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    Prostituição


    Prostituição vira opção para venezuelanas desempregadas no AM

    Na Venezuela, elas deixaram família e trabalho; nas ruas de Manaus, usam agora o sexo como sustento

    Para conseguir dinheiro para alimentar os filhos, muitas delas vendem a única coisa que ainda resta, o próprio corpo. | Foto: Leonardo Mota

    Manaus - Sem trabalho, sem dinheiro, sem esperança. A vida em Manaus é bem diferente do que as venezuelanas esperavam. Para conseguir dinheiro para alimentar os filhos, muitas delas vendem a única coisa que ainda resta, o próprio corpo. 

    Este é o caso da atendente Jéssica (nome fictício), de 25 anos. A crise econômica atingiu seu país e ela ficou sem ter como sustentar seu filho, de sete anos. Há dois anos, ela e a família decidiram vir para o Brasil em busca de novas oportunidades. Ela começou sua trajetória em Boa Vista e está há um ano em Manaus. Sem perspectiva de atuar no mesmo ramo que trabalhava na Venezuela, acabou entrando na prostituição.

    Um homem apenas não adianta

    R$ 40 é a hora com as venezuelanas
    R$ 40 é a hora com as venezuelanas | Foto: Leonardo Mota

    "Às vezes não tenho nenhum cliente, às vezes tenho quatro", conta. Jéssica trabalha 10h por dia e o filho fica sob os cuidados de uma prima. Para ela, estar nesta condição a incomoda e que gostaria de trabalhar em uma escola ou em uma panificadora, fazendo o mesmo que fazia em seu país.  

    Outra mulher que se encontra na mesma situação é Albani, 30. Ela trabalhava em um garimpo, na Venezuela e está há apenas um mês no Brasil. Ficou três semanas em Rorainópolis (RR) e há uma semana chegou em Manaus, na companhia de uma amiga.

    No seu país de origem deixou três filhos, um de 15, outro 12 e outro de três anos de idade que estão aos cuidados da irmã.

    Albani afirma sentir muita falta da família, mas disse que nesse momento não voltaria para lá. O objetivo é arranjar um emprego para sair da prostituição. Em média, ela faz três programas diários, no valor de R$ 40.

    Mãos vazias

    Alana não se prostitui, mas não descarta esta possibilidade.
    Alana não se prostitui, mas não descarta esta possibilidade. | Foto: Lucas Silva

    A administradora Alana* tem 24 anos e está há dois meses no Brasil. Ana veio por conta de situações econômicas complicadas, a empresa onde trabalhava fechou. A jovem tem uma filha de um ano, que está na Venezuela aos cuidados de sua mãe. Sua família depende dos recursos que ela envia de Manaus. A maior preocupação de Ana é com sua filha, que está doente e não tem medicamentos. Uma vez por semana, Ana usa o celular da amiga para falar com a família. 

    Alana não se prostitui, mas não descarta esta possibilidade. Ela e sua família necessitam muito e fará o que for preciso para ajudar a filha. Desempregada, ela afirma que todos os dias recebe propostas para fazer programa. Apesar disso, assegura que ainda não cedeu. 

    Muitos motoristas são surpreendidos pelas venezuelanas no bairro Centro
    Muitos motoristas são surpreendidos pelas venezuelanas no bairro Centro | Foto: Leonardo Mota

    Caio*, profissional da área de eventos, foi surpreendido por uma situação inusitada. O empresário foi buscar uma encomenda no bairro Centro. Ao estacionar teve o carro "invadido" por uma jovem prostituta venezuelana. Ele informou que ela era branca e aparentava ter 16 anos. A moça confundiu uma buzinada para um guardador de carros com um convite para entrar. 

    "Eu tenho duas filhas, quando eu a vi, lembrei logo delas", relata.  No início, Caio pensou se tratar de uma assalto, mas ficou surpreso quando a moça lhe ofereceu seus serviços por R$ 30 em um motel que estava a poucos metros dali. "Ela parecida estar com fome. Foi super educada e falava bem português, apesar do sotaque". 

    Ele relata que a moça ficou com muita vergonha ao perceber o equívoco, mas ao sair do carro, logo entrou em um táxi. O guardador de carros disse para Caio que há meninas de todas as idades se prostituindo por ali, principalmente nos fins de semana, quando precisavam de dinheiro.

    A representante da Associação das Prostitutas e Ex- Prostitutas do Amazonas (As Amazonas),  grupo que se dedica a amparar e orientar as chamadas "profissionais do sexo", Ana Barata, informou que não foram procuradas pelas venezuelanas. A instituição está parada por conta de uma reformulação na diretoria. 

    Por meio de sua assessoria de comunicação, a Acnur afirmou por telefone ao Portal EM TEMPO que não comenta casos individuais, uma vez que estes dizem respeito à segurança da pessoa que solicitou refúgio, se encaixando, portanto, em uma informação confidencial. A instituição também não apoia que seja dada maior visibilidade a estas questões, tendo em vista que as pessoas envolvidas estão em situação de vulnerabilidade e precisam de proteção. 

    Dificuldade para arranjar emprego formal

    Aproximadamente 4 milhões de venezuelanos já saíram do seu país desde 2015, tornando essa uma das mais recentes e maiores crises de deslocamento forçado no mundo, de acordo com a ONU. A forte crise enfrentada no governo Nicolás Maduro traz, em média, 500 venezuelanos por dia ao Brasil, via Roraima.

    Outros 14% dos imigrantes recorreram à mendicância durante a fuga e 2% apelaram ao "sexo de sobrevivência", de acordo com dados divulgados pela agência da ONU para refugiados (Acnur), com base em milhares de entrevistas em oito países da região: Colômbia, Equador, Peru, Chile, Argentina, Uruguai, Brasil e República Dominicana.

    Em Manaus, os venezuelanos enfrentam dificuldade para se inserir no mercado de trabalho, fazendo com que algumas mulheres recorram à prostituição. 

    Prostituição no Brasil

    Vale lembrar que no Brasil, a prostituição não possui restrições legais enquanto praticada por adultos. De acordo com a Fundação Mineira de Educação e Cultura (FUMEC), calcula-se que o Brasil tenha cerca de 1,5 milhões de pessoas, entre homens e mulheres que vivem em situação de prostituição. A pesquisa revela que 28% das mulheres estão desempregadas e 55% necessitam ganhar mais para ajudar no sustento da família.

    A maioria das prostitutas brasileiras tem de 20 a 29 anos (46,3%), primeiro grau incompleto (67%), de um a quatro anos de profissão (47%) e ganha de um a dois salários mínimos por mês (36%), de acordo com pesquisa feita pela Universidade de Brasília.

    Operação Acolhida

    Todos os dias, a Cáritas Arquidiocesana de Manaus atende uma média de 100 venezuelanos. Segundo o agente Caritas Afonso Brito, a expectativa é que a Operação Acolhida dê suporte à instituição para trabalhar com venezuelanos.  De acordo com informações divulgadas pela Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), a operação já está em vigor desde junho deste ano, com a proposta de organizar a área da rodoviária, criar um posto de triagem e informação, banheiros e lavanderia, para que este público seja atendido. 

    A iniciativa é um trabalho integrado entre Forças Armadas, Estado, município, e agências internacionais como Organização Internacional para as Migrações (OIM), Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). 

    O diácono Afonso de Oliveira Brito, agente e secretário-executivo Cáritas Arquidiocesana de Manaus informou que a instituição oferece um atendimento inicial a fim de identificar as necessidades destes. 

    A partir desta primeira triagem, a Cáritas oferece aos venezuelanos suporte em saúde, documentação, cursos profissionalizantes e encaminha para aluguel social se houver necessidade. Os imigrantes também são orientados para saber reagir em casos de exploração sexual e violência.  Entre os cursos oferecidos estão o de português e áreas de gastronomia e beleza. 

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