Fonte: OpenWeather

    SÉRIE AMAZÔNIA


    Crianças ribeirinhas e as dificuldades para acessar direitos básicos

    Segurança, educação, saúde e saneamento básico. Para os cerca de 37 mil ribeirinhos que vivem o Amazonas, ter todos esses direitos não faz parte da realidade

    Crianças enfrentam luta diária para alcançar direitos como saúde e educação | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Eram 9h da manhã, mas o sol na Amazônia já reinava supremo na comunidade ribeirinha do Abelha, região metropolitana de Manaus. Na beira do rio, o mormaço esquentava a pele da dona de casa Clarinda, 43, que se preparava para zarpar de bote com os dois filhos menores. A falta de um posto de saúde na comunidade fez a família acordar cedo para tentar se vacinar em uma comunidade mais desenvolvida nas proximidades, a de Nossa Senhora de Fátima. 

    Clarinda teria feito de tudo para não precisar pagar R$ 4 (por pessoa e trecho) para ir até o posto de saúde, mas não tinha jeito. Ela teria de visitar o lugar que ficou na sua memória como um espaço que lhe deu muita raiva no passado.

    Clarinda se prepara para entrar no bote e seguir para o posto de saúde
    Clarinda se prepara para entrar no bote e seguir para o posto de saúde | Foto: Lucas Silva

    "Meu filho mais velho tinha um problema de asma quando era mais novo. E as duas vezes que eu precisei ir nesse posto de saúde, eles não me atenderam. Falaram que  eu deveria ter ido direto a Manaus, que eles não podiam me atender. [...] tive medo de perder meu filho, e uma vez eles [do posto de saúde] me viram chorando lá, e eu disse que ia denunciar, porque se eles não podiam me ajudar com remédio, podiam pelo menos me consolar para eu não entrar em desespero", conta a mãe, magoada.

    Clarinda diz que as crises de asma do seu filho passaram com o tempo, mas que toda a família ainda precisa ir ao posto de vez em quando, como naquela segunda-feira ensolarada. Mas saúde não é o único dos direitos que têm dificuldade para navegar pelos rios da Amazônia e alcançar os ribeirinhos.

    "Nós chegamos aqui [na comunidade do Abelha] em 2012.  É uma dificuldade, não tem posto de saúde, não tem posto policial. A escola só vai até o quinto ano do ensino fundamental. E nós precisávamos de alguém que olhasse pelo menos para as nossas crianças, porque as drogas também já estão tomando conta de tudo. E a gente escolheu esse lugar para cá, para gente dar um futuro melhor pros nossos filhos", comenta Clarinda. 

    Dona de casa diz sonhar para o filho uma vida melhor do que eles atualmente têm
    Dona de casa diz sonhar para o filho uma vida melhor do que eles atualmente têm | Foto: Lucas Silva

    Além dos filhos da dona de casa, moram na comunidade pelo menos outras 400 crianças, segundo a associação de moradores. A região começou a ver sua população crescer em 2011, quando ganhou o nome 'Comunidade do Abelha', se tornando uma das mais recentes da região metropolitana de Manaus. Justamente por ser nova, seu aspecto lembra um bairro pouco desenvolvido. As ruas são de terra batida, as casas de madeira. O único transporte é por moto, em terra, ou barco, no rio. 

    Uma das poucas casas de alvenaria da comunidade Abelha
    Uma das poucas casas de alvenaria da comunidade Abelha | Foto: Lucas Silva

    "Meu sonho é ver a comunidade [se desenvolver], que eu não queria que meus filhos fossem para outra comunidade [ter que ir estudar ou ser atendidos por médicos]. Tudo o que eu queria era uma escola para os meus filhos terminarem o estudo perto de mim, um posto de saúde e um posto policial para quando precisasse", desabafa Clarinda. 

     A comunidade tem uma escola particular alugada pela prefeitura de Manaus, que ministra aula para o ensino fundamental I. Após essa série, as crianças precisam estudar em comunidades mais distantes, e vão com barcos pagos pelo governo municipal. 

    Escola municipal da comunidade
    Escola municipal da comunidade | Foto: Lucas Silva

    Sobre o posto de saúde, há algumas paredes erguidas no centro da 'Abelha', mas que nunca foi mais do que isso. Sem a ajuda dos governos, sejam municipais ou estaduais, foram os próprios moradores que tentaram construir a casinha para atendimento médico.

    Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (Semsa) disse ter conhecimento dessa realidade. 

    "Não há construção de Estabelecimento Assistencial de Saúde (EAS) em andamento no âmbito do Distrito de Saúde Rural da Semsa. A obra referida pelos comunitários é uma iniciativa dos próprios moradores, e não da Secretaria. Ainda não há previsão de construção de uma UBS para essa área. A referida comunidade (Abelha) faz parte do território de abrangência da UBS Nossa Senhora de Fátima, que atende não apenas à comunidade que lhe dá nome, mas também às do seu entorno, entre as quais se inclui a Abelha. Assim sendo, só na comunidade Abelha, temos um total de 354 pessoas recebendo atendimento e acompanhamento pela equipe da UBS Fátima. Além de acolher os comunitários do território, a UBS Fátima possui uma equipe de ACS, que faz o trabalho diário de visitação dos moradores. O acesso à UBS, para os moradores da Abelha, acontece apenas por via fluvial, mas a unidade fica a poucos minutos de distância".

    Gravidez ribeirinha

    Filho ou filha? Fabrícia Raiane gostaria muito de poder dizer, mas ela está há três meses à espera de uma vaga para um ultrassom que não sai. A gravidez já entra no quinto mês, e até o momento a mãe não sabe como está a criança que espera.

    "O médico foi bem sincero, ele disse que a gente deveria conseguir um dinheiro [para pagar uma ultrassonografia particular] para ver como tá o bebê, para fazer o pré-natal correto porque talvez possa ser que o bebê nasça e eles não consigam a vaga [no sistema de saúde]", diz a mãe, aflita.

    Fabrícia com seus filhos
    Fabrícia com seus filhos | Foto: Lucas Silva

    Fabrícia também é moradora da comunidade do Abelha. Em uma pequena casa de madeira, mora ela, seu marido e mais três filhos. 

    Ela também precisa visitar o posto de saúde na comunidade Nossa Senhora de Fátima, por onde faz o atendimento. Mas já relata ter medo da hora em que o bebê nascer. Para quem mora longe de tudo, o que menos pode acontecer é precisar ir a algum lugar sem planejamento.

    "Eu tenho muito medo [da hora que a bolsa estourar]. Eu quero ir antes para Manaus, porque eu tenho família lá, então pretendo ir antes, mas a questão financeira, só Deus sabe se vai ser possível ou não, porque a gente tem que preparar o enxoval, material de higiene.  Tem que ter dinheiro para estadia, transporte, alimento. E aí quando a gente espera um bebê, tudo é em dobro", conta Fabrícia. 

    Reflexo do todo

    Quem mora ou trabalha nessas comunidades ribeirinhas garante que o cenário descrito acima se repete em muitas calhas de rios. 

    Walmira Gama, vice-presidente da 'Abelha' diz que já houve muito problema de saúde com as crianças que ali habitam.

    "Aqui até a água é precária, porque a gente bebe de poço, mas nem todos são de qualidade. Então as crianças tinham muita diarreia, ficavam desidratadas. E a maioria das mães aqui vivem do Bolsa Família, recebem R$ 250, até R$ 140 reais. São pessoas que precisam de ajuda", destaca ela.

    Walmira é vice e seu esposo, Luiz, é presidente da comunidade. Os dois acumulam um mandato que já dura 12 anos
    Walmira é vice e seu esposo, Luiz, é presidente da comunidade. Os dois acumulam um mandato que já dura 12 anos | Foto: Lucas Silva

    Quem também conhece a realidade é Olímpio Carneiro, empreendedor no ramo de turismo. Ele percorre pelos rios e comunidades toda semana, há mais de dez anos. 

    "O povo é sofrido, e você vê o seguinte: tudo na Amazônia depende do transporte fluvial, inclusive o acesso aos serviços básicos. E quando o rio está cheio é uma maravilha, porque a lancha entra, chega até a casa da pessoa, até a comunidade. Mas quando está seco, é muito cansativo. E muitas comunidades não tem estrutura nenhuma. Não tem energia elétrica, posto de saúde ou saneamento", relata ele.

    A relação dos ribeirinhos com a floresta e os rios

    Cerca de 37 mil pessoas vivem à beira de rios que cortam as matas do Amazonas, maior estado do Brasil em extensão. O dado é do Projeto Povos Ribeirinhos, divulgado pelo jornal O Globo. Essas pessoas muitas vezes nascem, crescem e morrem nesses espaços.

    Ana Claudeise é cientista social e líder do grupo de pesquisa Territorialidade e Governança Socioambiental na Amazônia, pertencente ao IDSM. Ela conta que os ribeirinhos têm um grande poder de adaptação à realidade amazônica e se veem muito ligados aos espaços em que vivem.

    Cientista social explica sobre a vivência ribeirinha
    Cientista social explica sobre a vivência ribeirinha | Foto: Divulgação

    "Os ribeirinhos são chamados assim porque moram na margem de rios e igarapés e, por causa disso, a vida deles é regida pelo movimento desses afluentes. São gerações e gerações que vivem dessa forma e têm todo esse sistema social construído a partir dessa relação e inter-relação com o ambiente. E o rio é fundamental na vida dessas pessoas. É de lá que eles se deslocam para outros lugares, tiram os alimentos e bebem água. A relação rio e populações tradicionais é muito forte", diz a pesquisadora. 

    Ela conta que tirar os ribeirinhos dos espaços que ocupam seria arrancar deles a própria vida e o que acreditam. Ana lembra quando em uma de suas pesquisas, perguntou a uma mulher ribeirinha o porquê de ela viver naquele ambiente.

    "Ela respondeu que vivia ali porque lá era o lugar dela, porque havia nascido lá, e era onde tinha sido criada. A história e as raízes estavam na beira do rio e não tinha motivo para se mudar", conta a cientista social.

    Ajuda governamental

    A Secretaria de Estado da Assistência Social (Seas) é uma das responsáveis por ajudar os ribeirinhos que moram no interior do Amazonas. No atendimento aos ribeirinhos, a pasta tem focado em ações para mitigar os efeitos da crise do coronavírus.

    A pasta está viabilizando, atualmente, o pagamento de três parcelas no valor de R$ 200 do programa Apoio Cidadão para 50 mil famílias (metade do interior). O cartão possibilita a aquisição de produtos alimentícios, de higiene pessoal e limpeza doméstica em estabelecimentos credenciados.   

    Outra frente de trabalho é a doação de alimentos para entidades socioassistenciais da capital e da área metropolitana de Manaus que atuam diretamente com o atendimento à população em situação de extrema pobreza. Um volume de cinco toneladas de alimentos é  disponibilizado todas as quartas-feiras pela Agência de Desenvolvimento Sustentável para a Seas, que repassa estes produtos para as entidades credenciadas, desde o início da pandemia. 

    Seas tem realizado ações ações na beira dos rios do Amazonas
    Seas tem realizado ações ações na beira dos rios do Amazonas | Foto: Divulgação

    Na mesma nota, a Seas também informou que viabiliza a doação de cestas básicas aos moradores dos municípios do interior para suprir a carência alimentar e nutricional nesse contexto de pandemia pela Covid-19.

    "Os municípios de Manacapuru e Iranduba foram atendidos com esta ação que teve início no mês de maio. Em Iranduba, além das comunidades ribeirinhas, moradores de casas flutuantes do Distrito de Cacau Pereira foram beneficiados. Em Manacapuru, além dos ribeirinhos, moradores de ramais foram atendidos pela Seas", informou a Secretaria.

    Veja a matéria completa da WEB TV EM TEMPO:

    Leia Mais

    Ribeirinhos estão sem energia elétrica após incêndio em mata no AM

    Artesanato indígena: subsistência, cultura e exploração

    Comentários