que supostamente trabalharia no mesmo local que eu (ele me buscou na frente da empresa). Depois disse que fazia parte de um grupo de extermínio, mas que matava apenas bandidos. Eu comecei a suar frio e fiquei orando para chegar ao ponto final. Depois que desci do carro, ele ainda ficou alguns minutos na frente da loja que eu entrei. Eu só sai quando ele foi embora", contou. 

    O número de denúncias é pequeno a frente da quantidade de corridas realizadas
    O número de denúncias é pequeno a frente da quantidade de corridas realizadas | Foto: Divulgação


    A comerciária contou que nos dois casos deu notas baixas aos motoristas após o fim das corridas, mas decidiu não denunciar porque não tinha como comprovar os assédios. Mesmo com medo, ela ainda usa os aplicativos, mas investe em algumas táticas. 

    "Eu continuo usando os aplicativos, mas agora sento no banco de trás, principalmente quando estou sozinha, e dou apenas boa noite. Coloco os fones de ouvido e finjo estar ouvindo música, assim evito que falem comigo. Coloco o telefone para gravar para ter provas de um novo assédio e também optei pelo pagamento no cartão, assim saio logo do carro".

    Bruna sabe que suas experiências ruins com os condutores não refletem a totalidade dos serviços oferecidos pela maioria dos motoristas do aplicativo. "Eu sei que a grande maioria trabalha direitinho e por acreditar no serviço é que ainda utilizo os aplicativos. Em todas as áreas há aqueles que trabalham direitinho e os que mancham a profissão. As mulheres precisam ficar atentas".

    Segurança

    A maioria dos clientes desse tipo de serviço relata que não é comum passar por situações como as descritas pelas fontes desta matéria. Os dois aplicativos citados pela reportagem contam com canais de denúncias para casos de assédios e outras situações fora do comum.

    "A Uber repudia qualquer tipo de comportamento abusivo contra mulheres e acredita na importância de combater, coibir e denunciar casos de assédio. Nenhum comportamento dessa natureza é tolerado, e tal conduta, quando confirmada, leva à desativação dos envolvidos, sendo eles motoristas parceiros ou usuários do aplicativo. A Uber também encoraja que as mulheres denunciem qualquer violência às autoridades competentes e permanece à disposição para colaborar com as investigações, na forma da lei.

    A empresa defende que as mulheres têm o direito de ir e vir da maneira que quiserem e têm o direito de fazer isso em um ambiente seguro. Em novembro passado, a Uber anunciou um compromisso público para enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil, materializado no investimento de R$ 1,55 milhão até 2020 em projetos elaborados ao longo dos últimos 18 meses em parceria com dez entidades que são referência no assunto"

    Os motoristas devem seguir os critérios rigorosos do Código de Conduta estipulado pelas empresas que oferecem o serviço. Em casos confirmados de assédio e afins, o motorista denunciado é excluído da plataforma. Os clientes também devem seguir inúmeras normas, com o risco de serem excluídos dos sistemas se elas forem descumpridas. A cliente vítima também pode denunciar o caso à polícia. 

    Mensagens rastreadas

    Com uma das tecnologias para melhorar o serviço e detectar possíveis problemas entre motoristas e clientes, a Uber implantou neste mês um novo processo de detecção automática de linguagem imprópria nas mensagens que são enviados no bate-papo do aplicativo. 

    A nova tecnologia foi implantada tanto nas viagens quanto no Uber Eats. "Palavras que possam ser consideradas ofensivas ou que ameacem a integridade de uma pessoa entram automaticamente em um processo de desativação permanente da conta original, diz a Uber.

    A empresa lembra que todos os motoristas passam por uma checagem de antecedentes criminais realizada por empresa especializada que, a partir dos documentos fornecidos para cadastramento na plataforma, consulta informações de diversos bancos de dados oficiais e públicos de todo o País. 

    A Uber também realiza rechecagens periódicas dos motoristas já aprovados pelo menos uma vez a cada 12 meses. Questionados sobre número de casos de assédios registrados, nos primeiros quatro meses de 2019, dentro de veículos que prestam serviços na plataforma, a Uber informou que não pode fornecer esses dados, mesmo que superficiais e sem descrição de dados de clientes ou motoristas, pois segue as determinações do Marco Civil da Internet.

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