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    Sociedade


    Drama social: moradores de rua em Manaus vivem em condições desumanas

    Muitos escolhem viver nas ruas e outros não têm essa escolha, estão lá por um processo socialmente excludente e precisam de apoio da gestão pública

    Durante uma visita à Praça da Saudade, localizada na rua Simão Bolívar, no Centro da cidade, Zona Sul, a equipe do EM TEMPO encontrou um grupo de pessoas em situação de rua | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Muitos moradores de rua podem ser encontrados em diversos pontos de Manaus vivendo em condições desumanas, às vezes até famílias inteiras, mas o que os motivam a viver assim? A doutora em Serviço Social Rosiane Pinheiro Palheta, comandou um estudo que avaliou as questões que envolvem essas pessoas, como os motivos de estarem nas ruas e as condições em que vivem.

    A pesquisa foi feita em campo, com 144 pessoas em situação de morador de rua no Centro de Manaus. Foi verificado que a maioria da população é do sexo masculino, o que é um fator de risco, pois eles acabam em conflitos por territórios, conforme explica Rosiane. "O fato de a maioria ser do sexo masculino acaba gerando risco pela Constituição da territorialidade onde grupos são formados e a luta pelo território, que leva a muitos assassinatos de outras pessoas que não são traficantes, mas são dependentes do uso da droga".

    Muitos vão para as ruas por não ter outra opção
    Muitos vão para as ruas por não ter outra opção | Foto: Lucas Silva

    Cada pessoa é motivada por algo diferente. No caso das pessoas transsexuais, por exemplo, o conflito familiar é um motivo recorrente. Muitos escolhem viver nas ruas e outros não têm essa escolha, estão lá por um processo socialmente excludente. 

    "São situações bem complexas que na maioria dos casos, são geradas dentro da família e externalizadas em dispersão, negação e até mesmo a compreensão de que a rua é melhor que a casa. Existem muitos casos em que a pessoa prefere sim ficar na rua porque considera lá mais aconchegante e mais seguro que dentro da família. Existem situações que os conflitos familiares são mais difíceis, pois a dependência química é o motivo das pessoas estarem na rua e nestes casos, apesar de haver vínculo afetivo, ele é suprimido pelo vínculo com o álcool e as drogas", explica Rosiane.

    Para o Dr. Luiz Antônio Souza, sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a questão dos moradores de rua é uma das expressões mais explícitas da desigualdade social, da exclusão social e do caráter excludente do capitalismo, característico como perverso e cruel.

    "Veja bem, só uma sociedade extremamente excludente produz homens e mulheres de rua. E aí você tem dois tipos distintos dessas pessoas, aquelas que não conseguem se relacionar social, afetiva e economicamente com seus familiares e a sociedade, que vão para as ruas. E um outro tipo é o que inclui as pessoas que foram descartadas pelo capitalismo, não demonstra mais importância. Eu costumo dizer que até coelho tem direito a uma toca, por que não um ser humano?", explica o sociólogo.

    Algumas pessoas chegam a estender redes em praças públicas durante o dia
    Algumas pessoas chegam a estender redes em praças públicas durante o dia | Foto: Lucas Silva

    Enganado por uma oportunidade de trabalho

    Durante uma visita à Praça da Saudade, localizada na rua Simão Bolívar, no Centro da cidade, Zona Sul, a equipe do EM TEMPO encontrou um grupo de pessoas em situação de rua. Um deles é Erivaldo Macedo, 46, baiano que mora em Manaus há dois anos e oito meses. Sua cidade natal, Coronel João Sá, é um município no interior da Bahia que faz parte do Polígono das Secas, característico por ser árido e seco, o que prejudica a subsistência da população. Ele conta que veio à capital amazonense depois de receber uma oportunidade de emprego, mas ao chegar aqui a situação foi bem diferente.

    “Eu vim para cá a trabalho, eu trabalho com vigilância de bairros, só que eu fui enganado. Aqui me prometeram coisas e chegando na cidade eram outras. Mesmo morando nas ruas, ainda é melhor que lá. A base de vida lá é a agropecuária e sem chuva a renda não existe. Passaram cinco anos sem chuva, animais morreram, é assim lá” conta Erivaldo.

    Ao ser questionado sobre a família, ele conta que deixou dois filhos no Nordeste, um na Bahia e outra no Sergipe, mas não mantém contato com eles. “A menina é criada pela tia. Assim que a minha filha nasceu a mãe não tinha condições de cuidar e eu não morava com elas, e na mesma época a tia tinha perdido um bebê. A minha filha já tinha sido doada para adoção e a tia foi buscar e criou ela. Eu só descobri isso oito anos depois”.

    Erivaldo diz que morar nas ruas ainda é melhor do que viver em sua cidade natal
    Erivaldo diz que morar nas ruas ainda é melhor do que viver em sua cidade natal | Foto: Lucas Silva

    Depois que começou a morar nas ruas, ele voltou a ser usuário de drogas. Conseguiu trabalhos como carregador na Feira da Manaus Moderna, também no Centro, mas diz que a disputa entre os trabalhadores do local é perigosa e preferiu não correr o risco. “Já trabalhei lá [Manaus Moderna] e é mais pesado. A concorrência era muito grande, às vezes por uma mala que você carrega pode levar uma facada nas costas”, explica. Hoje ele conseguiu uma oportunidade trabalhando em uma banca de bebidas.

    Erivaldo diz que costuma comer no espaço provisório do Centro Estadual de Convivência do Idoso (Ceci) na Aparecida, no bairro Aparecida, Zona Sul, administrado pela Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc).

    “Eu venci o coronavirus”

    Na Praça dos Remédios, localizada na rua Cel. Sérgio Pessoa, também no Centro, foram flagrados muitos moradores de rua. O senhor Valter Lopes, 62, conversou com a equipe do EM TEMPO e disse morar na Zona Sul de Manaus há 20 anos, por escolha própria. Esteve em um casamento por 25 anos até que se separou e decidiu se distanciar da família, mantendo contato com os filhos, que vão visitá-lo e chegam até a levar os netos.

    "Se tiver perto vou levar coisa ruim para eles"

    “Eu escolhi estar aqui. Eu trabalho reparando os carros e quando consigo dinheiro vou para um quarto que tem ali por R$ 30. Eles vêm aqui, minha filha, meu filho, meus netos, mas quanto mais longe melhor, eu sei que se tiver perto vou levar coisa ruim para eles. Eu me sinto bem vivendo minha vida. Não gosto de dizer que sou morador de rua, eu convivo com o pessoal”, explica o idoso.

    Há pouco mais de um mês, Valter foi diagnosticado com Covid-19. Ao sentir uma falta de ar muito forte, pediu ajuda de outras pessoas que chamaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e foi levado ao Hospital 28 de Agosto, depois encaminhado ao Hospital de Combate à Covid-19 Nilton Lins, onde esteve internado, em estado grave, e se diz extremamente grato a todos os profissionais que o ajudaram a passar por esse momento difícil e voltar à vida. 

    Valter mostra com orgulho a plaquinha que recebeu do hospital quando teve alta
    Valter mostra com orgulho a plaquinha que recebeu do hospital quando teve alta | Foto: Lucas Silva

    “Eu queria um dia ter o privilégio de falar para eles que eles salvaram minha vida. Agradecer a cada um. Passei 26 dias internado, fui entubado, e eles fizeram muito por mim. Gostaria de agradecer de coração aquelas pessoas que me ajudaram. Quando eu estava lá dentro vi pela televisão o pessoal saindo e chorei. Quando eu saí, com uma turma também, recebi o certificado e tudo, é muito emocionante”, conta.   

    A liberdade tem um preço caro. Mesmo tendo a oportunidade de estar no abrigo para moradores de rua implantado na Arena Amadeu Teixeira, Valter diz que não conseguia estar lá, sem poder conquistar seu dinheiro, sem a liberdade que tem. “É bom o tratamento lá, quem me levou lá foi o pessoal do Nilton Lins. Mas aí fica aquele monte de gente sem fazer nada, tudo ali dentro. Aqui eu estou em liberdade, o que eu precisava era de saúde. Eu trabalho aqui, reparo os carros, as pessoas confiam em mim. Não bebo, não fumo, fico na minha”.

    Locais de apoio

    Além do espaço provisório no Ceci Aparecida, os dois e muitos outros moradores em situação de rua não possuem conhecimento de nenhum programa apoio, mas há diversas ações realizadas pela Prefeitura de Manaus, por meio da Semasc. Apenas nos últimos três meses, foram disponibilizadas mais de 20 mil refeições e banhos no espaço do Ceci, que funciona diariamente das 11h às 13h e oferece 250 refeições diárias. Os banhos são alternados entre segunda, quarta e sexta-feira.

    Ainda existe o Centro Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Centro POP), localizado no bairro Petrópolis, Zona Sul de Manaus. O Centro POP assegura atendimento e atividades direcionadas para o desenvolvimento social dessas pessoas, na perspectiva de fortalecimento de vínculos interpessoais e/ou familiares, além de oferecer trabalho técnico para a análise das demandas dos usuários, orientação individual e grupal, encaminhamentos a outros serviços socioassistenciais e das demais políticas públicas que possam contribuir na construção da autonomia, inserção social e proteção às situações de violência.

    As abordagens aos moradores são feitas pelo Serviço Especializado em Abordagem Social, que identifica os territórios onde as pessoas se encontram e visa a emancipação dos indivíduos e a inserção na rede de serviços socioassistenciais.

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