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    Pandemia


    Covid-19 não escolhe idade: a doença levou de bebês a idosos, no AM

    Vítimas tinham sonhos. Queriam viajar pelo Brasil ou construir a casa própria. Mas veio a Covid-19 e interrompeu tudo

    | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Em seu último boletim epidemiológico, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas apontou que mortes pelo novo coronavírus foram registradas em praticamente todas as faixas de idade, de bebês a idosos. Os dados quebram o estigma de que apenas pessoas da terceira idade, que são grupo de idade, morreram pela doença. Na verdade, segundo as informações coletadas pelo órgão, a Covid-19 não tem escolhido vítimas específicas.

    Datado de 7 de maio, até o período, o Amazonas tinha 751 mortes por coronavírus. A coleta de dados foi dividida por sexo masculino e feminino. No caso dos homens, até a data, haviam morrido 512. Deste número, cerca de 18 deles (3,7%) tinham entre 20 a 39 anos. 

    Mas a doença também levou outras vítimas do sexo masculino mais velhas. Cerca de 132 homens mortos pelo novo coronavírus tinham entre 40 e 59 anos (25,9%). Já os idosos eram um total de 359 vítimas (70,2%).

    O mesmo ocorre ao se observar o número de mulheres mortas. O coronavírus, no Amazonas, também levou vítimas de várias idades. De 239 óbitos pela doença até o dia 7 de maio, 7,6% delas tinha entre 20 e 39 anos de idade. Houve ainda dois casos de mortes de bebês com menos de um ano.

    Ainda sobre vítimas do sexo feminino, morreram cerca de 60 mulheres que tinham cerca de 40 a 59 anos. Por fim, idosas (acima de 60), somaram 158 mortes.

    Um casal, 19 anos de diferença, mas a mesma morte

    Casal tem quase 20 anos de diferença. Ele tinha doenças pré-existentes, ela não. Ambos faleceram
    Casal tem quase 20 anos de diferença. Ele tinha doenças pré-existentes, ela não. Ambos faleceram | Foto: Reprodução

    Quem conta a história dos dois é o filho do casal, Leandro Leite, de 28 anos. O pesadelo dele começou no dia 22 de abril quando seu pai, o jornalista Roberto Augusto, 69, começou a manifestar os sintomas do novo coronavírus.

    "Ele já havia manifestado alguns sintomas, mas ainda fracos. Achávamos que era apenas uma inflamação na garganta, mas nesse dia [22 de abril] ele começou a sofrer com falta de ar e levamos ele até o 28 de agosto. Quanto ele chegou, a saturação estava em 90% e ele já ficou internado", lembra o filho.

    Ele diz que no início, o pai foi diagnosticado com um princípio de pneumonia e na sexta-feira foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). No entanto, ele não resistiu, e no dia seguinte, Leandro e sua mãe, Marcia Leite, receberam a informação que Roberto havia falecido naquela madrugada.

    "Após o enterro dele no domingo, minha mãe e eu, devido a rotina dos últimos dias, caímos em febre e começamos a nos cuidar em casa com medicação e chás. Minha mãe estava com sintomas iniciais de coronavírus, mas ficou traumatizada com o que viu meu pai passar no hospital e preferiu não receber atendimento lá. Eu ainda insisti, mas ela sempre negava", diz Leandro.

    Filho diz que tinha o sonho de levar a mãe para viajar
    Filho diz que tinha o sonho de levar a mãe para viajar | Foto: Reprodução

    Até que nono dia de tratamento em casa, Marcia passou a tossir muito, principalmente durante a noite. Ela apresentou grande dificuldade para respirar e não conseguia completar uma frase por ficar sem fôlego. Leandro lembra, com pesar, que ele finalmente convenceu a mãe a ir ao hospital, mas ela não conseguiu mais sair pela porta com vida.

    "Quando convenci que ela me deixasse levá-la ao hospital, enquanto ela se arrumava para ir, começou a ficar transtornada, mole, com os olhos bem abertos, em um estado de choque. No mesmo instante eu tentei levá-la até o carro, mas ela caiu e começou a dizer que estava muito cansada. Eu pedi que ela ficasse firme e voltasse para mim. Ela insistiu que eu não deveria me preocupar. E de repente eu senti o corpo dela ficar mole. A mão dela, que eu segurava, foi soltando da minha mão. Ela faleceu ali mesmo", lembra o filho de Márcia. 

    Ele lembra que o pai já era idoso e sofria de alzheimer. O que a família desejava para ele era estabilidade mental e emocional. Já a mãe não tinha doença pré-existente, a não ser o fato de ser obesa. Leandro diz que ela tinha muitos sonhos.

    "Minha mãe sempre morou alugado. Então tínhamos o sonho de construir uma casa própria no terreno que ela era dona de uma parte. Queríamos viajar também, porque o único lugar que minha mãe conhecia era Santarém, quando foi na juventude. Eu ainda queria poder levá-la para conhecer as grandes capitais e o litoral do Brasil", desabafa o jovem, agora órfão.

    Leandro diz que o resultado que confirma a morte por Covid-19 ainda não saiu para nenhum de seus pais, mas que eles apresentavam todos os sintomas, inclusive falta de ar e febre, características da doença.

    Uma viagem desmarcada - para sempre

    Vera foi curada da doença após dias no hospital
    Vera foi curada da doença após dias no hospital | Foto: Reprodução

    Também em Manaus, um casal que era unido por amor, acabou por ser separado por uma estatística. A de óbitos e recuperados. Quem conta a história é Vera Feitoza, 49. Ela e o marido, Winston Paiva, 50, foram infectados pela doença e começaram a manifestar os primeiros sintomas em 1 de maio. 

    "Eu tenho asma e fui quem ficou mais mal primeiro. No dia, ele [o marido] me levou ao hospital onde fiquei internada e depois voltou para casa. Apenas cerca de três dias depois foi a vez dele se juntar a mim na internação. Ele, que também tinha asma, passou a apresentar sintomas da Covid-19", lembra Vera.

    Ela diz que no dia 26 o marido apresentou melhora, mas já no dia seguinte voltou a ser internado e foi direto para Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Enquanto ele estava internado, ela melhorou da doença e foi liberada no dia 9 de maio.

    "Apesar de eu ter sido curada e recebido alta, meu marido continuou internado por vários dias. Até que na última terça-feira, dia 12, ele não resistiu", diz Vera.

    Winston deixa a mulher, dois filhos, mas acima de tudo, grandes exemplos para a vida
    Winston deixa a mulher, dois filhos, mas acima de tudo, grandes exemplos para a vida | Foto: Reprodução

    Winston deixou dois filhos menores de idade e muitos sonhos com a família. Vera lembra que ele era uma pessoa que gostava de ajudar a todos, um bom marido e um exemplo para os filhos.

    "Ele fez 50 anos esse ano. Em 2021, que é quando eu também faço 50, nós tínhamos um plano de fazer uma viagem internacional. Iríamos comemorar nossa idade nos Estados Unidos. Infelizmente, nossa viagem foi desmarcada para sempre", diz ela.

    Vera lembra do esposo como uma pessoa que sempre amava ajudar, que fez muita amizade apenas pelo seu jeito brincalhão que era uma referência de ser humano para muitos. 

    Muitas outras histórias com idades diversas

    Apesar de haver muitas mortes confirmadas pelo novo coronavírus no Amazonas, apenas uma de três mortes desta matéria recebeu o resultado positivo para Covid-19. O primeiro casal relatado foi enterrado como óbito por síndrome respiratória aguda grave, ainda que tivesse todos os sintomas do novo coronavírus.

    O caso escancara o buraco da grande subnotificação - casos fora da estatística oficial - que existem no Brasil. Por falta de testes, muitas pessoas são infectadas e por vezes até morrem por causa da doença, mas não entram para os dados oficiais.

    Foi pensando nisso que André Mendonça, professor de Ciências Florestais da Universidade Federal do Amazonas, desenvolveu, em conjunto com outros pesquisadores e alunos a plataforma ColabCovidBR. O site permite que voluntários armazenem informações sobre vítimas e infectados da Covid-19 no Brasil, para tentar dar um norte sobre subnotificação no País.

    "A plataforma garante que as pessoas que cadastrarem vítimas ou infectados fiquem em anônimo. Tanto quem registra o dado como os pacientes e vítimas ficam ocultos. Tudo o que pedimos é que as pessoas usem, porque é uma plataforma colaborativa como a Wikipedia ou o StreetView, ou seja, quanto mais gente participar, melhor será a qualidade da informação", comenta o professor. 

    Para acessar o site, você pode clicar neste link

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