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    Coronavírus


    ‘Se nada mudar, vou recomendar o Lockdown’, diz prefeito de Manaus

    Arthur Neto critica os discursos de Bolsonaro e diz que, se nada mudar, vai sugerir a Wilson Lima, o fechamento total das atividades comerciais e o confinamento das pessoas em suas casas

    Arthur disse que Manaus vive hoje "cenas de filme de terror"
    Arthur disse que Manaus vive hoje "cenas de filme de terror" | Foto: Alex Pazuello / Arquivo Semcom

    Manaus - "Se nada mudar, eu vou recomendar ao governador que decrete o chamado lockdown. Fecha tudo. Radicalizar mesmo". Essa foi a declaração do prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), dada em entrevista ao O GLOBO, publicada nesta sexta-feira (1º), feriado do Dia do Trabalhador. 

    Na reportagem, Arthur foi questionado sobre a não aceitação da população ao distanciamento social e da demora do governo federal para ampliar a capacidade de atendimento médico na cidade.   

    "Vamos salvar as pessoas mesmo que elas não queiram ser salvas. Lá na frente, elas vão poder avaliar se tomamos as medidas certas ou não. Mas primeiro elas precisam estar vivas", avaliou o prefeito. 

    Arthur disse, ainda, que tanto ele quanto o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), fracassaram ao implementar medidas de distanciamento social na capital e no estado.

    Segundo o Ministério da Saúde, o Amazonas é o que tem a maior taxa de incidência da doença em todo o Brasil. São 5.723 casos confirmados e 476 mortes. Segundo Arthur, Manaus vive hoje "cenas de filme de terror".

    Críticas ao presidente

    Na entrevista, o prefeito critica a velocidade da ajuda do governo federal à cidade e diz que parte da responsabilidade pela não adesão da população ao distanciamento é do presidente Jair Bolsonaro. Ele afirmou que, se nada mudar, vai recomendar a Lima que decrete o chamado "lockdown", que implica no fechamento total de todas as atividades comerciais da cidade e o confinamento das pessoas em suas casas.

    A entrevista 

    O Amazonas tem condições, hoje, de, sozinho, sair da crise de saúde em que está?

    Não. Sem o governo federal nos ajudar, não temos como sair dessa crise. Tem que ter uma presença federal muito forte, que a gente não vem percebendo.

    O senhor é a favor de uma intervenção federal na saúde do estado?

    Veja... eu não quero entrar em atrito com o governo do estado. Acho que a situação pode ser resolvida se o governo federal mandar o que a gente precisa por aqui, o que ainda não aconteceu.

    Como o senhor avalia as ações do governo federal para atender a crise no Amazonas?

    Na área da saúde, está horrível. Eu não vi nada, ainda. Estamos aguardando ansiosamente a chegada de aviões Hércules das Forças Armadas com EPIs, respiradores, macacões, insumos que a gente precisa para atender a gente. Está faltando medicamento. Nós estamos racionando remédios. Na época do (ex-ministro da Saúde Luiz Henrique) Mandetta, ele até se fazia presente, mas agora, minha esperança é que o general (Eduardo Pazuello), que conhece a região, possa nos ajudar. Eu estou preocupado porque vi um vídeo com o atual ministro (Nelson Teich), no qual ele fala sobre um dilema entre ajudar um idoso ou um jovem. Eu fico me perguntando: será que vamos ter que chegar a esse ponto e ter que dar ao médico o poder de Deus para escolher quem vive e quem morre?

    A crise afetou, também, os serviços funerários. Que medidas vocês estão tomando para evitar um caos nos cemitérios?

    Essa situação pegou todo mundo de surpresa. Estávamos numa crise entre parentes de vítimas e os coveiros porque muitos deles estavam trabalhando e caíram doentes. Estão fazendo um trabalho hercúleo. Reforçamos o número de equipes que estão trabalhando lá e colocamos tendas com padres e pastores para darem conforto às famílias. Antes dessa epidemia, a gente enterrava 30 pessoas por dia, em média. Ontem (segunda-feira), enterramos 142, das quais 28% morreram em casa. É quase um terço. Não sei se essas pessoas morreram porque se automedicaram, não tiveram acesso atendimento ou se porque acharam que, como disse o presidente, era só uma gripezinha. É um negócio sinistro, mesmo. A gente está vendo cenas de filme de terror.

    Para quando está previsto o pico da doença em Manaus?

    Nossos estatísticos estimam que o pico deve acontecer na segunda semana de maio.

    Apesar dos números e das imagens, Manaus continua sendo uma das capitais com baixa adesão ao isolamento social. Por que o senhor acha que a população da cidade não aderiu a essas recomendações?

    Acho que há um fator cultural. Meu secretário de obras anda pelas periferias e ouve as pessoas dizendo que a Covid-19 é doença de rico, que não vai pegar em pobre, no caboclo. Mas elas estão vendo as pessoas morrendo. Outro fator é a pregação do presidente Jair Bolsonaro contra essas medidas. Ele diz que precisamos salvar a economia, mas nunca vi salvar a economia com gente doente. A realidade é que eu fracassei em relação ao distanciamento social. Fracassei assim como o governador e todo mundo que está a favor do distanciamento social. Fracassamos perigosamente. Por isso que vamos, ainda nesta semana, dar início a uma campanha de mídia pesada para tentar convencer as pessoas a aderirem ao isolamento.

    *Com informações do portal O GLOBO


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