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    Ruínas da Santa Casa em Manaus transformam-se em reduto do tráfico

    As ruínas da Santa Casa de Misericórdia, no Centro Histórico de Manaus, transformou-se em reduto de traficantes, usuários de entorpecentes e moradores de rua

    Santa Casa de Misericórdia é utilizada como boca de fumo. Foto: Lucas Silva | Foto: Lucas Silva

     Manaus - As ruínas da Santa Casa de Misericórdia, localizada na rua 10 de Julho, no Centro Histórico de Manaus, transformou-se em reduto de traficantes, usuários de entorpecentes e moradores de rua em geral. A equipe de reportagem do EM TEMPO esteve no local, na última sexta-feira (26), e flagrou  movimentação de usuários de drogas, usando crack em latas de refrigerante e cerveja.

    Uma moradora da área, que pediu anonimato, afirmou que há traficantes até da facção criminosa "Família do Norte (FDN)". Segundo ela, os viciados em drogas entram no local, compram entorpecentes e os consomem nas dependências ou nas ruas adjacentes.

    Policiais afirmam que usuários de drogas parecem zumbis na região do Centro
    Policiais afirmam que usuários de drogas parecem zumbis na região do Centro | Foto: Lucas Silva

    “A polícia já fez operação, passa no local, mas a situação aqui no Centro está muito complicada. Isso não ocorre só na Santa Casa, pois eles fumam até na avenida Eduardo Ribeiro e outras ruas daqui. Infelizmente, um local que já foi destinado à saúde dos amazonenses hoje abriga dependentes químicos, que precisam de  tratamento urgentemente”, afirma a mulher, revelando que roubos e furtos acontecem com certa frequência por causa do grande fluxo de usuários na localidade.

    'Terra sem lei'

    Um comerciante que também pediu anonimato relatou que a movimentação no prédio da Santa Casa é intensa. Segundo ele, ao longo do dia, muitas pessoas acessam a área do antigo hospital, mas é durante a noite que ocorre a maior concentração de gente no local.

    “Lá dentro é uma terra sem lei. Se um cidadão entrar no prédio, em qualquer horário, corre o grande risco de ser agredido ou acontecer algo pior. Uma situação lamentável, um lugar que poderia estar beneficiando as pessoas de bem serve de abrigo para os vândalos e usuários de drogas”, disse.

    O comerciante contou, ainda, que trabalha na região há um ano, nesse período ele já presenciou, muitas vezes, criminosos roubando os tapumes que cercam o prédio. “Eles tiram a estrutura de metal para vender, e isso acaba facilitando o acesso no local. É uma rota de fuga, muitos assaltantes que atuam na região central se escondem no lugar e conseguem fugir com facilidade”, relatou.

    Usuários são vistos perambulando na região
    Usuários são vistos perambulando na região | Foto: Lucas Silva

    O comerciante relembrou que já ficou hospitalizado e a sua esposa deu à luz na maternidade da Santa Casa. Ele tem a esperança de ver o local revitalizado. “Precisamos resgatar e ter de volta uma unidade de saúde com o nível que era a Santa Casa, referência e tinha atendimento de qualidade. Acredito que ainda verei isso novamente”, finalizou, que também ressaltou que o local já foi palco de assassinatos de usuários de drogas.

    Polícia presente e ativa

    O delegado Marcelo Martins, titular do 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), delegacia responsável pela área afirmou que a Polícia Civil, Polícia Militar e Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) já fez uma operação no local. Segundo ele, os investigadores prenderam diversos traficantes, mas eles sempre estão voltando para a localidade.

    Marcelo Martins delegado titular do 24º DIP
    Marcelo Martins delegado titular do 24º DIP | Foto: Divulgação

    “A Justiça precisa resolver essa situação, pois o problema é diário e crônico. A Polícia Civil do Amazonas está nas ruas, mas esses usuários, moradores de rua e traficantes estão acabando com a história do local. Eles invadem, defecam em tudo quanto é canto, ainda usam o antigo hospital para fazer sexo e dormir”, destaca o delegado Marcelo Martins.

    Área contaminada

    Na região próxima ao Porto Roadway, usuários de crack, pasta-base de cocaína e cocaína também aproveitam para usar entorpecentes à luz do dia.

    Na última quinta-feira (25), a reportagem do EM TEMPO esteve no local para buscar informações sobre uma tentativa de homicídio, quando foi atacada por viciados do local que jogaram frutas velhas no carro do Amazonas EM TEMPO.

    De acordo com policiais militares da 24ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom), outra região com muitos problemas de usuários de entorpecentes é nas proximidades da Feira da Manaus Moderna. Segundo os PMs, durante a noite vários usuários são vistos perambulando na região.

    A responsabilidade sobre os cuidados emergenciais do prédio passa de mão em mão
    A responsabilidade sobre os cuidados emergenciais do prédio passa de mão em mão | Foto: Lucas Silva

    “Parecem zumbis. Ficam fissurados e agoniados quando querem entorpecentes. É uma situação sem fim, pois prendemos, e a Justiça solta. A maioria é usuária de crack e não vendedor de drogas. Não é mais uma questão policial, mas sim de serviço social, psicológico, direitos humanos. Estamos fazendo o que podemos. Fazemos nosso papel, mas outros órgãos também precisam ajudar e apoiar a região para acabar com essa situação”, disse o policial da área à reportagem.

    História manchada

    O hospital foi construído em 1880, e prestou pleno serviço à sociedade amazonense até o ano de 2004. A responsabilidade sobre os cuidados emergenciais do prédio passa de mão em mão: do Governo do Amazonas para a Prefeitura de Manaus, passando pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e com a intermediação do Ministério Público Federal (MPF) e da Justiça Federal.

    Santa Casa de Misericórdia é utilizada como boca de fumo.
    Santa Casa de Misericórdia é utilizada como boca de fumo. | Foto: Lucas Silva

    Leilão vetado

    Em junho deste ano, a juíza federal Jaiza Fraxe, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), retirou o prédio da Santa Casa de Misericórdia de Manaus de um leilão determinado pela 5ª Vara da Justiça Federal.

    Conforme informações da assessoria de imprensa da Justiça Federal, também foi aberto prazo para que voluntários, de forma lícita, possam fazer a restauração, o que pode habilitar pessoas físicas e jurídicas. 

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