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    Pandemia


    Novo epicentro da Covid-19 no AM, interior sofre com a doença

    Com mais casos de Covid-19 do que a capital, Manaus, parte dos municípios não suspendeu comércio não essencial e só um restringiu, via decreto, a circulação de crianças e idosos.

    Manaus - AM, 03.04.2020. População ignora a recomendação de isolamento social. Foto: Lucas Silva/ Em Tempo | Foto: Lucas Silva

    Segundo dados da UFAM, das 59 infectadas, apenas 39 decretaram suspensão de serviços não essenciais
    Segundo dados da UFAM, das 59 infectadas, apenas 39 decretaram suspensão de serviços não essenciais | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Dos 1.559 novos casos de coronavírus registrados no Amazonas até esta quarta-feira (27), a maior parte (1.161) está no interior do Estado. Enquanto a capital, Manaus, tem registrado menores números de novos pacientes e mortes. Ainda que gradualmente, as cidades do interior já demonstram terem se tornado o novo epicentro da pandemia no Estado.

    De um total de 33.508 casos de Covid-19 no Amazonas desde o primeiro paciente, em 13 de março, mais da metade dos novos infectados (58,88%) foi registrado no interior. A doença se espalhou por 59, dos 62 municípios.

    O Top 5 de cidades interioranas com maiores números de casos é integrado por Manacapuru (2.100), Coari (1.690), Tefé (1.531), Parintins (1.059) e São Gabriel da Cachoeira (929). Os dados são foram fornecidos pelas secretarias de saúde dos municípios.

    Das 59 cidades com casos confirmados, quase todos (47) apresentaram mortes pela doença. Onde mais morreram pessoas pela Covid-19 foi  em Manacapuru (88), seguida de Parintins (52).

    Até esta quarta-feira,  apenas dois municípios não haviam registrado casos da doença. São eles, Envira e Ipixuna. Até a data, as cidades contavam apenas com casos suspeitos e em investigação.

    Números crescentes, população nas ruas

    Embora os municípios do interior do Amazonas estejam vendo os casos de Covid-19 e as mortes aumentarem, parte deles ainda vive uma realidade onde 'não existe pandemia'. Dados coletados por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas mostram como a maioria das cidades interioranas aderiu - ou não - às medidas de distanciamento social.

    Por decretos de prefeitos, dos 59 'municípios infectados' com a doença', apenas uma cidade restringiu a circulação de crianças e idosos. Também deste total, apenas 39 decretaram a suspensão de serviços não essenciais. Por último, apenas oito municípios proibiram eventos públicos. 

    São Gabriel da Cachoeira

    Manifestação em São Gabriel da Cachoeira
    Manifestação em São Gabriel da Cachoeira | Foto: Paulo Desana/Amazônia Real

    Uma reportagem da agência Amazônia Real mostrou que moradores do município de São Gabriel da Cachoeira fizeram uma manifestação na terça-feira (26) e pediram que fosse instalado um hospital de campanha na cidade. O município conta apenas com um hospital administrado pelo exército, mas sem leitos de UTI.

    Indígenas afetados

    O Amazonas é o Estado mais indígena do Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É nele que também está a cidade mais indígena do País, onde mais de 70% dos cidadãos são de alguma etnia indigenista, São Gabriel da Cachoeira.

    Distante mais de 800 km de Manaus, a cidade viu os casos de coronavírus explodirem em pouco tempo. Até ontem, haviam sido registrados 929 infectados. Mortes somavam 21, segundo a Secretaria de Saúde do município.

    José Pereira é líder da Associação Yanomami  do Rio Caburi e Afluentes (Ayrca)
    José Pereira é líder da Associação Yanomami do Rio Caburi e Afluentes (Ayrca) | Foto: Reprodução

    José Pereira é indígena do povo Yanomami e reside na aldeia Maturacá, em Santa Isabel do Rio Negro. Líder de uma associação indígena, ele conta com pesar já ter visto seus parentes infectados pelo novo coronavírus.

    "Meu amigo, estou muito triste porque esse vírus atravessou o mundo e chegou até nossa aldeia Yanomami”.

    Até ontem, havia 745 indígenas infectados com a Covid-19 nos nove estados da Amazônia brasileira e as mortes totalizavam 129. Os dados são coletados e divulgados diariamente pela Confederação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

    Avião vira ambulância

    Por não possuírem hospitais com leitos de unidades de terapia intensiva (UTI), quem desenvolve casos mais graves da doença no interior do Amazonas precisa ser transferido para Manaus. Esse fato faz com que amazonenses sejam as pessoas que precisam viajar mais longe para conseguir atendimento médico na pandemia, segundo um levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

    Amazonas, Pará e Mato-Grosso é onde moram, em parte, 7,8 milhões de brasileiros que estão a mais de 4h de distância de um leito de UTI. 

    Parte dos municípios do interior tem apenas os chamados leitos clínicos, que, apesar de ajudaram a manter os pacientes da Covid-19 com certa estabilidade, não dão conta de todo o tratamento, que é mais complexo

    o EM TEMPO publicou uma matéria sobre como os povos da floresta têm tido que escolher, em muitos municípios do Amazonas, se contraem a Covid-19 ou sacam o auxílio emergencial. Enquanto os indígenas são orientados a não saírem das aldeias, eles não têm outra opção se não precisar ir até agências bancárias e lotéricas para sacar o benefício de R$ 600 do Governo Federal. 

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