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    História da cidade


    História esquecida: Casarões do AM vivem 'cobertos' de descaso

    Sem utilização, a maioria dos prédios abandonados na cidade chamam atenção pela falta de cuidado com a imagem da cidade

    Os casarões são patrimônio histórico da cidade
    Os casarões são patrimônio histórico da cidade | Foto: Leonardo Mota

    Manaus - Os casarões antigos do Centro Histórico de Manaus carregam histórias da próspera Era da Borracha no Amazonas, cercada pela aura da "Belle Époque", em um ciclo em que Manaus viveu seu primeiro apogeu econômico, sustentada pelo dinheiro dos barões, que construíam suas casas em estilo europeu, para mostrar ostentação, poder e riqueza. No entanto historiadores revelaram ao portal EM TEMPO o descaso dos órgãos competentes com as relíquias da capital.

    A história da cidade contada nos casarões

    O historiador amazonense Otoni Mesquita explica que as mudanças que a 'Paris dos Trópicos' está enfrentando talvez seja uma das razões para o descuido e uma espécie de desapego dos prédios históricos.

     "Manaus é uma cidade que sempre procura ser mais atual, e sem dúvida é uma forma de desvalorizar a história da cidade. Estaria vinculada à globalização e atualização, ligada ao consumismo. Percebo que parte da memória do lugar e das pessoas ficam perdidas. O mundo todo está passando por isso e Manaus segue o mesmo rumo, de substituir aquilo que é histórico", conta.

    Como medida a ser tomada, Mesquita comenta que a educação é uma das portas que abrem mudanças nesse cenário."Nós deveríamos ter uma mudança na educação como um todo, sensível, crítica e vinculada com as nossas realidades e também uma mudança de sistema. Parece uma coisa louca que estou propondo, mas é tentarmos ser quem somos sem perder o contato como o mundo geral. Não precisa mudar de forma brusca nem de substituir a nossa história, inclusive dos casarões".

    A professora amazonense Francisca Deusa Sena ressalta que manter os casarões é de grande importância para a história da cidade. "Preservar uma paisagem urbana diversificada com edificações construídas em diferentes períodos históricos é um excelente mecanismo para conhecer a história da cidade e seus habitantes, permitindo desconstruir memórias e ressignificar os espaços".

    Com relação aos cuidados, a professora destaca que a perda é maior quando não há soluções para os casarões antigos.

    A historiadora defende políticas que devolvam vida aos casarões
    A historiadora defende políticas que devolvam vida aos casarões | Foto: Leonardo Mota

    "Perde-se a oportunidade de contar a história da cidade de um jeito lúdico e interativo à população local e estrangeira.  Perde o turismo e as cadeias produtivas sustentáveis de produtos explorados por esse setor de serviços. A gestão pública (município, Estado, União) perde a oportunidade de estimular o sentimento de pertencimento na  população local e tudo de bom que daí se reverte em economia dos recursos públicos. Perde a sociedade em geral (professores, empresários, ativistas culturais), é mais uma mutilação da história da cidade", enfatiza Francisca.

    Para a pesquisadora, há medidas que podem ser tomadas sobre os lugares e para os proprietários e todas são garantida por lei. 

    Todas são monitoradas pelo Iphan porém são de responsabilidade dos donos
    Todas são monitoradas pelo Iphan porém são de responsabilidade dos donos | Foto: Leonardo Mota

    "Existem algumas alternativas previstas em lei, como isenção fiscal aos proprietários de bens culturais declarados de interesse coletivo; conversão de multas (a empresas de médio e grande porte) em apoio financeiro a projetos de restauração patrocinados por ação conjunta entre entes públicos e privados (no caso de bens desapropriados que sirvam como espaços de convivência coletiva, sede de arquivos, museus, bibliotecas, teatros, etc)"

    A faixada continua, mas o terreno está desocupado
    A faixada continua, mas o terreno está desocupado | Foto: Leonardo Mota

    Francisca Deusa enfatiza também a educação patrimonial que precisa ser desenvolvida na região. "Por fim, a educação patrimonial, base de toda ação de preservação que se queira prolongada. Ações de educação patrimonial envolvem a população e a preparam para o exercício dos direitos culturais. É uma cadeia. Educam-se crianças e adultos da geração atual para a defesa do patrimônio histórico cultural de hoje e do futuro".

    Histórias abandonadas

    Não é preciso ir muito longe para se deparar com os casarões que resistem ao tempo e a falta de cuidados. Prédios localizados no bairro Centro, próximos à Praça da Matriz, que antes eram espaços comerciais, hoje estão completamente em ruínas, alguns viraram até estacionamento rotativo.

    Os casarões lado a lado já fizeram parte do comércio da cidade
    Os casarões lado a lado já fizeram parte do comércio da cidade | Foto: Bruna Oliveira

    Ao entrar no terreno é possível notar a vegetação e lixo nos interiores. O mesmo lugar é usado como galpão para guardar as bancas de camelôs.

    O terreno dos casarões virou um estacionamento rotativo
    O terreno dos casarões virou um estacionamento rotativo | Foto: Bruna Oliveira

    O segundo prédio fica próximo ao Paço Municipal, ao lado do prédio do arquivo público do Estado do Amazonas. Um imóvel já tomado pela vegetação e sem a cobertura, fica na esquina da rua de acesso à avenida Sete de Setembro.

    Próximo ao Paço, o prédio chama a atenção pela grandeza e a falta de cuidado
    Próximo ao Paço, o prédio chama a atenção pela grandeza e a falta de cuidado | Foto: Bruna Oliveira

    As portas foram fechadas por tijolos, mas ainda sim é possível ter acesso ao interior da casa, coberta de lixo e mau cheiro. Ao lado fica a praça e alguns prédios todos conservados em contraste com o abandono do imóvel.

    Dentro da casa, há vegetação que avança pelas paredes e muito lixo
    Dentro da casa, há vegetação que avança pelas paredes e muito lixo | Foto: Bruna Oliveira

    O outro prédio fica localizado na rua Governador Victório com a Visconde de Mauá, ainda no bairro Centro. Na estrutura da casa é possível perceber que está na cidade desde 1904. O prédio centenário é visto ao longe, mas se chegar bem próximo dá para notar que há anos está sem funcionamento.

    Quem trabalha próximo ao prédio lamenta o descaso
    Quem trabalha próximo ao prédio lamenta o descaso | Foto: Bruna Oliveira

    Esse casarão é o antigo escritório da Superintendência estadual de navegação, portos e hidrovias - SNPH em Manaus, hoje o prédio está fechado.

    Quem vê a história se perder

    Ao conversar com algumas pessoas que moram e trabalham próximas aos casarões é possível notar um ar de saudosismo e revolta com a situação de abandono. Alguns não lembram quando foi a última vez que viram serviços sendo prestados nos locais.

    O autônomo Izidério Silva, 56 trabalha há mais de 30 anos no bairro Centro e se incomoda ao ver prédios históricos a serem abandonados. "Deveriam restaurar ou fazer alguma coisa. Moro aqui no Centro há 50 anos e por muito tempo vejo o abandono. Durante a noite tudo o que não 'presta' acontece dentro dessas casas abandonada".

    O aposentado Raimundo Félix, 73, é morador do bairro Compensa e sempre gosta de ir ao Centro para rever os amigos. Mas ao observar os prédios abandonados resta a indignação. 

    O aposentado conta que prefere os casarões reformados
    O aposentado conta que prefere os casarões reformados | Foto: Bruna Oliveira

    "Esses são prédios históricos, deveriam ficar para sempre. É patrimônio nosso e deveria ser usado para algo. Eu me revolto e ao mesmo tempo me traz boas lembranças. Tudo isso deveria voltar", conta. 

    O vendedor ambulante Idelbrano da Silva, 66, trabalha há 15 anos no bairro Centro e sua banca de guloseimas fica próximo a um dos casarões no centro da cidade. "Se arrumasse esse prédio aqui até atrairia mais gente para cá e me ajudaria nas vendas. Aqui está abandonado, deveria ser feito algo nesses casarões. Desse jeito só afasta os clientes e os turistas".

    | Foto: Bruna Oliveira

    O comerciante Raimundo Lima, 48, conta que o descaso não é de hoje, vários políticos já prometeram fazer algo, mas ficaram na promessa."Esse prédio nessa semana caiu a estrutura lá dentro, deu para ouvir o barulho daqui. Daí surgiram pessoas da prefeitura e só cobriram a frente".

    O prédio fica próximo ao terminal de ônibus da Matriz
    O prédio fica próximo ao terminal de ônibus da Matriz | Foto: Bruna Oliveira

    Projetos de quem sonha com a história da cidade

    Os casarões têm história na cidade e como justificativa, o professor e pesquisador Almir Barros Carlos, busca convidar estudantes de diversos cursos de licenciatura das instituições de ensino superior no Amazonas com pesquisas e investigações sobre cada casarão estudado com o objetivo de mostrar a importância para o estado.

    Apaixonado pela história da cidade, o amazonense Almir tem projetos para resgate dos casarões
    Apaixonado pela história da cidade, o amazonense Almir tem projetos para resgate dos casarões | Foto: Bruna Oliveira

    "O projeto que eu tenho é exatamente esse, resgatar e fazer os monumentos virarem documentos. Pegar esses novos alunos de história, geografia, arquitetura e engenharia para buscarem o resgate histórico dos casarões", conta.

     As atividades que pretendem ser desenvolvidas através do projeto buscam tornar os casarões em locais para exposição de fotografia, concursos de poesias e música. As pesquisas programadas para o projeto visam tornar os lugares históricos "visitáveis" e todos com placas com informações sobre o casarão.

    "Todos eles têm por trás uma história por qual motivo foram construídos, com que objetivo, de onde vieram e os materiais. Então uma história belíssima por trás de casa casarão daquele", diz.

    O professor já apresentou o projeto para vários órgãos públicos, mas sempre se deparou com a falta de interesse de resgate desses monumentos da cidade. "É difícil de colocar em prática, as pessoas não entendem que os casarões são parte da nossa história. Eu sou sonhador e quero continuar sonhando que os casarões serão resgatados e a imagem linda da nossa cidade voltará", comenta Almir.

    De quem é a responsabilidade?

    As casas carregam histórias da antiga Manaus
    As casas carregam histórias da antiga Manaus | Foto: Leonardo Mota

    Em novembro de 2010 o Centro Histórico de Manaus foi tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Nessa região, há cerca de 2 mil imóveis e dois tombados individualmente: o Teatro Amazonas e o Mercado Adolpho Lisboa.

    O tombamento é um reconhecimento do bem material como parte do Patrimônio Cultural Brasileiro. Segundo o Iphan, as responsabilidades desses casarões espalhados pela cidade são dos proprietários.

    Na rua Epaminondas, no bairro Centro é possível ver casarões abandonados
    Na rua Epaminondas, no bairro Centro é possível ver casarões abandonados | Foto: Leonardo Mota

    "A responsabilidade pela gestão, conservação, limpeza e segurança continua sendo dos proprietários. Isso vale para qualquer bem tombado, seja de uso público ou privado. O Instituto atua como parceiro, no sentido de garantir que esses imóveis tenham usos sustentáveis, socialmente equilibrados, economicamente justos e ambientalmente corretos, respeitando a legislação vigente", descreve o órgão.

    Embora a obrigação de cuidados seja dos proprietários, governo e sociedade precisam trabalhar de forma unificada para que esses lugares não se deteriorem completamente, até que desabem e se percam na história.

    Os lugares abandonados costumam abrigar moradores de rua e viraram esconderijo de animais
    Os lugares abandonados costumam abrigar moradores de rua e viraram esconderijo de animais | Foto: Leonardo Mota

    "Tanto o governo federal, quanto os governos estaduais possuem programas de incentivo que contemplam a recuperação de bens culturais, além do Fundo de Direitos Difusos do Ministério da Justiça, a Lei de Incentivo à Cultura, entre outros. O Iphan está à disposição para orientar os proprietários de bens tombados na elaboração de propostas para captação de recursos junto a esses mecanismos".

    Medidas tomadas

    O EM TEMPO questionou a prefeitura de Manaus sobre a situação de abandono dos prédios históricos. Segundo a Prefeitura, existe uma programação orçamentária para a desapropriação desses locais, como o prédio Cabaré Chinelo, localizado na Rua Bernardo Ramos.

    O projeto “PAC Cidades Históricas”, do governo federal, trouxe para Manaus a versão “Manaus Histórica”, em que haveria a restauração de 10 prédios históricos da área central, no entanto, segundo a prefeitura, houve atraso no envio dos recursos. Muitas obras nem foram iniciadas.

    Alguns casarões passam por revitalização
    Alguns casarões passam por revitalização | Foto: Leonardo Mota

    Outros projetos programados estão em execução na cidade, como o restauro do Pavilhão Universal e da Biblioteca Pública Municipal João Bosco Pantoja Evangelista. A próxima a entrar no cronograma da prefeitura é a restauração do prédio do Les Artistes Café Teatro.

    O Pavilhão Universal, localizado na praça Tenreiro Aranha foi requalificado pela prefeitura e hoje está em processo de desmontagem das estruturas metálicas e os elementos arquitetônicos, após a restauração, o Pavilhão será montado e implantado na praça Adalberto Valle. O valor da obra estimado é de R$ 1 milhão.

    Casa abandonada na rua 10 de julho
    Casa abandonada na rua 10 de julho | Foto: Leonardo Mota

    O prédio da antiga Câmara Municipal, localizada na avenida Sete de Setembro teve a licitação concluída no dia 6 de junho e terá suas obras de restauração nas próximas semanas.

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