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    Enchente


    Identidade do rio: a pobreza evidenciada pela cheia em Manaus

    Áreas de risco expõem poluição, perigo e a iminência de um próximo ciclo de cheia que afeta a vida dos ribeirinhos do município

    Cheia nos rios | Autor: Victor Costa

    Manaus – O mesmo rio que proporciona uma fonte de sustento para o povo do Amazonas, é o responsável por comandar a vida do povo e obrigá-lo a se adaptar as forças da natureza. A cheia do rio Negro, neste ano, foi a sétima maior registrada em 117 anos, ultrapassando a cota máxima prevista de 29,42 metros, segundo o Serviço Geológico do Brasil (CPRM). Com a enchente, a cidade de Manaus evidencia outro cenário: a pobreza daqueles que vivem em palafitas dentro do rio.

    De acordo com o monitoramento da Defesa Civil de Manaus, existem cerca de 2,2 mil pessoas que podem ser prejudicadas pela cheia. Todo ano, mais de 14 bairros da capital, entre Educandos, Raiz, Betânia, Centro e outras 13 comunidades no Rio Negro e 12 no rio Amazonas se preparam para subir os móveis através das marombas, assoalho de madeira construído acima do piso original para escapar do impacto da enchente.

    Este é o caso da dona de casa, Ironilde Paiva, de 47 anos, que desde abril começa a separar o dinheiro para comprar madeira e suspender cerca de 20 centímetros de toda sua casa. Ironilde vive com mais de sete pessoas em uma casa de palafita dentro do rio Negro. Segundo a dona de casa, o maior sofrimento da cheia é perder a mobília que vai se estragando quando passam embarcações muito próximo de sua residência.

    As casas de palafita sofrem quando embarcações passam próximo de suas casas
    As casas de palafita sofrem quando embarcações passam próximo de suas casas | Foto: Marcely Gomes

    “A gente se vira com o que tem. Nós vamos economizando para comprar a madeira, mas a casa fica toda alagada. Se eu tivesse a chance de sair daqui, já teria ido embora, porque todo ano é esse sofrimento e às vezes perdemos vários móveis para a cheia”, lamenta dona Ironilde. 

    Com o rio tão próximo das moradias, uma preocupação da família é em relação as crianças com menos de quatro anos de idade que vivem com Ironilde. “Essa minha sobrinha ainda não sabe nadar, se descuidar ela cai dentro d’água e acontece um acidente”, afirma a dona de casa.

    Ironilde é uma moradora que vive em uma das casas de palafita da cidade de Manaus
    Ironilde é uma moradora que vive em uma das casas de palafita da cidade de Manaus | Foto: Marcely Gomes

    Esse cenário de insegurança das áreas ocupadas às margens do rio tem uma relação com a história do homem do Norte e com as condições socioeconômicas dos ribeirinhos. Para o professor PhD em Ecologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Henrique Pereira, o fenômeno de ocupação das palafitas nas áreas urbanas é uma alternativa para que essas pessoas fiquem próximas dos serviços, o que acaba as obrigando a ocupar a paisagem urbana da cidade.

    Pesquisadores afirmam que famílias ribeirinhas ocupam a paisagem urbana por não terem muitas alternativas
    Pesquisadores afirmam que famílias ribeirinhas ocupam a paisagem urbana por não terem muitas alternativas | Foto: Marcely Gomes

    "A é questão cultural, ou seja, o modo de vida do ribeirinho tem a ver com os assentamentos mais antigos que se localizam a margem dos rios. As comunidades ribeirinhas acabam sendo impelidas de ocupar os fundos dos vales. Nas cidades, a ocupação dessas áreas de curso d’água está mais relacionada com a condição socioeconômica do que com uma questão de modo de vida", afirma.

    Poluição 

    A subida do nível do rio na cidade, também traz para as casas dos moradores o risco de doenças, uma vez que eles são obrigados a conviver com a água contaminada e toneladas de lixo.  Este é o caso de Gutemberg Barreto, de 56 anos, que tem uma oficina mecânica de embarcações. Segundo o mecânico, o lixo que aparece com a enchente é uma das maiores complicações para seu negócio.

    Gutemberg é dono de uma oficina mecânica e alerta que um dos maiores problemas que cheia do rio traz é o lixo
    Gutemberg é dono de uma oficina mecânica e alerta que um dos maiores problemas que cheia do rio traz é o lixo | Foto: Marcely Gomes

    “Aqui na oficina a cheia não atrapalha os negócios, mas o lixo sim. O banzeiro bate e vem destruindo tudo e trazendo a sujeira. Quando chove, vem descendo todo o lixo lá de cima (do morro do bairro Educandos), como tem essa balsa de contensão o lixo vem vindo para a beirada. Com tudo isso, o ritmo dos clientes diminui, porque a Prefeitura só faz cortar o capim lá da área de dentro (do Educandos) e muitas vezes esse lixo não é só da gente aqui da beira do rio”, comenta Gutemberg. 

    Com a chuva e a subida do rio, lixo e doenças cercam os moradores das casas de palafita
    Com a chuva e a subida do rio, lixo e doenças cercam os moradores das casas de palafita | Foto: Victor Costa

    A Prefeitura de Manaus afirma que as famílias afetadas pela cheia estão sendo assistidas com construção de pontes e auxílio aluguel. De acordo com o órgão, a defesa civil também realiza a descontaminação das águas que afetam as casas dos moradores atingidas pelo fenômeno. A administração destaca ainda que foram construídos mais de 2 mil metros de pontes em áreas alagadiças, conforme as ações do SOS Enchente 2019. 

    Segundo o órgão, a prefeitura continua com efetivo para monitoramento da subida das águas para que seja tomada as providências cabíveis quando necessário.

    Impactos climáticos

    Uma pesquisa feita por cientistas de diversos países do mundo e publicada na revista Science Advances, em 2018, demonstra que as cheias severas do rio Amazonas passaram a ocorrer com maior frequência. Antes, as enchentes de maior magnitude ocorriam a cada 20 anos. Hoje, as o fenômeno passou a se repetir aproximadamente a cada quatro anos.

    De acordo com a gerente de Hidrologia e Gestão Territorial do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Jussara Socorro Cury Maciel, um dos fatores que mais contribui para a cheia expressiva desse ano é o regime de chuvas da bacia amazônica.

    “O que contribui para a cheia ser grande, seria o regime de chuvas em toda bacia. Deve chover muito no final do ano para que no ano seguinte tenha uma grande cheia. Outro fator seria a continuidade dessas chuvas na bacia nos meses de janeiro a março. Esse ano tivemos um evento diferente, pois as chuvas intensas aconteceram em períodos diferentes nas bacias do Solimões (final de 2018 e início de janeiro/2019) e na bacia do rio Negro (de março a maio de 2019), o que fez a cheia deste ano ser mais severa e prolongada”, afirma a gerente de hidrologia.

    Antes, as enchentes de maior magnitude ocorriam a cada 20 anos. Hoje, cheias ocorrem a cada quatro anos
    Antes, as enchentes de maior magnitude ocorriam a cada 20 anos. Hoje, cheias ocorrem a cada quatro anos | Foto: Marcely Gomes

    De acordo com um dos professores da pesquisa e coautor Manuel Gloor, o aumento dramático nas enchentes do Amazonas é causado por mudanças nos oceanos vizinhos, especificamente os oceanos Pacífico e Atlântico e como eles interagem. Os cientistas esperam ainda mais eventos com alto nível de água para os próximos anos.

    Preparação para a próxima cheia

    Parte das pessoas atingidas pelas inundações no estado resolveram implementar uma solução definitiva para fugir das marombas. É o caso do barqueiro José da Silva, de 67 anos, morador do Distrito do Cacau Pirêra, no município Iranduba (a 27 km de Manaus). Preocupado com o crescente aumento do nível do rio a cada ano, José construiu sua casa com dois andares.

    O barqueiro José da Silva construiu sua casa de dois andares pensando em se prevenir das próximas cheias do Amazonas
    O barqueiro José da Silva construiu sua casa de dois andares pensando em se prevenir das próximas cheias do Amazonas | Foto: Marcely Gomes

    “Todos os anos enchia lá onde eu moro e nós sofremos porque não temos apoio da prefeitura nem de ninguém. Todo ano o Cacau Pirêra vai para o fundo. As maiores dificuldades que enfrentamos são a perda dos móveis, ter que comprar madeira para fazer ponte ou maromba, além do cuidado com as crianças. Por esse motivo eu fiz minha casa de dois pisos. Quando era de um piso, atrapalhava porque não tinha onde colocar fogão, cama e nós perdíamos tudo”, afirma o barqueiro  

    A casa de José da Silva é uma das muitas residências que ficaram completamente submersas na região metropolitana. O município de Cacau Pirêra faz parte das 30 cidades que estão em situação de emergência por conta da cheia no Amazonas.

    Situação de Emergência

    Por conta da enchente do rio Negro, a Prefeitura de Manaus decretou no início de junho, a situação de emergência na capital. O decreto feito no Diário Oficial do Município permite que a prefeitura realize ações que possam combater os danos causados pela enchente dos rios Negro e Amazonas pelo prazo de 180 dias.  O decreto foi assinado após o rio Negro atingir a cota de emergência de 29,42 metros, segundo a régua localizada no porto da cidade.

    Operação ‘SOS Enchente’

    A “Operação SOS Enchente 2019” é um desdobramento  da “Operação Cheia”, que começou no início do ano com a integração e planejamento das atividades pelas estruturas do município para identificar as famílias residentes nas áreas passíveis de alagação/inundação.

    Para o decreto de situação de emergência, a prefeitura de Manaus levou em consideração o Relatório Técnico da Secretaria Executiva de Proteção e Defesa Civil – Sepdec da Casa Militar, que evidencia um cenário de calamidade, provocado pela enchente dos rios Negro e Amazonas, com reflexos em diversos municípios do Amazonas e em Manaus, além da iminência de ocorrência de desastre natural e humano em diversas áreas do município.

    O decreto foi assinado após o rio Negro atingir a cota de emergência de 29,42 metros, segundo a régua localizada no porto da cidade
    O decreto foi assinado após o rio Negro atingir a cota de emergência de 29,42 metros, segundo a régua localizada no porto da cidade | Foto: Marcely Gomes

    De acordo com o decreto, o município de Manaus poderá promover a desapropriação, por utilidade pública, de propriedades particulares comprovadamente localizadas em áreas de risco intensificado de desastres, conforme o disposto no Art. 5º do Decreto-Lei nº 3.365, de 21 de julho de 1941 e, durante o processo de desapropriação, serão consideradas a depreciação e a desvalorização das propriedades localizadas em áreas inseguras.

    Após o município decretar Estado de Emergência,  as residências com risco de alagação receberam, segundo a defesa civil, auxílio-aluguel, no valor de R$ 600, além de benefícios eventuais (cesta básica, rede, colchão e lençol).

    Cheia nos rios | Autor: Victor Costa
     

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