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    Inclusão


    Uso de máscaras dificulta comunicação para pessoas surdas em Manaus

    Comunicação de pessoas com deficiência auditiva é estabelecida por meio de libras, expressões faciais e
    leitura labial

    Máscaras têm tornado a comunicação de pessoas com deficiência auditiva ainda mais difícil | Foto: Lucas Silva

    Manaus – Diante da pandemia o uso de máscaras se tornou uma das principais formas de prevenção contra o contágio da Covid-19. As máscaras de tecido são uso obrigatório em locais púbicos e apesar de serem itens essenciais no cotidiano da população, a proteção tem tornado a comunicação de pessoas com deficiência auditiva ainda mais complexa devido aos desafios em estabelecer fatores importantes na comunicação.

    O uso obrigatório das máscaras faciais proporciona proteção e com a ausência de uma vacina é um dos principais métodos de prevenção. A infectologista Ana Galdina, destacou a importância do uso de máscaras durante a pandemia do novo coronavirus e como ela pode ser um fator importante na diminuição do contágio entre as pessoas.

    “A máscara é o principal mecanismo de barreira para conter a propagação do vírus, elas funcionam como um filtro que impede que as gotículas expostas pela fala possam atingir as pessoas ao seu redor, então se a gente tem dois indivíduos que estão se comunicando no mesmo ambiente com a máscara a probabilidade de contágio é menor. Tanto houve uma diminuição de contaminação após o uso obrigatório das máscaras em Manaus”, explicou.

    Comunicação

    Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), 5% da população brasileira possui deficiência auditiva
    Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), 5% da população brasileira possui deficiência auditiva | Foto: Lucas Silva

    Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), 5% da população brasileira possui deficiência auditiva. O dado corresponde a 10 milhões de brasileiros surdos que residem no país, a comunicação para as pessoas com deficiência auditiva é constituída por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e é considerada a língua materna, por ser a primeira a ser aprendida. As línguas de sinais usam gestos e movimentos para substituir a comunicação por meio de sons, as expressões faciais e a leitura labial também auxiliam a comunicação dos deficientes auditivos.

     “Uma estratégia para pessoas surdas conseguirem estabelecer a comunicação entre si é fazer uso das viseiras protetoras, pois elas protegem do contágio e possibilitam a comunicação com todos os aspectos, claro que elas devem ser usadas quando nenhuma das partes apresentam sintomas do vírus e respeitem a distância de dois metros”, recomendou Galdina.

    O desafio na hora de se comunicar passou a ser vivenciada pelo fotógrafo Leonardo Sávio, que precisou optar por sistemas virtuais para resolver problemas devido à dificuldade na comunicação durante pandemia.

    “No começo não senti dificuldade, mas com passar dos dias foi ficando difícil, principalmente em lugares como mercado, padaria e banco, pois a comunicação visual da leitura labial complicou bastante. Por isso, optei em resolver ações do cotidiano por ligações e aplicativos para achar uma solução”, afirmou.

    A leitura labial é um dos fatores mais importantes na comunicação de pessoas surdas
    A leitura labial é um dos fatores mais importantes na comunicação de pessoas surdas | Foto: Lucas Silva

    Sávio é surdo do lado esquerdo do ouvido e faz uso de parelho auditivo do lado direito. Ele conta que a leitura labial é um dos fatores mais importantes na comunicação de pessoas surdas e que devido à dificuldade de estabelecê-la tem evitado em se comunicar com pessoas que não sabem da sua deficiência.

    “A leitura labial é essencial para tudo no dia a dia. É por meio dela que evitamos pedir que as pessoas repitam suas falas. No momento é impossível fazer a leitura labial e isso faz com que as pessoas precisem repetir algumas vezes as informações faladas e nem todo mundo é compreensível e paciente para isso fazendo com que a situação fique desconfortável e humilhante”, contou o fotógrafo.

    Com as máscaras não é possível que os surdos vejam as expressões faciais das pessoas da qual se comunicam, isso faz com que a informação se torne incompleta como explica a estudante Rosiane Rodrigues.

    “Não sei se a pessoa está fazendo uma expressão triste, feliz ou se está questionado ou afirmando, pois, a máscara cobre quase 50% do rosto e isso dificulta na hora de conversar. Isso faz com que a dificuldade seja tão grande que algumas pessoas optem por tirar a máscara no meio da conversa para entender as informações”, explicou.

    Segundo Rosiane, a falta de êxito na comunicação durante a pandemia também fez com que a estudante fosse incapaz de se defender de situações maldosas.

    “Em um certo dia, eu estava na feira e alguém chegou para falar comigo e eu precisei ignorar, pois não consegui entender, isso fez com que eu não soubesse se estavam falando algo de ruim de mim ou não. As pessoas não são compreensíveis e às vezes fofocam e fazem comentários maldosos”, relatou.

    A estudante entende a importância do uso das máscaras e por isso procurou itens especializados para pessoas mudas na capital amazonense, mas não obteve sucesso.

    Inclusão

    As máscaras especializadas para pessoas surdas são confeccionadas com tecido. O diferencial do item é um material transparente na parte da boca que permite aos deficientes auditivos realizarem a leitura labial durante a comunicação. De acordo com a infectologista, as máscaras transparentes possuem a mesma eficácia que as comuns.

    “As máscaras transparentes não apresentam nenhuma contraindicação, elas protegem da mesma forma que as de pano comum. A confecção é extremamente importante para que a população entenda que existem grupos que precisam de uma atenção diferenciada nesse momento”, destacou Ana.

    As máscaras transparentes permitem que os surdos possam realizar leitura labial
    As máscaras transparentes permitem que os surdos possam realizar leitura labial | Foto: Divulgação

    Apesar das máscaras transparentes ainda não serem produzidas em Manaus, em muitas cidades do país a confecção já está a todo o vapor, como conta a costureira Márcia Priscilla quem confecciona as máscaras no município de Hortolândia o interior de São Paulo.

    “A iniciativa começou por meio de uma amiga que é psicóloga e trabalha em uma clínica multidisciplinar com crianças. Muitas são autistas e necessitam da visualização para a comunicação. Ela iria voltar aos atendimentos presenciais e me mandou uma foto das máscaras transparentes, fiz algumas adaptações e desde então tenho recebido uma grande procura”, afirmou.

    Para a costureira, a confecção das máscaras é uma forma significativa de inclusão de pessoas surdas nesse período.

    “Essa inclusão é importantíssima, já que estamos sendo obrigados a fazer uso das máscaras. Eu gostaria de poder fazer em maior quantidade, mas como trabalho em casa e o trabalho diminuiu muito, não consegui, mas poder fazer as pessoas se sentirem incluídas é uma grande satisfação”, analisou Márcia. 

    Para as costureiras, as máscaras são formas de inclusão
    Para as costureiras, as máscaras são formas de inclusão | Foto: Divulgação

    A confecção das máscaras também acontece no estado do Pará, por meio da fonoaudióloga, Samia Kassahara que já trabalhava com itens personalizados e no início da pandemia uniu a confecção com a produção e passou a oferecer máscaras especializadas para surdos. 

    "Existe uma procura significativa das máscaras com transparência. Além das próprias pessoas com deficiência auditiva, há uma procura pelos profissionais da área da saúde e educação que lidam com esse público. É uma felicidade extrema saber que de alguma maneira em meio a uma pandemia, estou contribuindo positivamente ajudando à inclusão na vida de tantas pessoas", reconheceu a profissional. 

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