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    RISCO


    Rachaduras comprometem torre da Igreja de São Sebastião, em Manaus

    Patrimônio religioso e cultural da cidade, a igreja ainda apresenta outras rachaduras em paredes. A reportagem identificou a falta de extintores, o que em caso de sinistro poderia causar uma tragédia equivalente à da Catedral de Notre-Dame, em Paris, com perda irreparável do legado histórico

    Rachadura foi descoberta por um dos zeladores da igreja. Por causa disso, mecanismo dos sinos foi desligado | Foto: Leonardo Mota/EM TEMPO

    Manaus - Localizada no coração do Centro de Manaus, a centenária Igreja de São Sebastião, considerada um dos símbolos religiosos mais importantes da capital, está com parte da estrutura comprometida pelo tempo. O dano mais aparente é no campanário, isto é, a torre que abriga os sinos, mas a reportagem do EM TEMPO encontrou outras duas rachaduras em paredes dentro da igreja, além da ausência de extintores de incêndio e hidrantes.

    O pároco da igreja, frei Paulo Xavier, de 56 anos, afirma que as obras de reforma são prioridade, mas os obstáculos têm sido as questões burocráticas. A igreja, construída em 1888 sob a direção do padre Gesualdo Marchetti, foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2010, juntamente com todo o Centro Histórico de Manaus. 

    "Um dos nossos zeladores descobriu a rachadura, e suspeitamos que ela tenha sido aberta por passarinhos que trazem sementes e galhos. Quando fomos ver, a rachadura era de mais de um dedo. Chamamos os engenheiros do CREA [Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura] e estamos esperando o laudo técnico dos problemas sair. Enquanto isso, os sinos da igreja não irão tocar", diz frei Paulo.

    Igreja foi construída em 1888, e é até mais antiga do que o próprio Teatro Amazonas
    Igreja foi construída em 1888, e é até mais antiga do que o próprio Teatro Amazonas | Foto: Leonardo Mota/EM TEMPO

    Os problemas

    O Em Tempo teve a oportunidade de subir ao campanário de São Sebastião, para ver de perto a rachadura. A subida foi feita por escadas de madeira da própria igreja, e da torre onde estão localizados os quatro sinos pode-se ter uma vista privilegiada do Centro de Manaus e de partes das zonas Sul e Centro-Sul da capital.

    Rachaduras foram abertas por ramagens trazidas por passarinhos, segundo o padre
    Rachaduras foram abertas por ramagens trazidas por passarinhos, segundo o padre | Foto: Leonardo Mota/EM TEMPO

    "Nós tivemos que desligar o sistema que toca os sinos, porque as vibrações podem aumentar ainda mais as rachaduras. A igreja fica colada na rua, então se cair alguma pedra da torre, pode atingir algum transeunte na calçada", afirma o pároco.

    No entanto, além da rachadura aparente no campanário, a equipe de reportagem conseguiu ver pelo menos duas grandes rachaduras na parede do lado direito do santuário. Além das marcas, também não foram encontrados extintores de incêndio nos locais onde deveriam estar. As hastes reservadas aos aparelhos estavam sem os extintores.

    Nas paredes, apenas os ganchos que deveriam abrigar os extintores. Saídas de emergência também não foram encontradas
    Nas paredes, apenas os ganchos que deveriam abrigar os extintores. Saídas de emergência também não foram encontradas | Foto: Leonardo Mota/EM TEMPO

    A reportagem entrou em contato com o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) no dia 20 de maio de 2019, para saber quando foi a última inspeção realizada na igreja pela corporação. Até a data da publicação desta reportagem, no dia 24 de maio de 2019, a demanda não havia sido respondida.

    Pires na mão

    O frade capuchinho salienta que, além das questões burocráticas, um segundo fator ainda impede a reforma da igreja: a questão econômica. Ele lembra que a primeira e última reforma estrutural foi em 1999, e depois, só de estruturas elétricas.

    "Nós não temos recursos financeiros para a reforma, e por causa disso, precisamos ficar dependendo de emendas parlamentares, de 'pires na mão', uma vez que a igreja é patrimônio histórico. Tivemos alguns aportes, mas ainda é pouco", desabafa.

    Frei Paulo Xavier, de 56 anos, é o atual pároco de São Sebastião
    Frei Paulo Xavier, de 56 anos, é o atual pároco de São Sebastião | Foto: Leonardo Mota/EM TEMPO

    Além da reforma da torre sineira, frei Paulo Xavier ainda elenca outras prioridades, como a revisão dos laudos técnicos do Corpo de Bombeiros, o habite-se, e revisões estruturais na igreja.

    "A igreja foi construída nos moldes que está hoje, sem o escoamento que hoje se precisa. Então, de fato, não temos saídas de emergência, mas nós já estamos correndo atrás das inspeções técnicas com o Corpo de Bombeiros", afirma. 

    O pároco, no entanto, ressalta que já existem projetos de restauro que estão em andamento, viabilizados por um acordo entre a Secretaria de Estado de Cultura e o Iphan.

    "As emendas impositivas foram aprovadas no ano passado, e devem ser liberadas esse ano, via Secretaria de Cultura, para a execução dos trabalhos de restauro interno. Nossa prioridade é a torre, mas entendemos que a igreja é a cara de Manaus, e por isso, precisa ser restaurada o quanto antes". 

    Rachaduras também podem ser vistas na parede do lado direito do santuário
    Rachaduras também podem ser vistas na parede do lado direito do santuário | Foto: Leonardo Mota/EM TEMPO

    Ponto turístico

    Mesmo com os sinos desligados, São Sebastião ainda arranca suspiros de admiração de quem entra nela. Com pinturas e afrescos de anjos, da Virgem Maria e de santos capuchinhos, como São Lourenço de Bríndisi e São Fidélis de Sigmaringa, a reverência ao entrar no santuário é quase que obrigatória, e o silêncio só é quebrado ou pelos sussurros de preces ou pelo anúncio de uma nova celebração.

    A igreja foi construída em 1888, e é uma das mais procuradas da cidade para a celebração de casamentos
    A igreja foi construída em 1888, e é uma das mais procuradas da cidade para a celebração de casamentos | Foto: Leonardo Mota/EM TEMPO

    A beleza da igreja faz coro à sensação de reverência, e é isso o que traz o servidor público Pedro Magno, de 60 anos, ao templo todas as tardes. Ele é funcionário público há mais de 30 anos, mas trabalha nas redondezas da igreja desde 1974, quando conseguiu seu primeiro emprego, ainda aos 15 anos de idade, na Editora do Brasil, localizada no Largo de São Sebastião.

    Pedro lembra com saudades dos arraiais que eram realizados pela igreja no Largo, e alerta para a importância de a igreja ser cuidada e reformada o quanto antes.

    "A igreja faz aquela reforma básica, de mexer em ar-condicionado, mas uma reforma profunda não é feita há muito tempo. Eu penso que, já que essa igreja é patrimônio histórico, o governo deve zelar pela conservação dela. É um patrimônio muito precioso para ser perdido", afirma.

    A reverência em São Sebastião é quase uma regra, e o silêncio só é quebrado pelos sussurros das preces
    A reverência em São Sebastião é quase uma regra, e o silêncio só é quebrado pelos sussurros das preces | Foto: Leonardo Mota/EM TEMPO

    Edição: Bruna Souza

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