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    Pandemia


    Indígenas se expõem à Covid-19 para ter o que comer, no AM

    Com o turismo encerrado e as fontes de renda em baixa, indígenas se expõem em agências bancárias e loterias para sacar benefícios governamentais a fim de comprar comida

    | Foto: Ana Amélia Hamdan/Amazônia Real

    Manaus - Quase metade dos indígenas do Brasil (49%) vive na classe E, considerada mais pobre. O dado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajuda a entender a realidade econômica dos povos tradicionais e o porquê de eles serem um dos principais solicitantes do auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal. A necessidade do benefício é tanta que boa parte deles têm se exposto à Covid-19 em agências bancárias lotadas, como já havia noticiado o EM TEMPO. No entanto, a cena se repete mais uma vez.

    Uma reportagem da agência de notícias Amazônia Real denunciou como indígenas do povo Yanomami têm se arriscado para conseguir o benefício governamental, em São Gabriel da Cachoeira (SGC), município distante 865 km de Manaus. 

    Por falta de atendimento que considere a realidade do isolamento e falta de internet, indígenas têm se aglomerado às margens da BR-307, na área urbana de SGC, o município mais indígena do Brasil. 

    Nos barracões improvisados com lona e madeira, eles aguardam o momento em que podem se dirigir às agências bancárias, onde mais uma vez, ficam aglomerados e consequentemente expostos ao novo coronavírus.

    Nas imagens é possível ver a aglomeração dos integrantes do acampamento. Nenhum deles aparece de máscara. Além disso, o local aparece tomado por lixo e o chão de barro não limita o que é a parte de fora e a de dentro dos barracos. 

    Indígenas se aglomeram em pequenos espaços, dentre saudáveis e pessoas no grupo de risco para a Covid-19
    Indígenas se aglomeram em pequenos espaços, dentre saudáveis e pessoas no grupo de risco para a Covid-19 | Foto: Ana Amélia Hamdan/Amazônia Real

    Crianças e idosos dividem o pequeno espaço com redes, galões de água e o calor escaldante característico dessa época do ano na Amazônia.

    "Essa questão de benefício [de R$ 600] não deixa as pessoas ficarem nas aldeias. Eles precisam de alguns objetos, como tabaco, calção e rede. Às vezes [a falta desses itens] atrapalha nesse cenário de crise. Problema muito difícil. Isso atrapalha o isolamento social. Querem comprar alguma coisa, necessitando na aldeia: sabão, sabonete, terçado", desabafou Dario Vitório Kopenawa, vide-presidente da Hutukara Associação Yanomami. A entrevista foi concedida à Amazônia Real.

    Sacar benefício ou contrair Covid-19?

    A lotação nas agências e lotéricas também é relatada por Nildo Fontes, vice-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). Ele mora em São Gabriel da Cachoeira, o mesmo município que tem visto as cenas retratadas acima.

    Nildo Fontes é ativista pela causa indígena
    Nildo Fontes é ativista pela causa indígena | Foto: Julia Radler/ISA

    "Muitos indígenas precisam sair das aldeias para conseguir sacar os benefícios governamentais, como o auxílio de R$ 600 e até o Bolsa Família. E isso tem feito muitos se infectarem, digo para você. A aglomeração nas agências é grande e infelizmente eles precisam passar por isso para ter algum dinheiro para sobreviver", relata Nildo.

    O vice-presidente da Foirn retrata o caso de muitos indígenas que precisam de benefícios governamentais, já que a maioria deles estão associados à pobreza e más condições de trabalho.

    Indígenas na pobreza

    Enquanto encontram dificuldades, boa parte dos indígenas precisa do benefício governamental. No Brasil e no mundo, eles estão associados à pobreza e más condições de trabalho. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), por exemplo, mais de 86% da população indígena global trabalha na economia informal, geralmente associada a más condições de trabalho e à falta de proteção social. 

    Como dito no início desta reportagem, quase metade dos indígenas vive na pobreza. Do total de indígenas no Brasil, que é de cerca de 869,9 mil, 18% (156 mil) vivem na extrema pobreza. O dado sobre a quantidade de indígenas é da Fundação Nacional do Índio (Funai), e o econômico é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    Contradições no auxílio para indígenas

    Ainda no dia 18 de março, uma semana depois de a Covid-19 ter sido declarada pandemia, a Fundação Nacional do Índio (Funai) proibiu a entrada de turistas em aldeias indígenas. Além disso, orientou para que indígenas se isolassem nas aldeias para evitar o contágio pelo novo coronavírus.

    Já no início de abril, depois de muita pressão, o governo federal sancionou o auxílio emergencial de R$ 600 para auxiliar as famílias mais pobres na pandemia. Para solicitar o auxílio, as pessoas precisam baixar um aplicativo e depois se locomoverem até uma agência para sacar o benefício.

    Indígenas se aglomeram em barracos para cortar fila do auxílio emergencial
    Indígenas se aglomeram em barracos para cortar fila do auxílio emergencial | Foto: Ana Amélia Hamdan/Amazônia Real

    Organizações indígenas e de proteção ao meio ambiente apontam contradições nas duas informações, já que, enquanto indígenas são orientados a ficar nas aldeias, também precisam se locomover não apenas para sacar o auxílio, mas também solicitá-lo, já que nas comunidades a internet é quase inexistente.

    "Para quem não tiver acesso à internet, porém, o governo orienta a fazer o procedimento nas agências da Caixa ou em casas lotéricas, solução que pode agravar as filas e aglomerações que já se formam em todo o país. Essa e outras recomendações não encontram sentido nas realidades específicas de comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas e podem prejudicá-las ainda mais", diz uma publicação no site do Instituto Socioambiental (ISA), onde este responde o que indígenas precisam saber sobre o auxílio emergencial.

    Resultado das aglomerações, mortos e infectados

    O povo que está em aglomeração em São Gabriel da Cachoeira, como verificado pela Amazônia Real, é o Yanomami. Desta etnia, até esta quinta-feira (6), haviam sido infectados 377 indígenas, com quatro mortes. Os números são da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), mas há quem discorde dos dados.

    Integrantes do movimento indigenista denunciam que a Sesai, vinculada ao Ministério da Saúde, apenas registra indígenas infectados e mortos quando estes vivem em aldeias, quando, na verdade, são considerados indígenas até mesmo os que vivem nas cidades. 

    Também de acordo com a Sesai, até a mesma data, a Covid-19 havia afetado 17.198 indígenas e matado 305.

    De acordo com a Confederação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), até 3 de agosto, a Covid-19 estava presente em 121 povos e havia matado 549 indígenas em 89 grupos étnicos.

    Sem respostas

    Para esta reportagem, o EM TEMPO entrou em contato com o Ministério Público Federal no Amazonas (MPF-AM) e a Fundação Nacional do Índio (Funai). O objetivo era saber se ambos os órgãos sabiam das aglomerações em São Gabriel da Cachoeira e quais as medidas eles estavam tomando, no entanto, até o fim desta reportagem, não houve retorno. 

    Conheça o projeto Amazônia

    O "Projeto Amazônia", da Rede EM TEMPO de Comunicação, com sede em Manaus, Amazonas, Região Norte do Brasil, tem a finalidade de dar visibilidade as populações da região, como ribeirinhos, povos indígenas, moradores da periferia das grande cidades, bem como destacar a riqueza da biodiversidade da Floresta Amazônica e a defesa de seu ecossistema. Não é possível falar de Amazônia sem falar sobre as características peculiares dos povos que a habitam, na convivência com essa natureza selvagem e, ao mesmo tempo, fantástica. Ciente da importância da Amazônia para o planeta, a empresa de comunicação, em parceria com a Google, tem a satisfação de apresentar ao mundo uma série de conteúdos multimídia sobre esse espaço da América do Sul e esse continente de superlativos. Saiba mais aqui.

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