Fonte: OpenWeather

    Cemitério dos Índios


    Invasões estão destruindo vestígios de sítio arqueológico em Manaus

    Tráfico de drogas, disputa por território e assassinato de indígenas são alguns dos problemas encontrados no Cemitério dos índios, localizado no bairro Nova Cidade, Zona Norte de Manaus

    Só neste ano foram confirmados três assassinatos | Foto: Leonardo Mota

    Manaus - Moradores das invasões Urucaia, Buritizal, Itaporanga e Cemitério dos Índios estão destruindo o material arqueológico que ainda existe na área do bairro Nova Cidade, na Zona Norte de Manaus. Além desta problemática, caciques da região estão sendo assassinados por traficantes da Família do Norte (FDN), que pretendem expandir bocas de fumo na região.

    Considerada pela Polícia Militar como área vermelha, a invasão Cemitério dos Índios fica em um sítio arqueológico, considerado o maior da América Latina, protegido por lei, à beira da Avenida Curaçao. No local vivem aproximadamente 730 moradores, dos quais 310 são indígenas das etnias Ticuna, Kokama, Apurinã e outras. Neste ano, três caciques da localidade já foram mortos por criminosos.

    Moradores estão destruindo o material arqueológico que ainda existe na área do bairro Nova Cidade
    Moradores estão destruindo o material arqueológico que ainda existe na área do bairro Nova Cidade | Foto: Leonardo Mota

    O Portal EM TEMPO esteve na comunidade e conversou com os comunitários, que relataram a situação de medo em que vivem. A maioria optou pelo anonimato, com medo de represálias de criminosos. Eles alegam que são ameaçados por não permitirem a atuação do tráfico no Cemitério. Assustados, clamam por segurança e intervenção do poder público para resolver a situação, além do direito à terra ocupada. 

    Mortes

    O primeiro homicídio  aconteceu no dia 27 de fevereiro. O indígena da etnia Tucano, Francisco de Souza Pereira, estava dormindo com a esposa e a filha quando teve a casa invadida por três homens encapuzados. Ele foi executado na frente da família com dois tiros na cabeça e dois no peito. O crime aconteceu na comunidade Urucaia, vizinha ao Cemitério.

    Cena do homícidio do tuxaua Carlos Alberto Oliveira de Souza. Crime aconteceu no dia 6 de agosto.
    Cena do homícidio do tuxaua Carlos Alberto Oliveira de Souza. Crime aconteceu no dia 6 de agosto. | Foto: Josemar Antunes

    Em 12 de junho, o cacique Willlames Machado Alencar, conhecido como “Onça Preta”, da etnia Mura, foi assassinado com oito tiros dentro de uma casa no Cemitério dos Índios. Testemunhas relataram que Onça Preta estava se caracterizando para comparecer à uma audiência pública quando um homem armado invadiu a propriedade e atirou à queima-roupa no cacique. 

    No dia 6 de agosto, outro indígena foi executado, dessa vez no Conjunto Cidadão XII, a poucos minutos do Cemitério. Carlos Alberto de Souza, o "Mackpak", da etnia Apurinã, caminhava na rua quando foi surpreendido por quatro homens a pé e encapuzados. A vítima foi atingida com mais de 10 tiros. 

    Os três mortos atuavam como lideranças indígenas na região. Segundo depoimentos de familiares e moradores à época dos crimes, os três recusaram-se a facilitar atividades criminosas no Cemitério dos Índios. Por isso, passaram a sofrer ameaças e acabaram sendo executados.  Os crimes estão sendo investigados pela Delegacia Especializada em Homicídios (DEHS).

    "Eles querem controlar a comunidade. Querem vender drogas aqui dentro. Estão sempre à paisana, fazendo ameaças. Da última vez que estiveram aqui, disseram que iam matar os indígenas e todo mundo que estivesse com eles", disse uma moradora que não quis se identificar. 

    Indígenas clamam por segurança e direito à terra
    Indígenas clamam por segurança e direito à terra | Foto: Leonardo Mota

    Após o assassinato do Onça Preta, a polícia militar intensificou a

    segurança na área. Durante a coleta de informações na comunidade, uma viatura com dois policiais fazia a ronda no local. Os moradores, no entanto, não acham a medida suficiente.  "Eles [os policiais] são medrosos. Veem os bandidos e correm. E não tem como nós nos protegermos sozinhos. Uma flecha não para uma bala", declararam.

    O Portal EM TEMPO entrou em contato com as assessorias da Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) e da Polícia Civil para declarações, mas até o fechamento dessa matéria, não obteve respostas.

    Denúncia

    Em julho desse ano, os comunitários indígenas fizeram uma denúncia ao Ministério Público Federal (MPF-AM) relatando a contexto de ameaça e violência em quem vivem. Na representação, contam que vieram de aldeias do interior e receberam terrenos do líder da época, o também indígena Joel Rodrigues. Com o tempo, perceberam que o comando da região estava nas mãos de Higson de Oliveira, ligado a Reginaldo Soriano, o "Baiaca". Baiaca já havia sido preso em 2015 durante a operação Blackout, da SSP-AM na comunidade Cidade das Luzes, acusado de tráfico de drogas, venda ilegal de terrenos e formação de milícia em invasões de Manaus. 

    Denúncia feita pelos moradores ao MPF-AM em julho deste ano
    Denúncia feita pelos moradores ao MPF-AM em julho deste ano | Foto: Leonardo Mota

    Em junho desse ano, uma nova operação foi realizada, a "Cidade das Trevas". Baiaca foi novamente preso com mais oito pessoas pelos mesmos crimes. "Quem não foi preso, deixou a comunidade e assim começou um período de calma na região", dizem os moradores  na denúncia. Foi quando os caciques Onça Preta e Adnael Farias de Souza, o Farias, assumiram a liderança da comunidade. Onça Preta foi morto naquele mês. 

    O cacique Farias, também ameaçado, deixou a comunidade e voltou para o interior. O atual líder indígena conta que foi procurado pelos traficantes para que facilitasse e cooperasse com as atividades de tráfico dentro da comunidade. Ele não aceitou e passou a ser vítima de ameaças constantes.

    "É muito difícil comandar aqui. Tenho família e sou constantemente ameaçado. O Baiaca já bateu o martelo que vai me matar. Já recorremos às autoridades, mas só contamos com a proteção de Deus e dos nossos companheiros", alega o indígena. Segundo os comunitários, Baiaca está solto e ameaça a comunidade.

    Marcas de bala em uma das casas do cemitério dos Índios
    Marcas de bala em uma das casas do cemitério dos Índios | Foto: Leonardo Mota

    Na denúncia coletiva, os moradores dizem que houve uma tentativa de ataque ao líder no dia 3 de julho, mas os comunitários efetuaram disparos e assustaram os invasores. No dia 26, membros do Comando Vermelho também entraram em contato com a liderança, oferecendo proteção e melhorias como água encanada e luz elétrica em troca do controle da área. "Eles queriam vender os terrenos para comprar armas", afirmam no documento. Após a recusa, tornaram-se alvos da outra facção.

    Luta por terra

    Para o sociólogo Luiz Fernando Souza Santos, os indígenas que lutam pela terra no Cemitério dos Índios são alvo fácil dos narcotraficantes por uma série de fatores. Um deles seria a ineficiência da garantia de direitos fundamentais para esses povos. "Manaus nunca resolveu a questão da luta pela terra indígena, nunca ofereceu alternativas. Basta olhar as políticas de saúde e educação indígenas para ver que a cidade fracassou", afirma Santos.

    Outro motivo é a própria expansão da cidade que cresce sem supervisão. "Na Zona Norte, a cidade expandiu para lá, mas não foram criados mecanismos fundamentais para o ordenamento da cidade, regularização fundiária, de políticas de saúde, educação, segurança", explica o sociólogo. "Essas coisas ficam ausentes num contexto em que o narcotráfico vai tomando conta do mapa da cidade. Acaba que essas lideranças, que lutam por terra, se tornam alvos fáceis", completa. 

    Santos acredita que a violência na região aumentará enquanto os direitos básicos como segurança e moradia forem negados. "A inexistência da garantia de direitos só potencializa a violência que já existe. Há 30 anos, o embate era entre os que reivindicavam o território e os grileiros que se diziam proprietários. Hoje, você tem aquele que luta pela terra, o grileiro, os narcotraficantes e os milicianos. É uma luta muito mais violenta", resume o sociólogo. 

    MPF

    Em nota, o MPF-AM informou que acompanha a ocupação desde fevereiro de 2018. Após várias reuniões com lideranças indígenas e órgãos relacionados, foi constatado que a área de proteção estava sofrendo danos causados pela invasão. Em setembro daquele ano, foi movida uma ação pública para a desocupação do local. 

    Moradores reivindicam o direito ancestral à terra
    Moradores reivindicam o direito ancestral à terra | Foto: Leonardo Mota

    No início de agosto, o Ministério solicitou uma nova audiência com todos os envolvidos, incluindo a União, para que "possam garantir o adequado e humanizado cumprimento da ordem, sem violência, incluindo-se a intermediação da Funai para o caso de ocupantes indígenas", afirma a nota.

    Os indígenas alegam, no entanto, que têm direito ancestral à terra. "Só queremos viver em paz. Não queremos drogas nem crimes aqui dentro. Queremos criar nossos filhos com segurança, educação e dignidade, como todas as pessoas têm direito", enfatiza indígena.

    Comentários