Fonte: OpenWeather

    Navegabilidade


    Orla fluvial de Manaus vira 'cemitério' de embarcações

    Embarcações velhas e abandonadas servem de moradia para famílias, além de poluírem o meio ambiente e prejudicarem a navegação

    Não há ações efetivas da Capitania, do Município e do Estado para evitar que haja esse abandono | Foto: Thiago Monteiro

    Manaus - A chegada e saída de embarcações turísticas e comerciais são características da orla fluvial de Manaus, que também apresenta uma expressiva quantidade de navegações abandonadas e velhas, que alteram o cenário da orla e serve como moradia para famílias manauaras. Além de poluir o meio ambiente, elas também oferecem risco à navegação e a população, visto que com a cheia as carcaças ficam invisíveis. E o pior, não há ações efetivas da Capitania, do Município e do Estado para evitar que haja esse abandono no que deveria ser o principal cartão postal da cidade. 

    Atividades básicas do cotidiano como escovar os dentes e lavar a louça apresentam características diferentes para as famílias que moram nas embarcações espalhadas por diversas zonas de Manaus.

    É o caso da família de José (nome fictício), de 40 anos, que possui uma barco como moradia, na Orla da Manaus Moderna, localizada na Zona Sul de Manaus. A embarcação sem uso, apresenta características enferrujadas e velhas com o desgaste do tempo. O espaço é a 'casa' onde José mora com a esposa e mais cinco filhos.

    Pessoas vivem em embarcações abandonadas na Orla de Manaus
    Pessoas vivem em embarcações abandonadas na Orla de Manaus | Foto: Lucas Silva

    A família veio do interior do Amazonas até a capital para trabalhar no barco, a pedido do proprietário da embarcação. José e a família exercem a função de cuidadores do barco. Ele conta que aceitou a moradia e o salário por apresentar condições melhores do que pagar aluguel e contas fixas como água e energia elétrica. “Levamos uma vida normal no barco. Recebemos uma quantia em dinheiro e pagamos nossa alimentação e necessidades básicas. Viemos trabalhar aqui para cuidar da embarcação e evitar invasão”, conta o morador que também realiza trabalhos extras nas proximidades da moradia.

    A estrutura do barco não possui energia elétrica, saneamento básico e fica próximo a uma área de terra firme que apresenta bastante lixo acumulado. As necessidades básicas da família como utilização do banheiro e lavagem de roupa, são realizadas em uma estrutura física localizada fora da embarcação, onde tem acesso a água potável para consumo.

    Histórias iguais da família de José são possíveis de serem encontradas em regiões cidade que possuem acesso fluvial, como no bairro Aparecida, São Raimundo, Centro, Tarumã e Educados nas proximidades da praia do Amarelinho, Ponta Branca e Panair. 

    De acordo com a Cooperativa dos Profissionais de Transporte Fluvial da Marina do Davi (Coop Acamdaf), a função de caseiros de embarcações é comum, mas não são servem de moradias para famílias e que, as embarcações que possuem uso, recebem as manutenções devidas.

    Cemitério de embarcações

    Embarcações como jet skis, navios, barcos, canoas e balsas que estão inutilizadas e esquecidas próximas às orlas da cidade
    Embarcações como jet skis, navios, barcos, canoas e balsas que estão inutilizadas e esquecidas próximas às orlas da cidade | Foto: Lucas Silva

    O cenário nas áreas fluviais de Manaus pode ser alterado de acordo com o nível do rio Negro. Durante a época da seca, consequentemente, o nível do rio Negro desce e as embarcações abandonadas podem ser percebidas em uma maior quantidade em relação à época de cheia, quando o nível do Rio Negro sobe.

    Embarcações como jet skis, navios, barcos, canoas e balsas que estão inutilizadas e esquecidas próximas às orlas da cidade começam a fazer parte do cotidiano dos manauaras e principalmente dos moradores de áreas próximas. O bairro do Educados, Zona Sul de Manaus, é um dos bairros que mais sofre as consequências do descaso referente as embarcações abonadonas.

    De acordo com o presidente do Instituto de Cidadania e Desenvolvimento Social do Bairro do Educandos (ICDS-BE) Gil Eanes Cardoso, a situação é debatida há décadas com o poder público municipal, estadual e federal. "O cemitério naval, que ganha destaque na seca do rio negro, apresenta problemáticas sociais para os moradores. E problemas ambientais devido as deteriorações dos barcos nas margens do rio Negro".

    Para o doutor em Sociologia Marcelo Seráfico, pessoas morando em embarcações abandonados e sem condições de moradia vai além do fato do abandono. "A situação apresenta um quadro de problemas sociais como desemprego, miséria e falta de moradia para uma parcela expressiva da população de Manaus", comenta.

    Marcelo Seráfico também destaca que este é um problema para a economia. "O problema das embarcações abandonadas é uma discussão ampla. A situação é apenas uma síntese de diversos problemas sociais". 

    Órgãos fiscalizadores

    De acordo com o Comando do 9º Distrito Naval, a Marinha do Brasil realiza fiscalizações diárias em toda a orla fluvial de Manaus, por meio da Inspeção Naval realizada pela Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental. A inspeção possui o objetivo de preservar a segurança da navegação, salvaguarda da vida humana e prevenção à poluição hídrica.

    A Marinha do Brasil destacou, em nota, que as remoções das embarcações são de responsabilidade de seus proprietários e compete à Capitania Fluvial Amazônia Ocidental (CFAOC) a retirada de tráfego das embarcações que não oferecem condições seguras à navegação. "A CFAOC emite uma portaria direcionada ao proprietário da embarcação para realizar a retirada, que em caso de permanência, a embarcação será apreendida e o condutor poderá ter a suspensão de sua habilitação".

    O processo realizado pela Marinha do Brasil obedece a Lei nº 9.537 de 1997 sobre a Segurança do Transporte Aquaviário. As denúncias sobre embarcações abandonadas podem ser realizadas através do Disque Denúncia da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental, por meio do telefone (92) 99302-5040.

    Comentários