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    Inclusão


    Carona contra o preconceito: conheça a primeira motorista trans do AM

    Conheça a motorista de aplicativo Sckarlleth Giovanna, que desvia do preconceito e busca espaço no mercado de trabalho no Amazonas

    A motorista transexual diz que o seu lugar é onde ela quiser | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Prestes a completar um ano como motorista de aplicativo, Sckarlleth Giovanna, de 21 anos, é considerada a primeira transexual do Amazonas que atua na área. A amazonense conta com orgulho que, com muita dedicação e esforço, vem ganhando espaço na profissão. Conheça as histórias do dia a dia da motorista que dribla o preconceito e luta pelo reconhecimento na área. 

    Giovanna sonha alto, não quer trabalhar apenas com corridas por aplicativos. Ela almeja ter duas profissões, ser enfermeira e caminhoneira. Dentre tantos sonhos, a jovem relata que já foi elogiada pela iniciativa em trabalhar como motorista e que colegas se inspiram na decisão dela em quebrar preconceitos. A transexual coleciona fãs a cada corrida que faz. 

    “Tem passageiro que, quando entra no carro, tem aquela surpresa e diz ‘Nossa, parabéns, vi seu perfil’, e elogia pela iniciativa, coragem e determinação, principalmente quando os passageiros ou passageiras são LGBT's", relembra.

    A motorista é referência contra o preconceito
    A motorista é referência contra o preconceito | Foto: Lucas Silva

    Tietada, principalmente por simpatizantes, a história da trans é compartilhada nas redes sociais. "Alguns passageiros fazem fotos. A ideia é inspirar outras trans, gays, lésbicas, pois não é fácil. Sabemos o nível do preconceito, mas temos que mostrar que somos capazes, que podemos estar em qualquer lugar e em qualquer profissão, independente da orientação sexual", relembrou emocionada pelo reconhecimento.

    Com o nome de registro Gilvan Castro dos Santos, Giovanna é um dos milhares transexuais que ainda não conseguiram usar o nome social no aplicativo.

    O cadastro de Giovanna, no início, foi recusado algumas vezes, por conta do nome de registro e da foto usada no perfil, mas ela resolveu ir ao escritório da empresa e resolveu a situação. 

    “No cadastro, tive dificuldades porque temos que tirar uma foto para colocar no perfil do aplicativo e, na minha habilitação, a foto ainda é de homem. Com isso, o sistema recusava. Quando fui ao escritório, fui bem atendida. Eles me ajudaram e tiveram que mandar um relatório para a Central, detalhando toda a situação. Eu quero resolver o quanto antes esse 'babado' do meu nome", relatou a motorista de forma alegre e esperançosa. 

    Dedicada, sonha em ter duas profissões
    Dedicada, sonha em ter duas profissões | Foto: Lucas Silva

    As corridas

    Em algumas situações, Giovanna precisa explicar quando questionada sobre a foto do perfil e o nome registrado no aplicativo de corrida. A motorista, em muitas situações, usa o jogo de cintura para informar aos passageiros sobre a sua orientação sexual. 

    “Como motorista é bem complexo, pois, quando entra alguém que não tem o costume de ler o perfil do motorista, pergunta logo ‘Você é Gilvan? Porque aqui aparece um homem’. Aí eu tenho que explicar que sou transexual, tem gente que interage, mas tem outras que se fecham e não falam mais nada. Já passei por inúmeras situações”, relembra Giovanna.

    Motorista conta sobre o dia a dia
    Motorista conta sobre o dia a dia | Foto: Lucas Silva

    Em outras situações de preconceito ou desinformação, a motorista conta histórias que parecem ser incomuns, mas que acontece com frequência. 

    “Certa vez, uma pessoa pediu o carro para terceiros. Quando o rapaz abriu a porta do carro e olhou para mim disse, em voz alta, ‘fulana, não é o que você disse não! ’. Eu fui bem direta e falei que sou transexual, se tivesse algum problema iria cancelar a corrida e ele não teria que pagar taxa de cancelamento, mas ele se desculpou e continuamos a corrida. Outra vez, foi em um condomínio. Uma senhora perguntou ‘É homem ou mulher’ eu disse sou trans, tem algum problema? Ela também se desculpou pela brincadeira sem graça". 

    Giovanna conta que precisou ter "jogo de cintura" em muita situações
    Giovanna conta que precisou ter "jogo de cintura" em muita situações | Foto: Lucas Silva

    Segurança

    Quando o assunto é a segurança dos motoristas de aplicativos em Manaus, tendo em vista o grande número de mortes com características de latrocínio em 2019, Giovanna sabe bem como agir diante de algum sinistro (linguagem usada entre os motoristas para situações de perigo).

    “Já fui assediada enquanto dirigia, recebi propostas indecentes, sem respeito algum com o meu trabalho. Para a minha segurança, verifico a nota do passageiro, o local de embarque, se é rua sem saída ou não. Mando uma mensagem para ver qual o vocábulo do (a) passageiro (a), pois conta muito também, e sempre paro um pouco antes para ver quem vem em direção ao carro, se está com alguma atitude suspeita ou se são mais de dois. Só destravo as portas depois de a pessoa me confirmar o nome para ver se coincide com o nome que aparece no aplicativo", conta a motorista. 

    Como brasileira, uma das maiores dificuldades é a exclusão no mercado de trabalho
    Como brasileira, uma das maiores dificuldades é a exclusão no mercado de trabalho | Foto: Lucas Silva

    Respeito

    Em uma das plataformas de aplicativos disponíveis, há o pedido de respeito, tanto do motorista, quanto do passageiro durante a corrida. Segundo a política da empresa, a tolerância é zero para qualquer discriminação, seja por raça, cor, gênero, idioma, nacionalidade, opinião. 

    No Brasil, há pelo menos 600 mil motoristas de aplicativos, segundo dados da UBER. No Amazonas, estima-se que de 5 a 8% dos motoristas sejam transexuais, segundo informou o representante dos motoristas de aplicativos no estado, Alexandre Matias, mediante pesquisas em cadastros e levantamentos de grupos.

    "O quantitativo é baixo, alguns não se declaram como tais, tanto para os clientes, quanto para as cooperativas. Nas plataformas, há o cadastro, mas não a declaração dos sexos masculino e feminino. Acreditamos que seja de 5 a 8%, estatisticamente, como também 15% são mulheres", relatou. 

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